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UFSM promove roda de conversa sobre trabalho doméstico na 53ª Feira do Livro de Santa Maria

Instituição dialoga sobre questões de gênero com a comunidade por meio da união entre ensino, pesquisa e extensão



Na tarde da última terça-feira (11), o Grupo de Estudos e Pesquisa Políticas da Intimidade (GEPPI) integrou a programação da 53ª Feira do Livro de Santa Maria com a oficina O Trabalho Doméstico é Genial, mas tem sido Dramático. A atividade, sediada na Praça Saldanha Marinho, foi aberta ao público geral, estudantes e visitantes do evento.

 

Ministrada pela professora Drª. Jurema Gorski Brites, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCSociais) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a ação buscou ampliar a participação social em temas ligados a gênero, cuidado e democracia. De acordo com a pesquisadora, que estuda a temática desde 1998, assuntos relativos ao núcleo doméstico têm consequências sociais amplas e dizem respeito a toda a sociedade. 

 

Nesse sentido, o GEPPI desenvolve pesquisas, projetos de extensão e ações em parceria com movimentos sociais para discutir práticas sociais relacionadas ao trabalho doméstico e às relações familiares e políticas. O grupo também integra redes nacionais e latino-americanas de pesquisa sobre trabalho doméstico e políticas de cuidado, compartilhando experiências e estudos com instituições de diferentes países.

 

A extensão como um novo horizonte

Por meio de oficinas, rodas de conversa e projetos comunitários em bairros de Santa Maria, o GEPPI aproxima a produção acadêmica das demandas sociais e promove debates sobre desigualdades de gênero. As ações extensionistas abordam a divisão sexual do trabalho e a sobrecarga feminina e seus impactos na educação, na carreira e na qualidade de vida das mulheres. Em escolas, feiras e espaços comunitários, o grupo estimula a reflexão coletiva sobre o cuidado e fortalece redes locais de apoio.

Entre as iniciativas estão as oficinas de cartografia do cuidado, nas quais mulheres mapeiam seus trajetos diários para cuidar dos filhos, acessar serviços públicos e realizar tarefas domésticas. Os mapas identificam problemas urbanos, como falta de pavimentação, dificuldades de transporte e ausência de equipamentos públicos, contribuindo para o debate sobre políticas públicas.

O trabalho junto às famílias também favoreceu a organização comunitária. Em um dos bairros acompanhados, mulheres criaram uma associação própria com apoio de diferentes áreas da UFSM, ampliando o acesso a direitos e serviços. Além da atuação local, o GEPPI participa de redes nacionais e latino-americanas de pesquisa sobre trabalho doméstico e políticas de cuidado, compartilhando estudos e experiências voltados à igualdade de gênero.

As ações extensionistas também se conectam a outras iniciativas universitárias, como o projeto Tecendo Saberes, vinculado ao Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI), e redes de solidariedade formadas durante o período das enchentes em Santa Maria. Essas experiências ampliaram o acesso das moradoras a informações sobre serviços públicos, apoio comunitário e redes de ajuda mútua.

Jurema destaca que avanços importantes, como o reconhecimento de direitos das trabalhadoras domésticas e a construção de políticas nacionais de cuidado, são resultado de décadas de pesquisa e mobilização acadêmica. O trabalho extensionista, nesse contexto, funciona como ponte entre a produção científica e as demandas concretas das comunidades.

A mestranda do Programa de Pós Graduação em Sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGS/UFRGS), Bibiana Gomes, é integrante do GEPPI e foi estudante da UFSM por anos. Para ela, a instituição vem construindo um caminho de reflexão que tem evoluído no que se refere a políticas de gênero. 

Ainda se faz necessário que cada centro repense suas lógicas de distribuição e divisão de trabalho. Quando há eventos de grupo de pesquisa, quem organiza? Quem tem um papel mais “ativo” nesse sentido? Então, acho que a própria instituição pode se reorganizar. E isso se faz, justamente, através da política de gênero. Percebi vários avanços nos últimos 10, 15 anos. Acompanhei várias evoluções, como a inclusão dos trocadores, dos banheiros com fraldários. Isso tudo é positivo.
Bibiana Gomes
Pesquisadora e integrante do GEPPI
Professora Jurema e Bibiana apresentam proposta da oficina aos presentes.

Lar, doce lar


Levar discussões sobre trabalho doméstico, cuidado e igualdade de gênero para além dos muros da universidade é uma das principais frentes de atuação do(GEPPI). Dados de 2024 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que as mulheres representam 51,7% da população em idade de trabalhar no Brasil, mas ainda correspondem a uma parcela menor da população ocupada. 

A sobrecarga feminina aparece também no tempo dedicado ao trabalho não remunerado. Segundo o IBGE, as mulheres gastam, em média, 21,3 horas por semana com afazeres domésticos e cuidados de pessoas, quase o dobro das 11,7 horas registradas entre os homens. Sobre essas jornadas duplas de trabalho, Jurema pontua a limitação de oportunidades de estudo, emprego e participação social.

É necessário ressignificar o trabalho doméstico, porque ele não é dispensável. Queremos dizer que, no “lar, doce lar”, também existem questões políticas. O modo de educar os filhos, a distribuição de tarefas com o parceiro ou a parceira, as condições familiares e financeiras, tudo isso impacta até mesmo na forma como as meninas dessas famílias vão visualizar a possibilidade de construir uma carreira e permanecer na escola. Toda essa estrutura começa dentro da família. Então, é dramático porque é algo pesado dentro desse sistema, mas pode ser mudado. As pessoas pensam que o trabalho doméstico é uma coisa menor. Por isso, eu insisto que é uma coisa genial.
Jurema Gorski Brites
Pesquisadora

Para a professora, ao aproximar ciência e sociedade, a universidade contribui para ampliar repertórios e fortalecer práticas mais democráticas nas relações cotidianas. Ela considera que estimular o debate público é algo que fortalece práticas mais democráticas nas relações cotidianas, tratando o cuidado como uma questão social e política

Texto e fotos: Kemyllin Haana Timm Dutra, jornalista da Subdivisão de Divulgação e Editoração (PRE/UFSM).
Revisão: Catharina Viegas, revisora de textos da Subdivisão de Divulgação e Editoração (PRE/UFSM).

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