O que significa projetar uma casa quando quem vai morar nela tem uma forma de viver diferente daquela que o(a) arquiteto(a) está acostumado a considerar? Para estudantes de Arquitetura e Urbanismo da UFSM, a resposta começou pela escuta. Ao conhecer a Retomada Kaingang Vẽn Ga, localizada no terreno da antiga Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro), eles perceberam que soluções comuns em projetos habitacionais, como garagens, suítes e grandes áreas para circulação de carros, nem sempre correspondiam às necessidades da comunidade. A partir dessa experiência, desenvolveram propostas que priorizam espaços coletivos, áreas verdes e elementos relacionados à cultura Kaingang — e passaram a questionar também a própria maneira de pensar a Arquitetura.
As propostas foram desenvolvidas na disciplina Ateliê 4 de Arquitetura e Urbanismo, em articulação com o programa de extensão ATHIS/REURB-UFSM. A atividade partiu de uma demanda concreta da Retomada, que reúne famílias indígenas atingidas pelas enchentes de 2024 e que enfrentam, desde então, dificuldades relacionadas à moradia e à estruturação do território. Para Erni Amado, cacique da Retomada Kanhgág Vẽn Ga, a questão da moradia está ligada à própria possibilidade de as famílias reconstruírem suas vidas com segurança. Ele explica que a comunidade surgiu depois que famílias de diferentes cidades foram atingidas pelas enchentes. “Desde quando nós chegamos, a gente teve muitas dificuldades, necessidades também, a gente passa por muitas necessidades”, relata Erni.
A aproximação com a comunidade fez com que os estudantes fossem além de um programa arquitetônico previamente definido. Eles visitaram a Retomada, observaram a rotina dos moradores e procuraram compreender como as famílias utilizavam os espaços. Para o professor Hugo Blois, que atua no trabalho desenvolvido pelo ATHIS/REURB-UFSM, o objetivo da Universidade não é simplesmente produzir projetos para depois executá-los, mas contribuir para que a própria comunidade reconheça possibilidades para enfrentar suas demandas. “O maior resultado que a gente pensa atingir é, assim, mobilizar a comunidade também. Porque a gente nunca vai com o espírito de fazer, mas mostrar que há caminho”, explica Hugo.
As propostas elaboradas pela Universidade não têm, por si só, financiamento para execução. A contribuição está na produção de conhecimento e de projetos que possam ajudar a comunidade a avançar na busca por soluções. Segundo Hugo, a intenção é que esse trabalho ofereça instrumentos para que os moradores possam buscar caminhos para suas demandas.

Projetar a partir do modo de vida
Foi a partir da escuta da comunidade que algumas escolhas de projeto começaram a mudar. Em vez de grandes áreas destinadas à circulação e ao estacionamento de veículos, as propostas priorizaram espaços para pedestres, áreas verdes e ambientes de uso coletivo.
Foi justamente esse contato que levou Nicole Aosani e Cecília Zanini, estudantes do 10º semestre, a questionarem soluções que normalmente apareceriam em um projeto de habitação. “Acho que é não ter um padrão. Então a gente vai ter que entender a necessidade de cada usuário. Isso a gente já sabia, mas ver uma coisa tão diferente mesmo foi muito legal assim, de pensar fora da caixa, do padrão que a gente normalmente utiliza nas casas que a gente vai projetar”, contam.
A implantação dos projetos também refletiu essa mudança. “Então ficou muita área verde. Como a gente não teve que pensar em pavimento, não tem grande área de estacionamento, não tem garagem, não tem grandes espaços para os carros circularem, é mais a parte do pedestre e muita área verde”, explicam as estudantes.
A escolha dos materiais também foi influenciada pelas conversas com a comunidade. Taquara, palha, madeira e outros materiais naturais apareceram nas propostas como forma de estabelecer uma relação com elementos valorizados pelos moradores. “A gente até usou na nossa cobertura a palha, que é mais da cultura deles. Materiais assim mais naturais: a gente usou tijolinho, usou palha, usou madeira…”, relatam Nicole e Cecília.
Para Erni, essa relação com os materiais não é apenas estética. O próprio nome Vẽn Ga está relacionado à taquara, elemento presente no território e também na produção de artesanato da comunidade. “Vẽn Ga, em Kaingang, quer dizer ‘Lugar das Taquaras’. Então a gente, como tem taquara ali e a gente já vem de muito tempo trabalhando com os nossos artesanatos, a gente tem muito conhecimento sobre isso.”
A comunidade também apresentou aos estudantes uma concepção de espaço coletivo que não aparece necessariamente em modelos convencionais de habitação. Elisandra Ribeiro, membro da comunidade e representante das mulheres indígenas, destaca a importância de manter áreas verdes e espaços coletivos: “A gente sempre gosta de estar fazendo as nossas comidas típicas em conjunto, né? Isso daí também eu achei bem importante.”
Para ela, algumas das propostas apresentadas pelos estudantes conseguiram se aproximar das necessidades da comunidade, enquanto outras ainda reproduziam soluções mais convencionais. “Teve alguns dos grupos que corresponderam às nossas necessidades”, avalia Elisandra. Ela cita como exemplo uma proposta de escola com cobertura de capim.
Uma experiência que modifica o olhar profissional
A troca também exigiu que os estudantes mudassem a maneira de se comunicar. Em vez de utilizar apenas termos técnicos da Arquitetura, eles precisaram explicar as propostas de forma acessível aos moradores. “Com eles, a gente teve que ter uma comunicação mais simples, uma comunicação que não usasse termos específicos”, relatam Nicole e Cecília.
Para as estudantes, o aprendizado não termina com a entrega do projeto. A experiência também modifica a maneira como pretendem trabalhar depois da graduação. Elas relacionam essa transformação a uma reflexão feita pelo professor Hugo durante a disciplina: “Isso molda um pouco de maturidade, olhar… tu te envolve com a causa e acaba levando isso para ti em outros projetos.”
Essa perspectiva está relacionada ao entendimento de Hugo sobre a própria formação em Arquitetura. Para o professor, o contato com comunidades que enfrentam dificuldades de acesso à moradia e à infraestrutura também deve contribuir para formar profissionais capazes de compreender a dimensão social da profissão. “Eu acho que o curso de Arquitetura, ele também tem essa obrigação, no sentido de dar a formação do arquiteto com uma visão humanista também, que é olhar para a cidade com um olhar diferente e entender que a cidade pertence a todos.”
Na Retomada Vẽn Ga, essa dimensão aparece também na necessidade de espaços destinados às crianças e ao ensino da língua indígena. Hugo relata que a comunidade busca uma escola indígena desde a chegada ao território.
Do projeto acadêmico a um possível caminho para a comunidade
Para a comunidade, as propostas apresentadas pelos estudantes não representam apenas um exercício de sala de aula. Erni conta que ficou impressionado com diferentes projetos e que gostaria de utilizar o trabalho desenvolvido pela Universidade como referência para buscar recursos que permitam concretizar algumas das ideias. “Eu vou trabalhar com esses professores”, afirma Erni, ao explicar que pretende buscar orientações sobre quais projetos apresentam menor custo e podem contribuir para a busca de recursos junto ao poder público e à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
A partir das propostas, a comunidade poderá avaliar quais ideias podem servir de referência para essa busca. A concretização dos projetos, no entanto, depende de outras etapas e da obtenção de recursos que não estão sob responsabilidade da disciplina ou do projeto de extensão. Para Hugo, é justamente nessa relação entre elaboração acadêmica e demanda concreta que está parte do sentido do trabalho. A Universidade contribui com conhecimento e projetos, enquanto a comunidade pode utilizar esses instrumentos para avançar na busca por soluções para o território.
Para os estudantes, a experiência deixou uma reflexão que ultrapassa o projeto desenvolvido para a Retomada: antes de desenhar uma casa, é preciso compreender quem vai viver nela. O contato com a comunidade mostrou a importância de ouvir suas necessidades, compreender suas referências culturais e pensar os espaços a partir da maneira como serão vivenciados por quem vai utilizá-los.
Quer participar de futuras atividades?
As ações descritas nesta matéria fazem parte do Programa de Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social e Reurbanização de Assentamentos Humanos Precários da UFSM (ATHIS/REURB-UFSM), projeto de extensão que atua na assessoria a comunidades com demandas relacionadas à habitação, à qualificação dos espaços e à regularização de assentamentos. O programa também funciona como espaço de formação em ensino, pesquisa e extensão e busca aproximar a Universidade de comunidades, órgãos públicos e outros atores envolvidos com a habitação de interesse social. Interessados em conhecer o projeto ou saber sobre futuras atividades podem entrar em contato com o coordenador, Edson Luiz Bortoluzzi da Silva.
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