Ir para o conteúdo UFSM Ir para o menu UFSM Ir para a busca no portal Ir para o rodapé UFSM
  • International
  • Acessibilidade
  • Sítios da UFSM
  • Área restrita

Aviso de Conectividade Saber Mais

Início do conteúdo

Paleontólogos da UFSM reconstroem o cérebro de um precursor dos pterossauros, os répteis voadores

Paleontólogos do



Paleontóloga analisa a caixa craniana do réptil (Foto: Rodrigo T. Müller)

Paleontólogos da UFSM publicaram, na última sexta-feira (13), um novo estudo no periódico científico Palaeontology, no qual apresentam a reconstrução do cérebro de um réptil extinto a partir de tomografias computadorizadas. As análises foram realizadas com base em um fóssil de 233 milhões de anos, encontrado no município de São João do Polêsine (RS), no território do Geoparque Quarta Colônia Unesco.

Frequentemente confundidos com dinossauros, os pterossauros foram répteis que dominaram os céus durante a Era Mesozoica e desenvolveram a capacidade de voo antes mesmo das aves. Embora esses animais tenham sido abundantes nos Períodos Jurássico e Cretáceo, sua origem no Período Triássico ainda é pouco compreendida. Dentre as diversas adaptações que essa linhagem apresentou para o voo, as mudanças no cérebro estão entre as que mais chamam a atenção e despertam curiosidade. A chave para entender como o cérebro dos pterossauros evoluiu para permitir o voo está em compreender como era o cérebro de seus precursores, para que as diferenças entre eles possam ser discernidas.

Entretanto, há poucos fósseis no mundo de precursores dos pterossauros que preservem bem a região do crânio que abriga o cérebro. Nesse contexto é que um fóssil brasileiro ajudou a entender como foi o cérebro desses precursores dos répteis voadores. O novo estudo, liderado por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria e com a participação de cientistas dos Estados Unidos, Argentina e Alemanha, investigou detalhes da anatomia do fóssil de um lagerpetídeo descrito em 2023. A pesquisa faz parte da tese de doutorado de Lísie Vitória Soares Damke, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da UFSM, sob a orientação do paleontólogo Rodrigo Temp Müller.

Reconstrução artística de Venetoraptor e modelo 3D do cérebro (Ilustração: Caio Fantini)

Como estudar o cérebro de um animal extinto?

Os lagerpetídeos foram répteis esguios que representam os precursores mais próximos dos pterossauros. Contudo, ao contrário de seus parentes voadores, os lagerpetídeos não possuíram a capacidade de voar. É justamente por isso que existe tanto interesse em compreender como era o cérebro desses animais, já que analisá-lo pode ajudar a revelar quais características surgiram nos pterossauros a partir do momento em que o grupo se tornou capaz de levantar voo. Contudo, como o cérebro é uma estrutura composta por tecidos moles, que raramente se preservam no registro fóssil, estudar sua anatomia é uma tarefa desafiadora.

Para contornar essa limitação, cientistas utilizam tomografias computadorizadas para preencher digitalmente as cavidades do crânio que correspondem ao espaço que seria ocupado pelo encéfalo. Em seguida, as estruturas internas são separadas digitalmente, o que permite a criação de um modelo tridimensional aproximado do cérebro. É a partir desse modelo que os pesquisadores conseguem inferir hábitos e comportamentos por meio de medidas e análises baseadas em animais atuais.

Infográfico do réptil (Ilustração: Matheus Fernandes Gadelha)

Nem do céu nem da terra: um réptil que vivia na copa das árvores

Foi por meio desses procedimentos que o grupo de pesquisadores conseguiu reconstruir o cérebro do lagerpetídeo brasileiro Venetoraptor gassenae. Esse réptil com cerca de 1 metro de comprimento possuía um bico pontiagudo, garras longas, membros delgados e locomovia-se de maneira bípede. Embora ele não fosse capaz de voar, acredita-se que ele se deslocava entre as copas das árvores, utilizando suas garras recurvadas para se prender nos galhos.

O excelente grau de preservação dos elementos cranianos fossilizados ajudou a revelar detalhes importantes da anatomia do cérebro e do ouvido interno desse animal. Uma das estruturas que mais chama a atenção no modelo tridimensional é o flóculo do cerebelo, uma estrutura associada ao equilíbrio e à estabilização da visão durante os movimentos da cabeça. Na espécie estudada, essa estrutura é bastante desenvolvida, sugerindo que esses animais já possuíam um controle refinado dos movimentos da cabeça e da visão.

A pesquisa também apontou que partes dos canais semicirculares, estruturas do ouvido interno que fazem parte do labirinto ósseo e são fundamentais para o equilíbrio dos organismos, apresentam um aumento notável em comparação com alguns outros répteis. Essas habilidades podem ter sido úteis para ajudar esse animal a caçar suas presas e/ou a se locomover com maior facilidade entre as árvores. Nos pterossauros, o flóculo do cerebelo também é muito grande, mas a presença dessa estrutura bem desenvolvida em Venetoraptor gassenae demonstra que essa condição não era exclusiva de répteis voadores.

Próximos passos

Embora tenha sido possível reconstruir boa parte do cérebro de Venetoraptor gassenae, ainda existem regiões desconhecidas, pois os ossos que as envolviam em vida não se preservaram. Entre elas estão os bulbos olfatórios, regiões do encéfalo responsáveis pelo sentido do olfato. O grupo de pesquisadores espera encontrar novos fósseis da espécie que preservem a região do crânio associada a essas estruturas, o que poderá permitir, no futuro, inferir a capacidade olfativa do animal. Para isso, continuam realizando escavações no sítio fossilífero que revelou os fósseis de Venetoraptor gassenae em 2022. A equipe também possui diversos achados inéditos em fase de preparação em laboratório ou em estudo, o que sugere um cenário promissor para os próximos anos no que diz respeito à investigação dos lagerpetídeos e à origem dos pterossauros.

Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da UFSM

O fóssil de Venetoraptor gassenae está depositado no Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (CAPPA/UFSM), localizado no município de São João do Polêsine. O centro integra o Geoparque Quarta Colônia Unesco e abriga uma importante coleção de fósseis do Triássico brasileiro, além de uma exposição aberta à visitação gratuita.

O estudo foi conduzido por Lísie V.S. Damke, Leonardo Kerber, Mario Bronzati, Maurício S. Garcia, Martín D. Ezcurra, Sterling J. Nesbitt e Rodrigo T. Müller. A pesquisa recebeu apoio do CNPq, INCT Paleovert, CAPES e Alexander von Humboldt Foundation.

O artigo intitulado “Braincase anatomy and palaeoneurology of Venetoraptor gassenae, a lagerpetid pterosauromorph from the Late Triassic of southern Brazil” foi publicado no periódico Palaeontology.

Fonte: Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia da UFSM

Divulgue este conteúdo:
https://ufsm.br/r-1-72177

Publicações Recentes