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OSSM celebra 60 anos com concerto especial sob regência de Alba Bomfim

A apresentação reuniu obras de Catarina Domenici, Beethoven e Villa-Lobos e marcou a programação comemorativa das seis décadas da Orquestra Sinfônica de Santa Maria



A Orquestra Sinfônica de Santa Maria (OSSM) realizou, no dia 3 de setembro, um concerto especial em comemoração aos seus 60 anos de trajetória. A apresentação ocorreu no Centro de Convenções de Santa Maria e teve como convidada a maestra Alba Bomfim, regente, professora universitária e instrumentista que atua na formação e na difusão da música de concerto no Brasil.

Com entrada gratuita, o concerto integrou a programação comemorativa das seis décadas da OSSM e reuniu obras de diferentes períodos e linguagens da música sinfônica. O repertório foi aberto com a “Abertura Anita Garibaldi para Orquestra de Cordas”, da compositora Catarina Domenici. Em seguida, foi apresentada a “Sinfonia nº 7 em Lá Maior, Op. 92”, de Ludwig van Beethoven. O encerramento ficou por conta da “Sinfonieta nº 1”, de Heitor Villa-Lobos.

Maestra Alba Bomfim

Para Alba Bomfim, estar à frente da OSSM em um momento tão significativo foi motivo de honra e alegria. A maestra, que é carioca e atualmente vive em Teresina, no Piauí, destacou a importância de participar de uma instituição com seis décadas de história. “Eu me sinto muito honrada, porque é uma orquestra tradicional, já existe há tanto tempo, há seis décadas, e poder estar à frente, aqui no sul, é muito importante”, afirmou.

A regente também ressaltou o caráter universitário da orquestra e a possibilidade de promover uma troca de experiências com estudantes e músicos. Para ela, a presença de diferentes profissionais no pódio amplia as referências dos jovens que estão em formação. Segundo Alba, sua participação em Santa Maria também representa uma oportunidade para que estudantes possam perceber que diferentes perfis de músicos e regentes podem ocupar espaços de liderança dentro da música de concerto. “É muito importante não só para mim, mas também para os jovens que estão na Universidade, porque têm acesso a outras pessoas, outras etnias no pódio”, destacou.

Um repertório de contrastes

A escolha das obras foi um dos elementos que deram identidade ao concerto. Alba explicou que a programação buscou aproximar diferentes linguagens e períodos históricos, colocando lado a lado uma compositora brasileira contemporânea, Beethoven e Villa-Lobos.

Para a maestra, a diversidade do repertório demonstra como uma orquestra pode funcionar como um espaço de diálogo com a sociedade. “Eu acredito que a Orquestra Sinfônica é uma espécie de microcosmos artístico, um aparelho artístico que representa a sociedade, o que a gente gostaria da sociedade”, explicou.

A regente destacou especialmente o contraste entre as obras escolhidas. A abertura de Catarina Domenici apresenta uma linguagem contemporânea, enquanto a Sétima Sinfonia de Beethoven pertence ao repertório clássico europeu. Já a Sinfonietta de Villa-Lobos estabelece uma relação entre o nacionalismo brasileiro, o modernismo e referências à música de Mozart. De acordo com Alba, essa variedade permite ao público percorrer diferentes universos musicais durante a mesma apresentação.

A Sétima Sinfonia de Beethoven também representou um desafio para os estudantes da orquestra, segundo a maestra. A obra é marcada por grande intensidade rítmica e exige dos músicos precisão e domínio técnico. Para Alba, esse contato com repertórios variados faz parte da própria função de uma orquestra contemporânea. “É um organismo vivo de diálogo e de transformação”, afirmou.

A escolha de Alba Bomfim

O maestro da Orquestra Sinfônica de Santa Maria, Claudio Antônio Esteves, explicou que o convite para Alba Bomfim foi pensado especialmente para a programação dos 60 anos da instituição.

Os dois se conheceram durante a pandemia, inicialmente por meio de encontros realizados de forma on-line. A partir daquele contato, Claudio passou a acompanhar o trabalho e a trajetória profissional da maestra.

Maestro Claudio Antônio Esteves

Quando a programação do aniversário de 60 anos começou a ser planejada, Alba foi a primeira escolha do maestro. “Eu pensei: quem é que poderia representar uma geração jovem e, mesmo, a questão da presença feminina na música? A primeira pessoa que me veio à cabeça foi a Alba”, contou o maestro.

Segundo ele, a presença da maestra também proporcionou aos integrantes da OSSM uma experiência de contato com uma regente de outra geração e com concepções musicais diferentes. Claudio destacou ainda que a participação de profissionais em diferentes momentos de suas carreiras contribui para a formação de um legado dentro da orquestra. “Abrir espaço para uma jovem com uma carreira em ascendência, para que a gente possa depois dizer: vocês sabem que a Alba esteve aqui e nos regeu”, afirmou.

Para o maestro, a presença de Alba na programação representa também uma forma de pensar o futuro da instituição e deixar referências para as próximas gerações de músicos.

A presença feminina na regência

Um dos pontos abordados por Alba Bomfim durante sua passagem por Santa Maria foi a presença das mulheres — especialmente das mulheres negras — em posições de liderança dentro da música de concerto.

A maestra contou que, quando começou sua formação, teve poucos modelos femininos próximos. Ao longo da carreira, encontrou referências que contribuíram para sua trajetória, mas destacou que a desigualdade de gênero ainda representa um desafio no mercado profissional.

Segundo Alba, a regência exige experiência prática e oportunidades para que o profissional possa acumular as chamadas “horas de voo”. O problema, segundo ela, é que essas oportunidades ainda não são distribuídas de maneira igualitária. “É sempre ser o melhor possível, não é apenas ser boa”, afirmou, ao falar sobre os desafios enfrentados pelas mulheres em posições de liderança.

A maestra também ressaltou que faz um recorte ainda mais específico quando fala sobre mulheres negras, que, segundo ela, continuam sendo minoria nos espaços de regência.

Para Alba, uma das mudanças necessárias é ampliar a participação das mulheres nos espaços de decisão. “Nós, mulheres, precisamos estar nos lugares de decisão. Nós precisamos estar nas reuniões, nós temos que estar com a caneta na mão”, defendeu.

Ela também destacou a importância de que meninas e meninos tenham contato com mulheres ocupando posições de liderança dentro das artes desde cedo.

Da orquestra ao pódio

A relação de Alba com a música começou ainda na infância, influenciada pelo ambiente familiar. Ela conta que cresceu em uma família na qual diferentes integrantes estudaram música e que teve contato com piano, canto e outros instrumentos.

Embora seja violoncelista de formação, a maestra explicou que o piano foi o instrumento que inicialmente abriu as portas para o universo da orquestra. A obra de Heitor Villa-Lobos também teve papel importante em sua escolha pelo violoncelo.

A experiência como instrumentista de orquestra, segundo ela, influencia diretamente sua maneira de atuar como regente. “Se eu não tivesse vivido em orquestra, talvez eu não fosse regente hoje”, afirmou.

Estar dos dois lados — como musicista dentro da orquestra e, posteriormente, como regente no pódio — permitiu que Alba desenvolvesse uma percepção particular sobre a relação entre músicos e maestros. Para ela, compreender como os instrumentistas recebem as orientações de quem está à frente do grupo faz diferença na construção do trabalho coletivo.

Música como transformação

Além da escolha do repertório e da própria execução musical, Alba Bomfim defende que as orquestras possuem um papel que ultrapassa a apresentação de grandes obras. Para a maestra, o contato com a música pode ampliar a sensibilidade e criar novas formas de perceber o mundo.

Ela também considera a universidade um importante espaço para essa transformação, principalmente por possibilitar o encontro entre pessoas de diferentes regiões, experiências e realidades.

Alba ressaltou ainda a importância da educação como instrumento de transformação social e de mobilidade, lembrando que sua própria trajetória foi construída por meio da busca por oportunidades de formação.

Uma noite de celebração

O concerto do dia 3 de setembro marcou mais um capítulo da história da Orquestra Sinfônica de Santa Maria, que chegou aos 60 anos mantendo sua atuação ligada à formação musical, à universidade e à realização de concertos para a comunidade.

A escolha de uma jovem regente convidada, a presença de uma compositora brasileira contemporânea no repertório e a reunião de obras de Beethoven e Villa-Lobos deram à apresentação um caráter simbólico dentro da programação comemorativa.

Para Claudio Antônio Esteves, a participação de Alba Bomfim sintetizou parte do espírito que a OSSM buscou imprimir à celebração. “É uma honra, sim, para todo mundo”, resumiu o maestro.

Já para Alba, a experiência em Santa Maria representou a possibilidade de conhecer uma nova realidade do país e, ao mesmo tempo, contribuir para a formação de jovens músicos.

Texto: Laura Severo, bolsista de jornalismo da Subdivisão de Divulgação e Editoração (PRE/UFSM).

Revisão: Esther Costa Faria, bolsista de Letras – Português da Subdivisão de Divulgação e Editoração (PRE/UFSM). 

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