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Quando nasce um Geoparque?

Um Geoparque nasce quando e onde não é possível nascer as estrelas. Quando o crepúsculo nos empurra ao olhar às vidas que podem ser vividas.



À sombra da Figueira imponente, um limiar intransponível se revela. Ao fundo, os Cânions ameaçam, em sua magnitude, por fim ao dia. Sob a árvore histórica, pai e filho com suas gaitas e a mãe com seu acolhimento lutam para afastar o limiar da noite. Algo incomoda ao olhar, fazendo surgir um sentimento no qual o tempo desaparece. É no final de uma viagem que o texto nasce. Olhos marejados. É no Brasil escondido que a consciência retorna a si.

Poucas coisas são perceptíveis sem o movimento da consciência. O mistério que todos os dias atrai nossa atenção é a prova. Noite e dia, em um trabalho sisífico, criam limiares intransponíveis. Não é possível anoitecer sem que o dia ceda ao vazio que abre as cortinas do abismo. Mas não é possível que o dia se vá sem que o universo queira se mostrar. No curto espaço de tempo em que noite e dia brincam de chamar a atenção, a consciência ali se estabelece. Nessa ausência do tempo e do espaço, há um retorno da percepção. De repente, o fim. O limiar é atravessado. Surgem pontos brilhantes no céu, a noite chega, o dia finda.

Quando nascem as estrelas no céu? Essa não é uma pergunta com importância, porque o nosso tempo não permite pensar nisso. Elas surgem. O limiar é então ultrapassado sem consciência. Quando retornamos ao mundo, o universo já nos observa. Esquecemos o dia, enquanto a escuridão torna turva a vida. Esperamos a volta do sol no novo limiar que será atravessado sem consciência. Limiares não importam no cotidiano, porque passado, presente e futuro serão logo descartados. No limiar consciente, a consciência faz o tempo desaparecer.

Aos pés da Figueira a consciência volta a si. No momento em que o absurdo irrompe o tempo e faz os olhos marejarem, a crônica se pergunta: quando nasce um Geoparque? Essa é uma pergunta que deveria ser feita a todo momento e para qualquer coisa. Mas aqui e agora, em um curto espaço de tempo, alienado do mundo, ela surge. A Figueira, a música, o público, os Cânions, as histórias. Um limiar se descortina. A consciência se localiza parada aí. Mas não é o limiar da noite, do dia, dos astros, nem do nosso planeta ferido. É da humanidade. Ao estrangeiro de si que observa, é aqui que nasce um Geoparque.

Durante toda a visita ao Geoparque UNESCO Cânions do Sul, o limiar esteve lá. Intransponível. Inacessível. Inabitável. Indiferente. Ora se apresentando como rochas, ora como traçados imaginários. Até que, ao final, próximo ao retorno, ele se revela. É nele que nasce, cresce e se desenvolve esses territórios peculiares da humanidade. A luta para a não transposição desse limiar sustenta toda a sua comunidade, sua geografia, seu tempo. Enquanto as gaitas ecoam na propriedade, o limiar se permite desvelar para a consciência.

Como nas serras aparadas que formam as paisagens afrontosas à humanidade impotente, a memória é registrada nas pedras. Noites de um dia em que África e América eram uma só coisa. Assustadoras, elas gravam o caminho e a história de um planeta que vive, se transmuta, se nega à eternidade. Insensíveis, elas põem fim ao contínuo terreno. Dividem de baixo à cima as histórias da Terra e dos seus animais. Noites que preservam a separação de continentes e vidas. Memórias que se negam ao dia totalizador.

Na parte de cima, lembranças de estancieiros donos de terras com propriedades que se estendiam até próximo ao litoral. No calor do verão, escravizados forçados a atuarem nas partes altas do território. No frio invernal, escravizados forçados a atuarem nas partes baixas. Noites que poderiam ser apagadas pelo limiar que luta para anunciar o dia. Mas que se negam a clarear. Estabelecem seus limiares em Quilombos aos pés das serras. Preservar a história, a memória, a vida, a cultura, o futuro. Não transpor o limiar. Garantir que a vida aconteça nele.

Se os cânions se negam a ultrapassar o limiar que mantém os dois continentes unidos em memória, não cabe aos humanos forçar a ultrapassagem dos limiares que mantêm a cultura e as marcas do passado vivas no futuro. Assim como a terra forçou a separação registrada nos imponentes paredões, a ignorância forçou um mesmo povo a dividir-se. Apagar a opressão é clarear uma noite que precisa ser preservada. Atravessar o limiar é avançar o futuro no presente que apaga o passado.

Resistir. Um Geoparque nasce no presente, mas o presente não é seu tempo. Seu tempo é o do tempo do limiar. Seu espaço é o limiar que não pode ser ultrapassado. Sua existência é condicionada a esse absurdo que só se mostra pelo movimento consciente. Um Geoparque tem entendimento disso. Na serra em que uma imagem santa aparece, não se esqueça da força devastadora da água. Mas preservar a memória onde se pode ver o limiar terreno.

As Guaritas que avançam rumo ao Atlântico Sul são noites de um mundo que se derrama em si mesmo. Camadas, cores, formas que marcam a paisagem das pessoas que ali chegaram. Cristalizados em imponentes torres que contrastam com ondas em movimentos contínuos. É o tempo do limiar. A presença do passado com o permanente devir que nunca chega. As torres se negam a clarear, o mar a anoitecer. À consciência resta o incômodo e o questionamento. Haverá apenas um único presente nisso tudo?

Mas não são as noites e os dias da rocha que formam os limiares. Eles permitem que os limiares humanos se estabeleçam aí. Inscritos em um espaço definido, a natureza oferece às suas criaturas fixar-se em um tempo próprio. Preservar seu futuro no passado. Nesses territórios singulares, o presente desaparece. O crepúsculo é permanente. Um Geoparque sabe que tudo deve acontecer neste momento – no exato instante que a consciência está alienada da sua casa.

Quando um Geoparque nasce, traz consigo o limiar que preserva a cultura, a forma de existir de cada pessoa de seu espaço. Reformula o existir no mundo, conciliando o devir do Planeta com a necessidade de fixação das comunidades. Aproxima sujeito e natureza em simbiose, fazendo despertar o sentimento de pertencer aí, de viver, de criar memórias. O tempo do Geoparque é o futuro que avança ao passado sem passar pelo presente. Modernidade e tradição conectados com o espaço que o mundo quer desvelar.

Dois dias e o limiar esteve sempre aí. Mas é na sombra da Figueira, com o tempo parado e suspenso de seu curso, com um local alienado aos olhos, que ele atrai a consciência. Sair de si e ir para um abismo. Na união da cultura do passado, o desejo de um futuro diferente em uma casa comum. É aqui que nasce um Geoparque. Porque ele não é um território. Ele não é uma forma de viver. Ele não é um estilo de cultura. Ele é o limiar só acessado pela consciência.

Um Geoparque nasce quando e onde não é possível nascer as estrelas. Quando o crepúsculo nos empurra ao olhar às vidas que podem ser vividas. Às memórias que devem ser escritas. Às histórias que precisam ser ouvidas. Um geoparque é onde aprendemos que é necessário recomeçar.

Texto: Wellington Hack, Pró-Reitoria de Extensão UFSM

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