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Pesquisa da UFSM sobre ODS na formação em Arquitetura é publicada pela Springer Nature

Capítulo analisa 21 Trabalhos Finais de Graduação e mostra como saúde, inclusão, energia e demandas sociais são incorporadas aos projetos



Um centro comunitário para uma pequena comunidade afetada por enchentes. Um parque tecnológico com geração de energia fotovoltaica, reúso de água e áreas de preservação. Intervenções para a Comunidade Carlos Marighella, com habitações, equipamentos de saúde, infraestrutura urbana e técnicas de permacultura. Os projetos são diferentes, mas partem de uma mesma ideia: a Arquitetura pode responder a problemas que vão muito além da construção de um edifício.

Foi a partir dessa perspectiva que pesquisadores do Grupo de Pesquisa em Energia e Sustentabilidade no Ambiente Construído (Grupo CASE), da UFSM, analisaram 21 Trabalhos Finais de Graduação desenvolvidos entre 2020 e 2024. O estudo investigou como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) aparecem nos projetos arquitetônicos e em diferentes etapas de seu desenvolvimento. Os resultados integram o capítulo Evaluation of the Integration of UN SDGs in Architecture Final Undergraduate Projects: Insights from Latin America, publicado pela Springer Nature no livro Introducing the UN SDGs in Higher Education Institutions, da série World Sustainability Series.

A publicação surgiu depois que o grupo recebeu o chamamento para a obra, dedicada ao uso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas nas instituições de ensino superior. A proposta chamou a atenção dos pesquisadores porque dialogava diretamente com uma linha de trabalho já desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa em Energia e Sustentabilidade no Ambiente Construído (CASE) em projetos de ensino, pesquisa e extensão voltados à sustentabilidade.

Ao observar os Trabalhos Finais de Graduação em Arquitetura orientados pelo grupo, os pesquisadores identificaram uma forte aderência aos ODS e decidiram investigar essa relação de forma sistemática. O estudo mostrou que, entre os 21 trabalhos analisados, 13 partiram de demandas sociais e oito de propostas de negócio. Os projetos incluíram equipamentos institucionais e culturais, espaços comerciais, estruturas de saúde e propostas voltadas a comunidades específicas.

Entre os trabalhos relacionados a demandas sociais, os objetivos mais frequentes foram Saúde e Bem-Estar, Energia Acessível e Limpa, Redução das Desigualdades, Consumo e Produção Responsáveis e Parcerias e Meios de Implementação. Nas propostas de negócio, destacaram-se Saúde e Bem-Estar, Energia Acessível e Limpa, Ação contra a Mudança Global do Clima e Parcerias e Meios de Implementação.

Saúde, energia e parcerias apareceram nos dois grupos em mais de 75% das propostas.

Arquitetura para além das soluções construtivas

Um dos resultados chamou a atenção dos pesquisadores porque contrariou uma expectativa inicial. Cidades e Comunidades Sustentáveis parecia ser um dos objetivos mais diretamente relacionados à Arquitetura. No entanto, não teve presença expressiva entre os trabalhos analisados. A explicação está, em parte, no próprio recorte da pesquisa, que considerou aplicações urbanas sustentáveis, mas não estratégias específicas aplicadas a uma única edificação.

Ao mesmo tempo, outros objetivos ganharam destaque, especialmente aqueles relacionados à saúde, à redução das desigualdades e às parcerias. Para os pesquisadores, o resultado mostra que a preocupação dos estudantes não se restringe às técnicas construtivas sustentáveis. Ela também aparece na escolha dos problemas que os projetos procuram enfrentar e nas pessoas que irão utilizar os espaços.

Saúde e Bem-Estar, por exemplo, aparece em diferentes temáticas, desde equipamentos de saúde e esportivos até áreas de lazer ao ar livre destinadas à população. Redução das Desigualdades está presente em projetos voltados a parcelas vulneráveis da população. Já Parcerias e Meios de Implementação aparece também associada a modelos de negócio e à manutenção dos projetos propostos, frequentemente por meio de parcerias entre instituições públicas e privadas. Essa dimensão fica evidente nos três trabalhos que apresentaram maior número de objetivos entre os 21 analisados.

Um deles propôs um centro comunitário para uma pequena comunidade afetada por enchentes, reunindo espaços de convivência, biblioteca, salão e áreas esportivas. Outro desenvolveu um parque tecnológico com geração fotovoltaica, reúso de água, áreas de preservação e espaços destinados ao uso público. O terceiro propôs intervenções para a Comunidade Carlos Marighella, incluindo habitações, equipamentos de saúde, infraestrutura urbana, técnicas de permacultura e parcerias entre instituições públicas.

Esses três projetos incorporaram, respectivamente, 15, 13 e 10 dos objetivos analisados. Todos estavam relacionados a organizações comunitárias ou a demandas sociais previamente estabelecidas.

ODS aparecem com mais força no detalhamento

A pesquisa também revelou que os objetivos não aparecem da mesma maneira durante o desenvolvimento dos projetos. Na etapa de estudos referenciais e de precedentes, Parcerias e Meios de Implementação estava presente em 19 dos 21 projetos, enquanto Redução das Desigualdades aparecia em 18. Saúde e Bem-Estar estava presente em 15 trabalhos, e Educação de Qualidade e Energia Acessível e Limpa, em 10 cada.

Nas etapas seguintes, algumas dimensões ganharam força. Energia Acessível e Limpa teve o crescimento mais expressivo, passando de 10 ocorrências na fase inicial para 15 na etapa final. Vida Terrestre também aumentou, de nove para 11 ocorrências. Já Redução das Desigualdades passou de 18 ocorrências na pesquisa de precedentes para 16 na etapa de conceito e desenvolvimento e 17 na etapa final.

Para a professora Ísis Portolan dos Santos, coordenadora do Grupo CASE e uma das autoras do estudo, o comportamento revela uma característica importante do processo de projeto: “Os ODS são aplicados de forma diferente em cada etapa de projeto, aumentando o uso dos ODS quando da etapa final de detalhamento e especificação do projeto.”

Na prática, isso significa que os estudantes nem sempre têm os ODS explicitamente colocados como premissa nas primeiras fases do projeto. Algumas preocupações aparecem posteriormente, quando soluções específicas precisam ser definidas. É o caso dos projetos hidrossanitário e elétrico. Estratégias como reúso de água e geração de energia por fontes alternativas aparecem com maior frequência nas etapas de desenvolvimento e detalhamento.

O resultado traz uma questão importante para a formação: como fazer com que essas preocupações estejam presentes desde as primeiras decisões do projeto, e não apenas quando as soluções técnicas precisam ser especificadas? Para os pesquisadores, essa é uma possibilidade de avanço no ensino de Arquitetura.

Uma formação atenta às comunidades

A pesquisa encontrou ainda diferenças na presença dos objetivos ao longo dos anos. A média identificada em cada projeto caiu de nove objetivos, em 2020, para oito em 2021 e sete em 2022 e 2023. Em 2024, voltou a dez. Os autores levantam a possibilidade de que o período de ensino remoto durante a pandemia tenha reduzido o contato dos estudantes com comunidades e atividades práticas, mas ressaltam que essa relação precisaria ser investigada em estudos futuros.

Outro ponto chamou atenção: Igualdade de Gênero esteve entre os objetivos menos citados nos trabalhos, indicando uma dimensão que pode ser mais explorada na formação em Arquitetura e Urbanismo. Também houve menor presença de temas relacionados à indústria, inovação e infraestrutura.

Ao mesmo tempo, a presença de demandas sociais entre os projetos analisados levou os pesquisadores a refletir sobre a própria formação oferecida no curso. Para Ísis, as atividades de extensão desenvolvidas pela graduação podem estar relacionadas à maneira como os estudantes desenvolvem esse olhar para as comunidades — embora essa relação ainda precise ser investigada.

A professora também destaca que os resultados apontam para uma compreensão da Arquitetura que ultrapassa a técnica construtiva: “A importância é mostrar ao mundo o tipo de produção que a UFSM realiza, incorporando muitos elementos além da arquitetura em si, o que pode ser diferente de muitos outros locais do mundo.” Segundo ela, a análise também reforça a importância da articulação entre ensino, pesquisa e extensão na formação dos estudantes.

O que a pesquisa revela sobre os futuros arquitetos

Ao analisar os projetos desenvolvidos ao longo de cinco anos, o estudo não apenas identificou quais objetivos aparecem com maior frequência. Ele permitiu observar como questões sociais e ambientais entram no processo de formação de futuros arquitetos.

Nos trabalhos analisados, sustentabilidade apareceu associada à saúde, à energia, à água, à redução das desigualdades, à preservação ambiental, às parcerias e às necessidades de comunidades específicas. Para os pesquisadores, isso reforça a ideia de que a Arquitetura vai além da técnica construtiva: envolve as pessoas que utilizarão os espaços e a relação desses espaços com as comunidades onde estão inseridos.

A pesquisa também aponta caminhos para novos estudos. Análises envolvendo outros docentes, instituições e contextos podem ajudar a compreender melhor como diferentes estratégias de ensino influenciam a incorporação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável na formação profissional.

O capítulo publicado internacionalmente é assinado por Ísis Portolan dos Santos, Elaise Gabriel, Jenifer Godoy Daltrozo, Raiane Pires Tolio e Debora Cristiele Kummer. Ao levar a produção desenvolvida na UFSM para uma publicação internacional sobre sustentabilidade no ensino superior, o estudo amplia a discussão sobre o papel da formação em Arquitetura — e mostra que, nos projetos analisados, pensar sustentabilidade muitas vezes começa antes de pensar no edifício: começa pela pergunta sobre quem vai ocupar aquele espaço, quais necessidades ele precisa atender e qual relação terá com a comunidade onde está inserido.


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