Após o ocorrido na boate Kiss, uma rede de solidariedade se formou em Santa Maria. Agora, mais de uma semana depois, os esforços se concentram em auxiliar os familiares das pessoas envolvidas nessa tragédia e os que dela conseguiram escapar. Para isso, uma equipe de voluntários, dentre eles os profissionais da saúde, atua nos hospitais da cidade para oferecer auxílio, seja na forma de doações de alimentos ou apenas em uma palavra de carinho, um abraço, gestos que neste momento, podem representar muito.
Mateus Fortes Rossato, doutorando em Farmácia da UFSM, esteve presente como voluntário no Centro Desportivo Municipal (CDM) e nos explica como se formou essa rede de voluntários nos hospitais da cidade:
“Uma amiga minha, a Bibiana Argenta serviu como voluntária domingo no CDM. Ela viu que depois que toda a função dentro do local terminou, muitos familiares começaram a ir para os hospitais, porque eram parentes dos feridos ou pra ficar com outras famílias próximas mesmo. Vimos que nestes hospitais eles estavam sem assistência. Então, começamos a distribuir alguns mantimentos que estavam no CDM para estes locais, que no início era só o Hospital de Caridade, pois a maioria das vítimas havia ido pra lá. Éramos um grupo de 5, 6 pessoas no início. Nisso, mais pessoas se dispuseram a ajudar. Terminamos com cerca de 20 pessoas ajudando”.
A ideia da criação de um grupo no Facebook surgiu para que essas 20 pessoas pudessem se comunicar, já que a maioria não se conhecia, pois vieram de locais distintos da cidade. Entretanto, no final do primeiro dia de criação do grupo, ele já contava com mais de 100 pessoas, no outro dia já batia a marca de 500. Atualmente, o grupo Voluntários – SM conta com 4.656 membros dispostos a ajudar.
Nos três hospitais, nos quais existem feridos do acidente na cidade, HUSM, Hospital de Caridade e Hospital São Francisco, voluntários se revezam em turnos para dar assistência e distribuir alimentos e água para os familiares e os pacientes. Mateus explica que de início, pensou-se que os voluntários fariam apenas esse suporte físico, de distribuição, mas que depois se viu que isso não era o principal “a gente viu que a maioria das pessoas não queria nada. Eles queriam só saber que tinha alguém ali cuidando e se preocupando com elas. Elas queriam um contato humano mais do que qualquer outra coisa”.
O voluntário tenta explicar o sentimento de solidariedade que percebe entre os habitantes da cidade: “Eu não perdi nenhum parente, nenhum amigo, mas tenho um amigo que perdeu 12 pessoas. Apesar dessa dor não ser diretamente minha, eu vivo com pessoas que estão sofrendo muito. Acho que a maior parte da população está vivendo uma situação semelhante. Isso dá uma sensação muito grande de impotência, então eu acho que a forma de amenizar a dor que cada um está sentindo é, para muitos, participar de alguma forma de voluntariado, ainda mais sabendo que isso é muito importante para quem recebe esta ajuda”.
Mateus considera que o Facebook está sendo uma ferramenta muito positiva nisso tudo. Ao mesmo tempo em que se tem todo esse clima negativo, essa dor, também existe esse movimento muito grande de esperança e solidariedade do voluntariado. E isso faz muito bem pras pessoas. Ele afirma que a própria recuperação dos pacientes sofre uma influência benéfica desses atos.
Atualmente, a equipe de voluntários atua dentro do HUSM e do Hospital São Francisco e em uma tenda na frente do Hospital de Caridade. Essa tenda foi instalada devido à impossibilidade de se manter os voluntários dentro do Hospital de Caridade, já que ele abriga a maior parte dos pacientes e também por razões internas do próprio hospital. Com a tenda, que fica localizada na praça em frente ao hospital, pretende-se ampliar o atendimento para a comunidade, com a colaboração de outros profissionais, como fisioterapeutas e educadores físicos.
O primeiro contato do grupo com a prefeitura se deu por acaso, como explica Mateus. Um hospital vendo as doações pensou que era para encaminhar para o CDM e chamou a equipe para recolher. Então, Mateus marcou uma reunião com o Gabinete do Prefeito para esclarecer sobre o trabalho realizado pelos voluntários e também para que a prefeitura ajudasse o grupo a se organizar de forma mais eficaz.
Para organizar de forma mais eficiente os voluntários, são escolhidas duas pessoas de cada hospital, aquelas que já haviam feito vários turnos e que sabiam como a administração dos hospitais estava funcionando, para organizarem os voluntários dento de cada um desses hospitais. Mateus é responsável, além da tarefa de moderação do grupo, de fazer o contato com o CDM, caso haja falta de materiais ou doações a mais que podem ser recolhidas. Além de atender os hospitais, o CDM também faz a distribuição para famílias que são carentes ou de fora da cidade e não tem como se manter aqui. Por isso, a importância de se manter o estoque de doações cheio.
Para quem quiser saber mais sobre o trabalho dos voluntários, pode procurar o grupo “Voluntário SM” no Facebook ou entrar em contato com Mateus, através do telefone (55)9908 7782. Mateus ressalta que por não ser uma instituição, o grupo não recebe doações em dinheiro e medicamentos, apenas alimentos e água. Preferencialmente, doações de material de fácil distribuição e em porções individuais, para evitar contaminação hospitalar. Quem deseja fazer doações em dinheiro deve entrar em contato com a prefeitura ou com a Cruz Vermelha.
Foto: Ítalo Padilha.
Repórter: Julia do Carmo – Acadêmica de Jornalismo.
Edição: Lucas Durr Missau.