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Formigueiro realiza primeira Caminhada Internacional na Natureza e fortalece turismo rural, agricultura familiar e identidade comunitária

Primeira edição da Caminhada Internacional na Natureza reuniu 185 caminhantes em percurso de 12 quilômetros, gerou R$ 12.329,00 em movimentação direta e projetou o município para dentro da rede do PROGEATER, que já soma 3.667 participantes desde a retomada do projeto em 2023



Formigueiro (RS), 16 de agosto de 2026. Um domingo de estradas de chão, propriedades familiares e histórias transmitidas de geração em geração transformou Formigueiro, município localizado na Região Central do Rio Grande do Sul, no mais novo destino do turismo rural gaúcho. A primeira edição da Caminhada Internacional na Natureza, batizada de Carreiros de Formigueiro (Circuito das Origens), reuniu 185 participantes efetivos entre 227 pré-inscritos, em um percurso de aproximadamente 12 quilômetros que atravessou comunidades quilombolas, núcleos de imigração italiana e alemã e propriedades da agricultura familiar. O evento resultou em uma movimentação financeira já contabilizada de R$ 12.329,00 e consolidou a chegada do município à rede do Programa do Geoparque de Assistência Técnica e Extensão Rural (PROGEATER), iniciativa da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em parceria com a Emater/RS-Ascar e as prefeituras da Região Central, que acumula 3.667 caminhantes desde a retomada do projeto, em 2023.

Mais do que uma atividade recreativa, a caminhada em Formigueiro é um estudo de caso de como extensão rural, turismo de base comunitária e estratégia de marca territorial podem convergir em um único evento, com efeitos que vão além do domingo de percurso.

Uma vitrine inédita para o turismo formigueirense

Para a secretária municipal de Cultura, Turismo e Promoção da Igualdade Racial, Laís Moreira Figueiredo, trata-se do primeiro evento de turismo de fato estruturado na história recente do município. “A gente conseguiu mostrar um pouquinho do que a gente fala tanto, da hospitalidade do povo formigueirense, do trabalho da comunidade, das comunidades integradas aqui”, afirmou.

O relato da secretária aponta para um efeito que a literatura de desenvolvimento territorial descreve como ativação de capital social: a mobilização de famílias para preparar casas, quintais e espaços de recepção não é apenas hospitalidade espontânea, é o primeiro sinal de que uma comunidade está disposta a se organizar coletivamente em torno de um produto turístico. “É essa sensação de capacidade, das pessoas sentirem que são capazes e que aqui pode ser feito”, resumiu Figueiredo, associando o evento à construção de um sentimento de pertencimento e de identidade formigueirense, o ativo intangível sobre o qual qualquer estratégia de place branding rural precisa se apoiar antes de investir em infraestrutura ou promoção.

O prefeito Cristiano Rubert reforçou a leitura de que a caminhada abriu uma porta para o desenvolvimento local ao permitir que os visitantes conhecessem de perto as propriedades rurais e a diversidade das comunidades de formação do município, entre elas a quilombola e as de imigração italiana e alemã.

O Circuito das Origens: place branding a partir da memória

A escolha do nome Carreiros de Formigueiro (Circuito das Origens) não é um detalhe estético. Em marketing de destinos, a narrativa de origem é um dos ativos mais difíceis de replicar por concorrentes, porque está enraizada em um território específico e não pode ser copiada por outro município. O tradicionalista Paulo Verne Barreto conduziu, ao longo do percurso, o relato preservado pela comunidade sobre a origem do nome “Formigueiro”: a movimentação de dezenas de carretas durante antigos trabalhos de demarcação de terras teria inspirado a comparação com um formigueiro, substituindo a antiga denominação de Estância de São João.

Ao incorporar essa narrativa oral ao roteiro físico da caminhada, o Circuito das Origens faz o que a segmentação de mercado do turismo de experiência recomenda: transforma um ativo intangível (a memória local) em um ponto de parada tangível, com tempo de permanência e engajamento do visitante. É esse tipo de curadoria, e não apenas a paisagem, que diferencia um roteiro de turismo rural genérico de um produto territorial com identidade própria.

Agricultores como anfitriões: extensão rural em ação

O papel dos agricultores familiares como anfitriões diretos do evento é o ponto em que a metodologia de extensão rural se torna mais visível. Na Chácara das Nogueiras, o agricultor Cláudio Benetti recebeu os caminhantes como ponto de apoio, oferecendo frutas e água. “A gente ficou muito feliz aqui com a visita dessa caminhada do pessoal, e a gente agradece a preferência por parar aqui na nossa propriedade”, disse.

Na localidade de Picada, a agricultora Rosa Coradine converteu em atrativo geológico do circuito um ativo até então pouco valorizado: formações rochosas de sua propriedade com idade estimada em 320 milhões de anos e histórico associado à presença do mar na região. “Rochas que foram encontradas na nossa propriedade. Arenito, cimentado com carbono. Pelos estudos que foram feitos, é mais uma prova que essa região aqui já foi mar no passado”, relatou.

O extensionista rural Abel Dias, chefe do Escritório Municipal da Emater/RS-Ascar de Formigueiro, situou o evento dentro do trabalho de mais longo prazo da instituição: “Nós trabalhamos muito para resgatar, para fazer com que ele permaneça na agricultura familiar, que são os produtos da agricultura familiar, tradicionais, sustentando sempre com menos uso de produtos químicos.” Para Dias, a caminhada cria uma ponte direta entre o momento de visitação e a comercialização: o visitante almoça, conhece o produtor e, na sequência, compra e leva para casa.

É esse encadeamento entre assistência técnica, permanência do produtor no campo e abertura de um canal de comercialização direta ao consumidor que caracteriza a ATER como estratégia de desenvolvimento e não apenas como suporte técnico à produção.

Agricultura familiar em vitrine: da produção ao consumo direto

A feira instalada ao longo do percurso reuniu agroindústrias e grupos de produtores locais, entre eles iniciativas vinculadas às Tábuas do Passo, Tábuas da Estância e Recanto dos Cardeais. Segundo a extensionista Neuza Lorenz, da Emater/RS-Ascar de Formigueiro, os feirantes participam regularmente da feira semanal do município e encontraram na caminhada uma vitrine ampliada para produtos que, de outra forma, circulariam apenas em circuito local.

A feirante Carmen Otília da Silva, do Recanto dos Cardeais, localidade de Faxinal da Eugênia, descreveu sua propriedade como “um espaço terapêutico com recuperação de solo, recuperação do ser humano e dos animais”, um sítio ecossustentável cuja produção comercializada na feira é a mesma consumida pela família. O relato ilustra um segmento de mercado em expansão no turismo rural contemporâneo: o visitante não busca apenas paisagem, busca uma narrativa de produção com rastreabilidade e vínculo direto com quem produz.

Números que sustentam a narrativa

Para além do relato qualitativo, a primeira edição já apresenta indicadores mensuráveis e consolidados. Dos 227 pré-inscritos, 185 efetivamente percorreram o circuito, taxa de conversão de aproximadamente 81%, considerada relevante pela organização para uma primeira edição sem histórico local. Foram servidos 93 cafés da manhã e 164 almoços ao longo do evento. A movimentação financeira direta somou R$ 12.329,00, sendo R$ 6.560,00 em almoços, R$ 1.395,00 em cafés, R$ 430,00 em aluguel do salão e R$ 3.944,00 em vendas dos feirantes e do comércio local. A organização do evento mobilizou 22 pessoas entre representantes regionais e locais (prefeitura, Emater/RS-Ascar, UFSM e demais entidades parceiras), enquanto 21 pessoas da comunidade rural atuaram diretamente no apoio ao café, ao almoço e ao longo da trilha. A feira reuniu 7 expositores, entre agroindústrias e iniciativas de artesanato.

Ainda que modesto em termos absolutos, o valor movimentado em uma única manhã, somado à mobilização de 21 pessoas da comunidade rural e 7 expositores locais, sinaliza um modelo de geração de renda descentralizado, no qual o recurso circula dentro do próprio território em vez de se concentrar em intermediários externos, uma característica estrutural do turismo de base comunitária que o diferencia de modelos convencionais de exploração turística.

Formigueiro no mapa da Caminhada Internacional

A caminhada em Formigueiro integra o Programa do Geoparque de Assistência Técnica e Extensão Rural (PROGEATER), da Pró-Reitoria de Extensão da UFSM, desenvolvido em parceria com a Emater/RS-Ascar e prefeituras municipais da Região Central do Rio Grande do Sul. Com os 185 participantes de Formigueiro, o projeto Caminhada Internacional na Natureza chega a 3.667 caminhantes efetivos desde sua retomada, em 2023, somando edições realizadas em municípios como Silveira Martins, Restinga Seca, Paraíso do Sul, Mata e São Francisco de Assis, entre outros selecionados por edital público da Região Central.

O padrão que se repete nessas edições (roteiros de 10 a 14 quilômetros, participação de agricultores como pontos de apoio, feira de produtos locais e movimentação financeira direta às comunidades) revela um formato replicável de política pública de desenvolvimento territorial, no qual a universidade atua como articuladora técnica, a Emater/RS-Ascar como ponte com o produtor rural e o poder público municipal como viabilizador de infraestrutura e mobilização. Entre 2023 e 2026, o projeto já acumula 4.460 pré-inscritos e 3.667 participantes efetivos em todo o circuito regional, com o ano de 2025 marcando o maior salto da série histórica. A relevância acadêmica da iniciativa foi reconhecida em 2026, quando o projeto tornou-se tema de uma questão do Vestibular da UFSM, e sua experiência foi apresentada em seminário internacional como referência de política pública, com previsão de inclusão na plataforma da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza.

Uma caminhada alinhada à Agenda 2030

O padrão adotado pelo PROGEATER em todas as edições do projeto é conectar cada caminhada aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, e o que se viu em Formigueiro confirma essa aderência em pelo menos sete frentes já relatadas nos depoimentos e no material de divulgação do evento.

ODS 1 (Erradicação da Pobreza) e ODS 8 (Trabalho Decente e Crescimento Econômico): a movimentação financeira de R$ 12.329,00 gerada em uma única manhã, distribuída entre café (R$ 1.395,00), almoço (R$ 6.560,00), aluguel do salão (R$ 430,00) e vendas de feirantes e comércio local (R$ 3.944,00), mostra a caminhada operando como mecanismo direto de geração de renda no meio rural.

ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável): a atuação da Emater/RS-Ascar, relatada por Abel Dias e Neuza Lorenz, e a presença da feira com agroindústrias como Tábuas do Passo, Tábuas da Estância e Recanto dos Cardeais reforçam a permanência da agricultura familiar no território.

ODS 10 (Redução das Desigualdades): o próprio roteiro do Circuito das Origens, ao incorporar a comunidade quilombola entre as referências de formação histórica de Formigueiro, citada tanto pelo prefeito Cristiano Rubert quanto na narrativa conduzida por Paulo Verne Barreto, aproxima o evento da valorização de territórios historicamente menos visibilizados.

ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis): o depoimento da secretária Laís Moreira Figueiredo sobre a “sensação de capacidade” e o sentimento de pertencimento despertado nos moradores é, na prática, o indicador social desse objetivo: patrimônio cultural e natural reconhecido e valorizado pela própria comunidade que o habita.

ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis): o relato de Carmen Otília da Silva sobre o Recanto dos Cardeais como “sítio ecossustentável”, cuja produção comercializada na feira é a mesma consumida pela família, ilustra diretamente esse objetivo.

ODS 15 (Vida Terrestre): as formações rochosas de 320 milhões de anos na propriedade de Rosa Coradine, incorporadas ao roteiro como atrativo geológico, transformam a conservação do patrimônio natural em parte da experiência turística.

ODS 17 (Parcerias e Meios de Implementação): a própria arquitetura institucional do evento, UFSM, Emater/RS-Ascar e Prefeitura Municipal de Formigueiro atuando de forma articulada, é o modelo que o PROGEATER já replicou em mais de vinte municípios da Região Central do Rio Grande do Sul desde 2023.

A recorrência desses objetivos em outras edições do PROGEATER, de Silveira Martins a Cachoeira do Sul, de Restinga Seca a São Francisco de Assis, sugere que o alinhamento com a Agenda 2030 não é um discurso pontual de divulgação, mas um critério de desenho incorporado à metodologia do projeto desde a concepção de cada roteiro.

O que vem depois da primeira caminhada

O desafio agora para Formigueiro é o de qualquer destino em fase de decolagem: transformar um evento pontual em fluxo turístico recorrente. Isso exige investimento em sinalização permanente do percurso, qualificação continuada dos agricultores anfitriões para atendimento ao visitante, formalização de meios de hospedagem e alimentação e construção de um calendário anual que sustente a marca Circuito das Origens para além da primeira edição.

Os indicadores da estreia (índice de conversão de inscritos de aproximadamente 81%, movimentação financeira de R$ 12.329,00 já contabilizada e envolvimento direto de 21 pessoas da comunidade rural e 7 expositores locais) oferecem uma base concreta para essa próxima etapa. Mas o resultado mais citado pelos próprios organizadores não está nas planilhas: é a mudança de percepção registrada entre os moradores, que passaram a reconhecer que Formigueiro também pode receber turistas, contar sua história e transformar seu território em experiência. Essa mudança de percepção, mais do que qualquer número isolado, é o verdadeiro ponto de partida de uma estratégia de desenvolvimento territorial baseada em turismo rural.

Para mais informações, os interessados podem acessar as redes sociais do projeto @caminhadasufsm ou na comunidade de avisos do WhatsApp

Texto e Fotos: Assessoria de Comunicação do PROGEATER/UFSM

Revisão: Esther Costa Faria, bolsista de Letras – Português da Subdivisão de Divulgação e Editoração (PRE/UFSM). 

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