Para
que a cidade de Santa Maria atenda de forma satisfatória todos os
seus cidadãos, é preciso que todas as especificidades sejam levadas
em conta. Pensando nisso, um projeto de extensão surgiu na UFSM
chamado “Capacitação discente para a produção de tecnologia
social a pessoas com deficiência e mobilidade reduzida em
comunidades de baixa renda do município de Santa Maria”. Foi uma
parceria entre os cursos de Desenho Industrial e Terapia Ocupacional
que buscou qualificar o atendimento a pessoas com deficiência
física
e que atuou de
março de 2014 a
março deste ano. Teve como coordenador o professor do
curso de Desenho
Industrial Sérgio
Brondani e como
orientadora
e gestora a professora do
curso de Terapia
Ocupacional Taísa Ferreira.
Equipamentos
que promovem uma vida mais digna
Dona
Romilda, de
73 anos, é uma senhora
de cabelos castanhos e sorriso inspirador. É
mãe de um homem e duas mulheres com síndrome degenerativa
neurológica. Ela precisa se movimentar constantemente para atender
Jaime, de 43 anos, Sandra, de 46, e Marcia, de 52. Para isso, ela
tinha que arrastar o banquinho que possuía de um lado para o outro,
o que causava exaustão em certo momento. A equipe optou, então, por
construir o que nomearam de “cadeira para atendimento”, a
qual tem uma
estrutura fixa com assento giratório. Seu deslocamento é facilitado
com a base em
um polímero que reduz o atrito com o piso, facilitando, assim, o
deslocamento.
Agora dona Romilda não precisa se levantar todo o tempo para fazer
suas atividades, principalmente nos momentos de almoço e jantar.
Ela
conta que antes era tudo mais
difícil. “Era complicado fazer o trabalho sozinha, sem assistência
nenhuma. Meus filhos precisam de ajuda para se movimentarem
e, principalmente, para
fazerem
as refeições. A equipe foi muito simpática e atenciosa comigo.
Esse retorno da universidade para nós é muito importante”, pontua
dona Romilda, que agora conta com o auxílio de três assistentes da
área de saúde em sua casa.
Algo
parecido acontecia com dona Maria, de 62 anos, que tem paralisia
cerebral. Seu pai, Juredy, construiu para a filha um conjunto
improvisado de mesa e banco. O banquinho era para que ela pudesse
sentar e a mesa de madeira para que pudesse fazer suas refeições ou
demais atividades. Pensando nisso, a equipe criou um equipamento
moderno que desse mais conforto a ela, o qual possui mais
funcionalidades como regulagem e sustentação para que Maria consiga
realizar suas ações.
Dona
Irene, de 53 anos, tem esclerose múltipla. Ela sempre gostou de
tomar chimarrão, mas com o tempo perdeu o movimento das mãos.
Depois de se casar com Vilmar, seu companheiro, passou a ter tradição
de tomar a bebida com mais frequência ao lado dele. São mais de 10
anos casados e uma união que inspira. O professor Sérgio e seus
alunos e alunas desenvolveram para dona Irene um suporte para que ela
continuasse tomando chimarrão. “Foi muito interessante o processo.
Agora posso tomar o chimarrão com minha esposa sem que eu tenha que
segurar a cuia, como antigamente. Ela tem mais liberdade, de certa
forma”, avalia Vilmar.
Gustavo
tem paralisia cerebral e recebeu de um programa do governo uma
cadeira de rodas. Contudo, sua mãe, dona Nadir, não conseguia
levá-lo ao banheiro para tomar banho. A casa deles possui corredores
estreitos e isso não foi levado em consideração quando a cadeira
de rodas chegou. Ao observar isso, o professor Sérgio e sua equipe
desenharam e, posteriormente, os trabalhadores da comunidade
construíram uma porta com os parâmetros necessários para que
Gustavo tivesse acesso ao local. Um procedimento relativamente
simples, mas que exigiu atenção dos envolvidos. Dessa forma, hoje
há mais praticidade para dona Nadir dar banho no filho, que
necessita de seu auxílio.
Uma
parceria que deu certo
A
equipe que desenvolveu o projeto era formada por 15 acadêmicos,
cincodo
Desenho Industrial e 10 de Terapia Ocupacional. O
contato constante
com as Unidades de Estratégia de Saúde Familiar, ou postinhos, que
todos os municípios devem ter, foram
fundamentais para que a ação fosse viável.
Essas unidades disponibilizaram os nomes e os endereços dos cidadãos
que precisavam de alguma ajuda, mas que não tinham acesso aos
equipamentos necessários para sua recuperação. Esse procedimento
já estava previsto no edital ao
qual o curso de Desenho Industrial concorreu, em 2014, promovido pelo
Programa
de Extensão Universitária (ProExt). O
objetivo
é apoiar
as instituições públicas de ensino superior no desenvolvimento de
programas ou projetos de extensão que contribuam para a
implementação de políticas públicas.
Com
a necessidade de elencar informações mais específicas sobre as
pessoas atendidas pelo projeto, foi criado o Protocolo Funcional. O
professor Sérgio
conta que o documento foi criado enquanto ele estava fazendo seu
pós-doutorado na Faculdade
de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa
(FMC-UL). “As questões urbanas também foram exploradas
no protocolo,
como luminosidade e acesso aos lugares públicos que as pessoas com
deficiência física possuem. Além daquelas básicas que dizem
respeito à alimentação e ao ambiente no qual elas se encontram.
Elencamos quais as condições de vida que elas
possuíam”,
explica.
Com o término desse procedimento, iniciaram-se as ideias e
projeções de como os acadêmicos
e
acadêmicas
poderiam ajudar as pessoas que foram atendidas. Os alunos
de Desenho Industrial criavam os desenhos, já com apoio dos estudantes de Terapia Ocupacional, baseando-se na deficiência
física
da pessoa em questão. Sérgio conta
que os equipamentos foram feitos com o auxílio de trabalhadores da
própria comunidade, através de uma verba também prevista no
edital. Marceneiros e serralheiros, por exemplo, foram pagos para
prestarem um trabalho com a equipe do projeto. Depois da confecção
desses equipamentos, os alunos trabalharam na promoção da saúde com
o desenvolvimento de atividades que contribuíssem na reabilitação
dos
participantes.
Recém-formada
em Terapia Ocupacional e professora
substituta
na UFSM, Laura Bianchetti relata
que antes de serem realizadas as visitas às casas dos atendidos pelo
projeto, uma espécie de “bloco” de estudo teórico era feito,
reunindo os cursos envolvidos. Dessa forma, ainda que Desenho
Industrial e Terapia Ocupacional fossem muito diferentes
aparentemente, acabavam por complementar um ao outro. “Após
isso, conhecíamos o dia a dia das pessoas. Assim
poderíamos avaliar a situação de cada um e, a partir dessa
demanda, discutir em um grupo maior de que forma poderíamos
contribuir”, frisa Laura.
Ela
também pontua a importância do projeto em sua vida. “Fazer parte
disso também refletiu de forma positiva na minha vida fora da
academia, pois fica a experiência e a certeza de que com o
conhecimento e a rede de apoio necessárias podemos atuar e
contribuir de diversas formas em prol da sociedade”.
A
Tecnologia Social
O
projeto faz parte das chamadas tecnologia assistiva e social. A
primeira diz respeito ao indivíduo e suas atividades diárias
exercidas, com a criação e o uso de produtos, equipamentos e
serviços. Promove a integração social e o convívio entre as
pessoas. A segunda tem surgido no
cenário brasileiro como um movimento “de baixo para cima” e
busca gerar alternativas para atender às necessidades ou demandas
sociais. Propõe um modelo novo de produção da ciência e da
aplicação da tecnologia em nome do desenvolvimento social.
A
crise atual e os cortes de verba promovidos pelo governo
federal
refletem diretamente na continuação do projeto, que acabou no
último mês, em março, ao completar três anos. Embora os
professores Sérgio e Taísa tenham muito interesse em levá-lo
em frente,
não podem, pois com o corte de verba não há subsídios suficientes
para tal. “Os
gestores públicos precisam capacitar trabalhadores comuns para
prestarem um trabalho que dê retorno à comunidade. Fizemos isso:
contatamos os líderes da região como serralheiros e marceneiros que
construíram o que nós de Desenho Industrial projetamos
e desenhamos.
São equipamentos de baixa complexidade, mas que mudam muito a vida
das pessoas. Os gestores deviam contratar terapeutas ocupacionais, pintores,
marceneiros e afins e, posteriormente,
montar uma equipe para que ela desenvolvesse
trabalhos na comunidade”,
pontua
o professor.
Texto: Bruno Steians, acadêmico de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias da UFSM
Fotos: Divulgação
Edição: João Ricardo Gazzaneo

