O fortalecimento de El Niño aumenta determinadas probabilidades climáticas, mas não permite prever, isoladamente, a ocorrência de chuvas extremas ou inundações em todos os territórios. É a partir dessa distinção que pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e da Universidad Nacional del Nordeste (UNNE), da Argentina, elaboraram a Nota Técnica Conjunta nº 5/2026, que reúne informações climáticas e hidrológicas para acompanhar a situação da Província do Chaco e da Bacia do Prata. Produzido pelo Grupo de Modelagem Hidroambiental e Ecotecnologias, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil e Ambiental (PPGECAM/UFSM), em parceria com o Departamento de Hidráulica da Faculdade de Engenharia da UNNE, o documento compara previsões de diferentes organismos meteorológicos e hidrológicos e analisa as possíveis respostas de sub-bacias como Alto Paraná, Iguaçu, Paraguai–Pantanal e rio Uruguai.
A proposta é transformar informações que normalmente aparecem de forma dispersa em uma leitura regional que possa apoiar planejamento, monitoramento e preparação. Entre as recomendações estão ações de “baixo arrependimento”: medidas preventivas que continuam produzindo benefícios mesmo quando os cenários mais severos não se confirmam, como manutenção de sistemas de drenagem, inspeção de estruturas, revisão de planos de contingência e organização dos canais de comunicação.
O professor Daniel Gustavo Allasia Piccilli, do PPGECAM/UFSM explica que “a principal contribuição da Nota Técnica nº 5 é mostrar que um El Niño muito forte aumenta determinadas probabilidades, mas não permite concluir automaticamente que ocorrerão chuvas ou inundações extraordinárias em todos os locais. A Nota compara diferentes modelos, explicita suas incertezas e traduz os resultados em orientações de preparação e planejamento”.

Preparação sem alarmismo
Segundo os pesquisadores, as previsões sazonais são importantes para planejamento, manutenção e vigilância, mas não substituem o acompanhamento das condições observadas, dos prognósticos de curto prazo e dos alertas emitidos pelos organismos oficiais. A abordagem também procura reduzir interpretações alarmistas de fenômenos climáticos. A comparação entre modelos permite identificar convergências e diferenças entre os cenários, mostrando os limites das previsões e evitando que índices climáticos sejam interpretados como previsões determinísticas de chuva ou inundação.
Para o Rio Grande do Sul, a experiência das cheias de 2024 reforça a importância desse tipo de preparação. Segundo a equipe, a resposta a eventos extremos depende da combinação entre previsão, monitoramento, conhecimento territorial, manutenção da infraestrutura e capacidade de resposta. Nesse contexto, medidas preventivas como a manutenção de drenagens, a inspeção de pontes e acessos, a revisão de planos de contingência e o fortalecimento da comunicação institucional podem ser adotadas independentemente da ocorrência de uma nova inundação de grande magnitude.

Cooperação entre UFSM e UNNE
A Nota Técnica nº 5 é resultado de uma cooperação acadêmica que já vinha sendo construída entre a UFSM e a UNNE e que ganhou maior intensidade a partir das experiências relacionadas às cheias de 2024 no Rio Grande do Sul. “A cooperação entre a UFSM e a UNNE permite analisar o fenômeno em uma escala verdadeiramente regional. A Bacia do Prata conecta territórios brasileiros e argentinos, de modo que compreender seus riscos exige integrar informações produzidas a montante e a jusante”, afirma Allasia.
Na UFSM, participam do trabalho o professor Daniel Gustavo Allasia Piccilli, a engenheira e doutoranda Yamila Chicherit, a professora Rutinéia Tassi e o professor João Francisco Carlexo Horn. Todos integram o Grupo de Modelagem Hidroambiental e Ecotecnologias e participam do Green and Blue Office, escritório-modelo que integra infraestrutura azul, relacionada à água e à drenagem; infraestrutura verde, como fitotecnologias e soluções sustentáveis; e infraestrutura cinza, como pontes e estruturas convencionais de concreto e aço.
Pela UNNE, participam os professores Jorge V. Pilar, Alejandro R. Ruberto, Carlos Alberto Depettris e Marcelo J. M. Gómez. A quinta nota técnica também contou com a colaboração, a título pessoal, do técnico em Meteorologia Sinóptica Julio César Ríos.
A experiência de cooperação está relacionada também às ações desenvolvidas por equipes do CT durante e após as inundações de 2024. Naquele período, pesquisadores atuaram em articulação com o Escritório Modelo de Engenharia do CT e o Grupo de Pesquisa em Geotecnia e Meio Ambiente (GEOMA), em atividades que envolveram estudos hidrológicos e hidráulicos, análises geotécnicas, levantamentos de campo e apoio técnico a municípios.
De acordo com os pesquisadores, o grupo participou de estudos e apoio técnico relacionados à reconstrução de mais de 50 pontes de maior porte na Região Central do Rio Grande do Sul. O apoio esteve relacionado a projetos e estruturas cujo valor total é estimado conservadoramente em cerca de R$ 150 milhões.
A experiência também originou pesquisas sobre os mecanismos de ruptura de pontes e estratégias para ampliar a resiliência da infraestrutura diante de eventos extremos.
Acompanhamento continua
A Nota Técnica nº 5 foi publicada em 18 de setembro e, segundo levantamento informado pela equipe, repercutiu em mais de 20 veículos e instituições argentinas, gerando mais de 30 publicações, republicações e conteúdos em redes sociais.
A equipe pretende manter o acompanhamento da evolução de El Niño e de uma eventual transição posterior para La Niña, atualizando as análises conforme novos dados estejam disponíveis.
A Nota Técnica Conjunta nº 5/2026 está disponível em acesso aberto no Zenodo. As demais notas técnicas e publicações do grupo também podem ser consultadas no site do Grupo de Ecotecnologias.
Sobre o Grupo de Modelagem Hidroambiental e Ecotecnologias
Vinculado ao Centro de Tecnologia da UFSM e ao Pós-Graduação em Engenharia Civil e Ambiental, o Grupo de Ecotecnologias desenvolve pesquisas voltadas à compreensão de sistemas hidroambientais e à produção de soluções aplicáveis à gestão de recursos hídricos, infraestrutura e adaptação às mudanças climáticas. Parte das atividades práticas e de pesquisa é desenvolvida no Laboratório de Meio Ambiente da UFSM (LEMA), no Prédio 10 do CT.
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