
A presença crescente da inteligência artificial está mudando a forma como softwares são desenvolvidos e também o papel dos profissionais da área. Esse foi um dos principais temas discutidos na Aula Magna “Evolução e Futuro da Engenharia de Software”, promovida pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação (PPGCC) no dia 1º de setembro, no Auditório Pércio Reis, no Centro de Tecnologia (CT) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A atividade foi ministrada pelo Prof. Ph.D. Vitor Manuel Basto Fernandes, Professor Associado com Agregação do Iscte – Instituto Universitário de Lisboa, em Portugal. Aberto à comunidade, o encontro reuniu estudantes de graduação e pós-graduação, tecnólogos e técnicos da UFSM e de outras instituições. Vinculado ao ISTAR-Iscte – Centro de Investigação em Ciências da Informação, Tecnologias e Arquitetura, Vitor atua no Departamento de Ciências e Tecnologias da Informação. Sua pesquisa inclui temas como Engenharia de Software Baseada em Busca (Search-Based Software Engineering), otimização multiobjetivo, Web Semântica e cibersegurança.
Tecnologia também envolve decisões e responsabilidades
Durante a aula, o professor destacou que os desafios atuais da Engenharia de Software vão além da construção de sistemas. À medida que os softwares passam a ocupar um espaço cada vez maior na vida cotidiana, eles também influenciam comportamentos e decisões individuais, coletivas e institucionais. Esse cenário, segundo Vitor, exige maior transparência sobre o funcionamento das tecnologias e novas formas de regulamentação. “Cada vez estão a decidir mais por nós, a representar-nos, e nós temos que garantir que nos estão a representar bem”, afirmou. Para o professor, a transformação tecnológica amplia a responsabilidade de quem desenvolve e implementa sistemas. A questão deixa de ser apenas se uma tecnologia funciona e passa a envolver também os efeitos produzidos por suas decisões e aplicações.
Inteligência artificial muda o perfil profissional
A inteligência artificial também modifica diretamente o trabalho dos profissionais de Engenharia de Software. Segundo Vitor, tarefas que podem ser automatizadas, como parte da produção de código-fonte, tendem a exigir menos intervenção humana. Em contrapartida, ganham importância atividades relacionadas à tomada de decisões e à avaliação das consequências do uso das tecnologias. Nesse contexto, os profissionais precisarão atuar cada vez mais próximos de outras áreas do conhecimento, como legislação e ética. O trabalho não estará restrito à construção dos sistemas, mas também à avaliação de sua adequação para diferentes situações. “Os profissionais vão ter que garantir isso do ponto de vista técnico, mas também do ponto de vista legal, social, ético”, afirmou.
Pesquisa busca apoiar decisões no desenvolvimento de software
A discussão sobre tomada de decisões se relaciona diretamente à área de pesquisa desenvolvida por Vitor, que envolve Engenharia de Software Baseada em Busca (Search-Based Software Engineering) e otimização multicritério. Essas abordagens utilizam técnicas computacionais para auxiliar processos de decisão e podem ser aplicadas tanto na construção de sistemas de apoio à decisão quanto no próprio desenvolvimento de software. A proposta é utilizar mecanismos computacionais para apoiar escolhas e contribuir para a construção de artefatos tecnológicos mais adequados diante de problemas cada vez mais complexos.
Aprender continuamente será parte da profissão
Para os estudantes de Computação, Vitor considera que a capacidade de continuar aprendendo será fundamental para acompanhar as transformações da área. A formação profissional, segundo ele, não termina com a universidade, já que as mudanças tecnológicas exigem atualização constante e aprendizagem ao longo da vida.
Além dos conhecimentos técnicos, o professor destaca a importância de analisar uma situação a partir de diferentes perspectivas. Essa abertura, segundo ele, pode contribuir para decisões mais qualificadas e para o desenvolvimento de tecnologias mais adequadas. “É necessário ter sempre a abertura para perceber como é que aquilo que estamos a fazer pode ser visto de outra forma”, ressaltou.
A discussão proposta pela Aula Magna aproximou a comunidade acadêmica de questões que ultrapassam a evolução das ferramentas utilizadas na Computação: como a inteligência artificial está transformando o trabalho, quais responsabilidades acompanham o desenvolvimento de sistemas e quais competências serão necessárias aos profissionais nos próximos anos.
Texto por Lia Guerreiro, acadêmica de jornalismo, com supervisão da Subdivisão de Comunicação do CT/UFSM
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