Quando um Geoparque Global da UNESCO recebe a visita de avaliadores internacionais, é comum que a missão seja vista como uma espécie de “prova final” capaz de definir o futuro do território em poucos dias. No entanto, os documentos oficiais da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) revelam que essa percepção está longe da realidade.
A missão de revalidação é apenas uma das etapas de um processo técnico, planejado e contínuo, que acompanha o trabalho desenvolvido pelos geoparques ao longo de quatro anos. O objetivo não consiste apenas em avaliar o patrimônio geológico da área, mas verificar se o território mantém uma gestão capaz de promover conservação, educação, pesquisa científica, desenvolvimento sustentável e participação das comunidades locais.
Muito mais que uma inspeção pontual, a revalidação funciona como um mecanismo internacional de monitoramento da qualidade dos Geoparques Globais da UNESCO, assegurando que o reconhecimento continue representando excelência na gestão do patrimônio geológico.
O que é um Geoparque Mundial da UNESCO?
Os Geoparques Mundiais da UNESCO são territórios que possuem patrimônio geológico de relevância internacional, adotando um modelo de gestão baseado na conservação, na educação e no desenvolvimento sustentável.
Ao contrário de unidades de conservação tradicionais, os geoparques não buscam somente proteger áreas naturais. Em vez disso, procuram integrar ciência, cultura, turismo, economia e participação social, utilizando a geodiversidade como elemento capaz de impulsionar o desenvolvimento do território.
Por isso, o reconhecimento concedido pela UNESCO não depende exclusivamente da importância geológica da região, já que a organização avalia também a forma como esse patrimônio é administrado, divulgado e compartilhado com a população.
O título representa um compromisso permanente. Assim, para manter a relação com a Rede Global de Geoparques, cada território precisa demonstrar periodicamente que continua atendendo aos critérios internacionais estabelecidos pela UNESCO.
Um reconhecimento que exige compromisso permanente
Receber o título de Geoparque Global da UNESCO não significa obter um reconhecimento definitivo. Desde sua criação, o programa estabelece que todos os territórios certificados devem passar por um novo processo de avaliação a cada quatro anos.
Essa exigência está diretamente relacionada ao conceito que orienta os geoparques. Para a UNESCO, não basta que uma região possua sítios geológicos de relevância internacional. É necessário demonstrar que esse patrimônio é protegido, utilizado para fins educativos e científicos de maneira integrada às estratégias de desenvolvimento sustentável do território.
Desse modo, a revalidação verifica se o geoparque continua cumprindo os compromissos assumidos quando recebeu o reconhecimento internacional, avaliando se as ações implementadas nos últimos anos produziram resultados concretos tanto para a população quanto para a conservação do patrimônio.
Como funciona o processo de revalidação
A revalidação ocorre a cada quatro anos e tem como finalidade verificar se o geoparque continua desempenhando suas funções de maneira eficaz.
O processo busca responder uma pergunta central: o território mantém os princípios que justificaram seu reconhecimento como Geoparque Mundial da UNESCO?
Para responder a essa questão, a organização realiza uma análise ampla da gestão do território a partir de aspectos científicos, ambientais, culturais, educacionais, sociais e econômicos. A missão em campo é apenas uma parte desse trabalho.
A preparação começa muito antes da chegada dos avaliadores
Um dos principais equívocos sobre a missão de revalidação é imaginar que os especialistas chegam ao território para realizar uma avaliação surpresa. Na prática, o processo começa aproximadamente um ano antes da visita técnica.
O primeiro passo é o envio de um resumo institucional do geoparque à Secretaria da UNESCO até o final de julho do ano anterior à revalidação. Em seguida, a equipe gestora inicia a elaboração de um relatório de progresso, documento que apresenta detalhadamente todas as ações desenvolvidas desde a última avaliação.
Esse relatório, limitado a 25 páginas, deve ser encaminhado até 31 de janeiro do ano da missão. Além dele, o geoparque precisa preencher dois formulários oficiais: o Formulário A, de Autoavaliação, e o Formulário B, de Avaliação do Progresso.
Esses documentos funcionam como uma prestação de contas. Neles, a gestão apresenta evidências das atividades realizadas, dos investimentos, das parcerias estabelecidas e das ações desenvolvidas nas diferentes áreas de atuação do geoparque. Somente após a análise dessa documentação ocorre a visita dos avaliadores internacionais.
Quem são os avaliadores
A missão é conduzida por dois especialistas credenciados pela UNESCO, selecionados a partir de uma lista internacional de avaliadores.
Esses profissionais possuem experiência em áreas específicas, como patrimônio geológico, geoconservação, gestão territorial, turismo sustentável, educação, desenvolvimento regional e meio ambiente.
Sua função não é atuar como fiscais, mas verificar se o território continua atendendo aos padrões internacionais definidos para os Geoparques Mundiais.
O que acontece durante a missão
Durante vários dias, os avaliadores percorrem diferentes regiões do território. Eles visitam geossítios, centros de visitantes, museus, trilhas interpretativas, escolas, projetos de educação ambiental, empreendimentos turísticos, centros culturais e iniciativas comunitárias.
Também participam de reuniões institucionais e conversam com gestores, pesquisadores, professores, estudantes, representantes do poder público, empresários, artesãos, produtores locais, condutores de turismo e moradores.
Esses encontros permitem compreender como o geoparque está inserido no cotidiano da população e como diferentes setores participam da construção do território.
No caso do Caçapava Geoparque Mundial da UNESCO, por exemplo, a missão representa uma oportunidade para demonstrar como universidades, escolas, comunidades, empreendedores, associações, órgãos públicos e instituições parceiras trabalham de forma integrada na valorização do patrimônio geológico e cultural da região.
O que a UNESCO avalia
Embora o patrimônio geológico seja a base para a criação de um geoparque, ele representa apenas um dos aspectos considerados durante a revalidação.
Os avaliadores analisam se a gestão conseguiu transformar esse patrimônio em um instrumento de desenvolvimento territorial.
Entre os principais critérios observados estão:
conservação e proteção do patrimônio geológico;
qualidade da gestão administrativa e financeira;
desenvolvimento de programas de educação e divulgação científica;
incentivo à pesquisa científica;
promoção do geoturismo sustentável;
participação das comunidades locais;
valorização do patrimônio cultural associado à geodiversidade;
fortalecimento da economia local;
ações voltadas ao desenvolvimento sustentável;
cooperação com outros geoparques nacionais e internacionais;
atendimento às recomendações feitas na última avaliação.
Na missão de campo, dois avaliadores credenciados pela UNESCO percorrem o território para verificar se as informações apresentadas nos documentos correspondem à realidade. Durante a visita, eles conhecem geossítios, centros de visitantes, museus, escolas, empreendimentos turísticos, projetos comunitários e iniciativas desenvolvidas em parceria com instituições públicas e privadas.
Também conversam com gestores, pesquisadores, representantes do poder público, empreendedores e moradores envolvidos nas atividades do geoparque.
Muito além da geologia
Os documentos oficiais deixam claro que a avaliação não se limita aos aspectos científicos. A UNESCO considera que um Geoparque Global deve utilizar seu patrimônio geológico como ferramenta para promover educação, fortalecer a identidade cultural, incentivar a geração de renda, estimular o turismo responsável e contribuir para o desenvolvimento sustentável das comunidades.
Por isso, durante a revalidação, são observados projetos educativos, atividades com escolas, ações de comunicação, iniciativas de inclusão social, programas de conservação ambiental e estratégias de valorização da cultura local. Em outras palavras, o território é analisado como um conjunto de políticas e ações integradas, e não apenas como uma área de interesse geológico.
Os três possíveis resultados
Após a missão, os avaliadores elaboram um relatório técnico que será analisado pelo Conselho dos Geoparques Globais da UNESCO. O processo pode resultar em três classificações.
Cartão Verde
O Cartão Verde confirma que o geoparque continua atendendo aos critérios internacionais. Nesse caso, o reconhecimento é renovado por mais quatro anos, permitindo que o território continue integrando a Rede Global de Geoparques da UNESCO.
Cartão Amarelo
Quando os avaliadores identificam fragilidades ou aspectos que precisam ser aprimorados, o geoparque recebe um Cartão Amarelo. Isso não significa perda do título.
O reconhecimento é mantido, mas a gestão recebe um prazo de dois anos para implementar as melhorias indicadas pela UNESCO. Ao final desse período, uma nova avaliação verificará se as recomendações foram atendidas.
Cartão Vermelho
Caso o território continue sem cumprir os critérios após o período concedido pelo Cartão Amarelo, a UNESCO poderá emitir um Cartão Vermelho.
Nessa situação, o geoparque perde o reconhecimento como Geoparque Global da UNESCO.
A qualidade depende de melhoria contínua
O processo de revalidação demonstra que a certificação concedida pela UNESCO não representa um ponto de chegada, mas um compromisso permanente.
Desde a fase de candidatura, os territórios são orientados a realizar autoavaliações, consultar geoparques já reconhecidos, participar das redes internacionais e reunir evidências de que cumprem os critérios exigidos. Depois da conquista do título, o acompanhamento continua por meio de relatórios periódicos, missões de avaliação e monitoramento constante.
Essa lógica incentiva a melhoria contínua da gestão e garante que o reconhecimento internacional esteja associado a resultados concretos para a conservação do patrimônio geológico e para o desenvolvimento das comunidades.
Texto: Laura Severo, bolsista de jornalismo da Subdivisão de Divulgação e Editoração (PRE/UFSM).
Revisão: Esther Costa Faria, bolsista de Letras – Português da Subdivisão de Divulgação e Editoração (PRE/UFSM).