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9º Fórum de Direitos Humanos da UFSM reúne debates, cultura e reflexões sobre desigualdade e inclusão 

Evento reuniu comunidade acadêmica, movimentos sociais e lideranças locais para debater direitos humanos a partir das experiências concretas de diferentes grupos sociais



O Prédio 9F do curso de Arquitetura e Urbanismo, no Campus Sede da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), recebeu, no dia 16 de junho, o 9º Fórum de Direitos Humanos. Com o tema “Direitos Humanos para todas as pessoas”, o encontro reuniu estudantes, docentes, técnicos-administrativos, extensionistas, representantes de movimentos sociais e lideranças comunitárias para um dia de debates, apresentações culturais e rodas de conversa voltadas à promoção dos direitos humanos, da diversidade e da cidadania.

Promovido pela Pró-Reitoria de Extensão (PRE), por meio do Observatório de Direitos Humanos (ODH) e da Coordenadoria de Cidadania (COCID), o fórum reafirmou o compromisso institucional da UFSM com a construção de uma sociedade mais justa, democrática e inclusiva. A programação contemplou palestra de abertura, mesa de debates com lideranças locais, apresentação artística do grupo Corpo MAIS e rodas de conversa inspiradas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU).

Durante a cerimônia de abertura, representantes da Universidade destacaram a trajetória do Fórum de Direitos Humanos, que chegou à sua nona edição em 2026. Também ressaltaram a atuação de dezenas de projetos de extensão vinculados ao ODH, desenvolvidos em diferentes comunidades de Santa Maria e região.

As falas enfatizaram o papel da universidade pública na produção de conhecimento, sobretudo na construção de relações com a sociedade. A importância do diálogo, da escuta e da valorização das diferentes experiências humanas esteve presente ao longo de toda a abertura do evento.

A palestra de abertura foi ministrada por Winnie Bueno, pesquisadora, bacharela e mestre em Direito e doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), autora dos livros Imagens de Controle: um Conceito do Pensamento de Patricia Hill Collins (2020) e Por Que Você Não Acredita em Mim? (2023).

Gaúcha, batizada em homenagem a Winnie Mandela, a pesquisadora construiu sua trajetória dentro do movimento negro e se tornou uma das principais referências brasileiras nos estudos sobre relações raciais, feminismo negro, direitos humanos e interseccionalidade.

Com o tema “Direitos Humanos e Interseccionalidade”, Winnie propôs uma reflexão sobre as desigualdades estruturais que atravessam a sociedade brasileira e influenciam diretamente o acesso aos direitos.

Logo no início de sua fala, destacou que os direitos humanos não podem ser compreendidos apenas como declarações formais ou dispositivos legais. Segundo ela, a efetivação desses direitos depende das condições concretas de vida das pessoas. Para a pesquisadora, questões como acesso à saúde, educação, moradia, segurança, trabalho e participação política revelam que nem todos os indivíduos conseguem exercer seus direitos de forma igualitária.

Ao abordar o conceito de interseccionalidade, Winnie explicou que diferentes formas de opressão atuam simultaneamente sobre determinados grupos sociais. Raça, gênero, classe social, sexualidade, deficiência, território, religião e idade são elementos que se cruzam e produzem experiências específicas de exclusão e desigualdade. A palestrante utilizou como exemplo a realidade das mulheres negras, que enfrentam os impactos do racismo e do sexismo de maneira simultânea. Segundo ela, compreender essas interações é fundamental para a construção de políticas públicas mais eficazes e de uma sociedade mais justa.

Ao longo da exposição, Winnie também apresentou contribuições de importantes intelectuais e ativistas negras, entre elas Kimberlé Crenshaw, responsável pela sistematização do conceito de interseccionalidade, além de Sojourner Truth, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Beatriz Nascimento e Luiza Bairros.

Outro ponto central da palestra foi a crítica à ideia de uma universalidade abstrata dos direitos humanos. Para a pesquisadora, reconhecer que todos possuem direitos não basta. É necessário compreender que determinados grupos enfrentam obstáculos históricos que dificultam o acesso efetivo à cidadania.

A palestrante ressaltou ainda que a história dos direitos humanos está profundamente ligada à atuação dos movimentos sociais, das comunidades organizadas e das populações que lutaram pelo reconhecimento de seus direitos ao longo do tempo.

Universidade, representatividade e transformação social

Após a palestra, Winnie participou de um momento de diálogo com o público, no qual abordou os desafios enfrentados pelas universidades na promoção da inclusão e da diversidade. Durante a conversa, destacou que a ampliação do acesso ao ensino superior representa um avanço importante, mas insuficiente diante das desigualdades que ainda persistem nos espaços acadêmicos.

Segundo ela, políticas de inclusão não podem se limitar ao ingresso estudantil. É necessário ampliar a representatividade também nos quadros docentes e técnico-administrativos, além dos espaços de gestão e tomada de decisão. Winnie defendeu que a universidade deve fortalecer sua relação com as comunidades e os movimentos sociais, construindo parcerias horizontais e reconhecendo diferentes formas de produção de conhecimento.

Winnie durante palestra de abertura

A pesquisadora também ressalta a relevância da extensão universitária como instrumento de transformação social. Para ela, projetos extensionistas aproximam a universidade da realidade das comunidades e contribuem para a construção coletiva de soluções para os desafios sociais.

Winnie disse que discutir direitos humanos e interseccionalidade tornou-se ainda mais importante diante das crises sociais contemporâneas. Segundo ela, a interseccionalidade funciona como uma ferramenta que permite compreender melhor as desigualdades e construir respostas mais efetivas para a garantia de direitos. “Precisamos tirar os direitos humanos de uma perspectiva apenas institucional e enxergá-los nas experiências concretas das pessoas”, afirmou.

Mesa de debates reúne diferentes trajetórias e experiências

A programação da manhã também contou com uma mesa de debates mediada pela professora Jane Schumacher, coordenadora do ODH/UFSM.

A proposta foi reunir representantes de diferentes grupos sociais para discutir direitos humanos a partir de experiências concretas de atuação em suas comunidades.

Participaram da mesa a professora e pesquisadora Mariana Selister, a presidente da Associação de Materiais Recicláveis de Santa Maria (ASMAR), Margarete Vidal, a professora e ativista Rutileia Campos, além das lideranças inicialmente convidadas Marquita Quevedo e Cacique Natanael Claudino, que não puderam comparecer devido a compromissos relacionados às suas atuações comunitárias.

A professora e pesquisadora Mariana Selister, doutora em Sociologia e líder do grupo de pesquisa e extensão Gênero, Interseccionalidade e Direitos Humanos (GIDH/UFSM/CNPq), destacou a importância de compreender os direitos humanos a partir das experiências vividas por populações historicamente marginalizadas.

Em sua fala, enfatizou que raça, gênero, classe social, deficiência e identidade de gênero não atuam de forma isolada, mas se cruzam e produzem diferentes formas de desigualdade. Segundo ela, esse entendimento é fundamental para a formulação de políticas públicas mais eficazes e para o fortalecimento da justiça social.

Selister também ressaltou o papel da universidade pública na construção de conhecimento comprometido com a transformação social, defendendo maior aproximação entre produção acadêmica e demandas das comunidades.

Presidente da Associação de Materiais Recicláveis de Santa Maria (ASMAR), Margarete Vidal compartilhou sua trajetória como recicladora, empreendedora e liderança comunitária. Em sua fala, destacou as dificuldades enfrentadas por trabalhadores da reciclagem, especialmente no acesso à educação, saúde e a direitos básicos.

Margarete relatou sua tentativa de ingressar na Universidade como aluna ouvinte e como essa experiência despertou ainda mais seu desejo de aproximar a universidade da comunidade.

Um dos pontos centrais de sua fala foi a constatação de que diversos trabalhadores da associação ainda enfrentam dificuldades de alfabetização. Segundo ela, foi essa realidade que motivou a busca por apoio da Universidade para desenvolver ações educativas junto aos recicladores.

Para ela, os direitos humanos precisam ultrapassar o discurso e chegar efetivamente à vida das pessoas. “A partir do momento que eu preciso lutar para ter um direito, é porque ele ainda não está garantido”, comentou. 

Margarete defendeu que profissionais da saúde, educação, assistência social e do direito conheçam a realidade das comunidades para compreender os desafios enfrentados pela população.

Rutileia Campos trouxe para o debate reflexões sobre acessibilidade e inclusão das pessoas com deficiência nos espaços educacionais.

Professora, pesquisadora, ativista do Movimento PCDs Brasil e integrante do Conselho Nacional de Mulheres, ela iniciou sua participação com uma autodescrição, prática que reforça a importância da acessibilidade comunicacional.

Ao compartilhar sua trajetória como mulher negra, mãe, pesquisadora e pessoa com deficiência visual, Rutileia relatou os desafios encontrados durante sua formação acadêmica.

Entre os principais obstáculos citados estiveram as barreiras arquitetônicas, a falta de acessibilidade física, as dificuldades de adaptação de materiais e as barreiras atitudinais presentes nas instituições. Para ela, a inclusão precisa fazer parte da cultura institucional e não pode depender apenas de iniciativas isoladas.

Arte, movimento e cidadania

A programação também contou com uma apresentação especial do grupo Corpo MAIS, projeto de extensão vinculado ao Centro de Educação Física e Desportos (CEFD/UFSM). Coordenado por Gustavo Duarte, o grupo reúne pessoas com mais de 40 anos em atividades voltadas à promoção da saúde, da convivência, da autonomia e da qualidade de vida.

A apresentação artística trouxe ao público uma demonstração de como a arte, o movimento e a expressão corporal também constituem importantes instrumentos de inclusão e cidadania.

Construção coletiva e diálogo permanente

Durante a tarde, os participantes integraram rodas de conversa inspiradas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Os encontros permitiram a troca de experiências entre extensionistas, estudantes, pesquisadores e membros da comunidade.

As discussões abordaram diferentes temas relacionados aos direitos humanos, à inclusão, à justiça social, à sustentabilidade e à participação cidadã.

Ao longo do dia, o 9º Fórum de Direitos Humanos tornou-se um espaço de escuta, diálogo e construção coletiva. As reflexões apresentadas reforçaram que a promoção dos direitos humanos exige mais do que reconhecimento formal de direitos. Exige compromisso com a diversidade, enfrentamento das desigualdades e fortalecimento das relações entre universidade e sociedade.

Texto: Laura Severo, bolsista de Jornalismo da Subdivisão de Divulgação e Editoração (PRE/UFSM).

Fotos: Laura Aozani, bolsista de social media da Subdivisão de Divulgação e Editoração (PRE/UFSM).

Revisão: Catharina Viegas, revisora de textos da Subdivisão de Divulgação e Editoração (PRE/UFSM). 

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