Quando um território recebe o reconhecimento como Geoparque Mundial da UNESCO, o título reconhece um modelo de desenvolvimento em que patrimônio natural, cultura, educação e participação comunitária caminham juntos para melhorar a qualidade de vida da população. Nesse processo, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) tem desempenhado um papel central na região central do Rio Grande do Sul ao aproximar conhecimento científico, comunidades e poder público por meio da integração entre ensino, pesquisa e extensão.
Atualmente, a região reúne dois territórios reconhecidos pela UNESCO — o Caçapava Geoparque Mundial da UNESCO, certificado em 2022, e o Quarta Colônia Geoparque Mundial da UNESCO, reconhecido em 2023. A trajetória de ambos está diretamente ligada à atuação da universidade, especialmente por meio da Pró-Reitoria de Extensão (PRE), que desde 2018 incorporou os Geoparques como uma de suas ações estratégicas de desenvolvimento regional.
Mais do que preservar a chamada “Memória da Terra”, conceito utilizado pela UNESCO para definir territórios onde a geodiversidade é protegida e utilizada de forma sustentável, os Geoparques buscam transformar esse patrimônio em oportunidades para as comunidades. O turismo, a gastronomia, o artesanato, a agricultura familiar, a economia criativa e a valorização dos saberes tradicionais passam a integrar uma estratégia que associa conservação ambiental, identidade cultural e desenvolvimento econômico.
Universidade e comunidade construindo o território
A participação da UFSM vai além da produção de pesquisas sobre patrimônio geológico, já que a instituição atua como articuladora de uma ampla rede de cooperação que reúne comunidades locais, administrações municipais, escolas, instituições públicas e privadas, empreendedores e organizações da sociedade civil.
Essa atuação ocorre por meio de projetos extensionistas, pesquisas aplicadas, atividades de ensino, programas de formação, ações educativas e iniciativas voltadas ao fortalecimento das economias locais. A proposta é construir soluções em conjunto com as comunidades, respeitando seus modos de vida, seus conhecimentos tradicionais, sua cultura e suas potencialidades.
Ao integrar diferentes áreas do conhecimento, a universidade contribui para qualificar produtos e serviços, fortalecer o turismo sustentável, incentivar novos empreendimentos, preservar patrimônios naturais e culturais, além de ampliar as possibilidades de permanência dos jovens nos territórios. Ao mesmo tempo, os Geoparques tornam-se espaços privilegiados para o desenvolvimento de projetos acadêmicos, pesquisas científicas e ações extensionistas, fortalecendo a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
Caçapava do Sul: uma construção coletiva iniciada em 2018

A trajetória do Caçapava Geoparque Mundial da UNESCO começou a ganhar forma em 2018, quando a UFSM iniciou uma série de reuniões com representantes da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), gestores municipais, lideranças locais e instituições parceiras para discutir a construção de uma estratégia integrada de desenvolvimento territorial.
Coordenado pela UFSM em parceria com a Unipampa – Campus Caçapava do Sul, o projeto consolidou uma proposta baseada na valorização do patrimônio geológico, natural e cultural da região. O território abriga sucessões de rochas sedimentares marinhas e continentais com mais de 500 milhões de anos, paisagens de grande relevância científica e beleza cênica, como as Pedras das Guaritas e a Serra do Segredo, além de fósseis da megafauna, especialmente de preguiças-gigantes, e uma rica biodiversidade do Bioma Pampa.
O patrimônio natural soma-se à diversidade cultural presente nas comunidades indígenas, quilombolas, pecuaristas familiares e demais grupos que preservam modos de vida tradicionais. Essa integração entre natureza, cultura e participação comunitária constitui um dos pilares do Geoparque.
Em 2019, o trabalho foi ampliado com atividades de sensibilização, mobilização e capacitação junto ao poder público, setor produtivo e comunidades locais. No mesmo período, a UFSM lançou uma chamada interna que financiou oito projetos de extensão voltados exclusivamente ao território. As iniciativas envolveram dezenas de estudantes, docentes, técnicos-administrativos e colaboradores externos, fortalecendo o diálogo entre universidade e sociedade.
Esse conjunto de ações transformou uma rede de cooperação entre universidades, municípios, entidades representativas e comunidades locais, fortalecendo a governança territorial e construindo as bases que levaram ao reconhecimento internacional pela UNESCO em 2022.
Desde então, o Geoparque Caçapava do Sul ampliou suas ações de geoconservação, educação, pesquisa, geoturismo e desenvolvimento regional. Também fortaleceu redes de cooperação nacionais e internacionais e passou a desenvolver iniciativas alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, promovendo conservação ambiental, formação de profissionais, valorização da cultura local e geração de oportunidades para a população.
Quarta Colônia: duas décadas de atuação da UFSM

A construção do Quarta Colônia Geoparque Mundial da UNESCO possui uma trajetória ainda mais longa. Desde o início dos anos 2000, pesquisadores da UFSM desenvolvem estudos e projetos voltados ao patrimônio geológico, paleontológico, ambiental e cultural da região.
Reconhecido pela UNESCO em 2023, o território reúne nove municípios da região central do Rio Grande do Sul — Agudo, Dona Francisca, Faxinal do Soturno, Ivorá, Nova Palma, Pinhal Grande, Restinga Sêca, São João do Polêsine e Silveira Martins —, ocupando uma área de aproximadamente 2.923 quilômetros quadrados.
Situado entre os biomas Mata Atlântica e Pampa, o território abriga escarpas arenítico-basálticas, rios, cascatas, vales e importantes depósitos fossilíferos do período Triássico, considerados entre os mais relevantes do mundo para os estudos sobre a origem e evolução dos dinossauros. Espécies como Buriolestes schultzi, Bagualosaurus agudoensis e Macrocollum itaquii foram descritas a partir de fósseis encontrados na região.
Entretanto, a riqueza do território vai além da paleontologia. A identidade cultural formada por povos indígenas, comunidades quilombolas e descendentes de imigrantes italianos, alemães e portugueses está presente na arquitetura, gastronomia, festas populares, agricultura e nos saberes tradicionais preservados pelas comunidades.
A universidade foi uma das principais articuladoras do processo de reconhecimento internacional do território, atuando em parceria com o Consórcio de Desenvolvimento Sustentável da Quarta Colônia (CONDESUS), administrações municipais, escolas, empreendedores e organizações locais.
Extensão como ferramenta de desenvolvimento regional
Grande parte dessa atuação é coordenada pela Coordenadoria de Desenvolvimento Regional (CODER), vinculada à Pró-Reitoria de Extensão. A unidade articula uma ampla rede de projetos de ensino, pesquisa e extensão voltados ao fortalecimento das comunidades e à valorização do patrimônio regional.
Entre as iniciativas desenvolvidas estão ações de educação patrimonial, arqueologia, geoconservação, turismo sustentável, agricultura familiar, empreendedorismo, preservação ambiental e formação comunitária.
Projetos como a Jornada Interdisciplinar de Formação de Professores em Educação Patrimonial aproximam educadores, estudantes e comunidades do patrimônio geológico e cultural da região. Já iniciativas como o Museu Virtual CAPPA ampliam o acesso público às pesquisas desenvolvidas pela universidade e fortalecem a divulgação científica.
A CODER também participa da construção de políticas públicas e programas voltados à inclusão social e ao desenvolvimento econômico, fortalecendo a governança territorial e incentivando a cooperação entre universidades, gestores públicos, empreendedores e lideranças comunitárias.
Qualificação profissional e geração de oportunidades
Entre as iniciativas coordenadas pela universidade destaca-se o Progredir Geoparque Quarta Colônia, lançado em 2022 pela Pró-Reitoria de Extensão em parceria com o CONDESUS e os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) dos nove municípios do território.
Financiado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, o projeto oferece qualificação profissional para pessoas inscritas no Cadastro Único, promovendo formação voltada às áreas de cultura, turismo, empreendedorismo e desenvolvimento territorial.
Registrado como projeto de extensão da UFSM, o Progredir vai além da oferta de cursos. A iniciativa fortalece redes locais, incentiva o empreendedorismo, amplia oportunidades de geração de renda e demonstra como a universidade pública pode atuar diretamente na construção de políticas voltadas ao desenvolvimento social.
Texto: Laura Severo, bolsista de jornalismo da Subdivisão de Divulgação e Editoração (PRE/UFSM).
Revisão: Esther Costa Faria, bolsista de Letras – Português da Subdivisão de Divulgação e Editoração (PRE/UFSM).