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Cigarro eletrônico faz mal? Entenda os impactos à saúde e os riscos de dependência 

Pesquisa desenvolvida por estudantes da UFSM aponta riscos respiratórios e reforça alerta sobre dependência em nicotina



Imagem horizontal de uma mão segurando um cigarro eletrônico no fundo tem uma fumaça branca. Ao lado do aparelho tem textos com nomes de várias substâncias presentes em sua composição. O fundo é vermelho escuro.
Cigarro eletrônico pode conter mais de 2 mil substâncias em sua composição

Ainda na adolescência, Laura Giacetti teve contato com uma nova forma de consumir nicotina. Em 2017, aos 13 anos, experimentou pela primeira vez um cigarro eletrônico influenciada por amigos mais velhos que já utilizavam o dispositivo. Na época, o aparelho parecia algo moderno e inofensivo. “Eu achava aquilo super legal, descolado, sabe? E como era algo novo, ninguém falava muito dos riscos”, relembra.

O que começou como curiosidade rapidamente se transformou em hábito. Nos anos seguintes, passou a utilizar o cigarro eletrônico diariamente, até perceber que o consumo já havia se tornado uma dependência. Foi durante a pandemia de Covid-19 que ela identificou a gravidade da situação. Laura conta que priorizava a compra dos dispositivos sempre que tinha algum dinheiro disponível. “Eu dormia com ele embaixo do meu travesseiro para usar assim que eu acordava. Eu não saía de casa sem [o cigarro eletrônico] nunca. Foi aí que eu entendi que já não era algo normal, era realmente uma dependência”, relata hoje aos 22 anos.

O cigarro eletrônico já faz parte da realidade de uma parcela significativa dos adolescentes brasileiros. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que 29,6% dos estudantes de escolas públicas e privadas entre 13 e 17 anos afirmaram já ter experimentado. O levantamento aponta ainda que a exposição ao dispositivo é maior entre as meninas: 31,7% relataram já ter usado cigarros eletrônicos, frente a 27,4% dos meninos. 

Apesar de populares entre os jovens, os cigarros eletrônicos têm comercialização, importação e propaganda proibidas no Brasil desde 2009, conforme a Resolução nº 46 da Anvisa. Conhecidos também como vape, pod ou dispositivo eletrônico para fumar, os aparelhos funcionam por meio do aquecimento de um líquido que contém principalmente nicotina, frequentemente em altas concentrações, propilenoglicol, glicerina vegetal, aromatizantes e metais pesados como níquel, estanho e chumbo. Ao ser aquecido, esse líquido cria um aerossol tóxico que contém substâncias cancerígenas quando inaladas, equivalendo, em alguns casos, a mais de 20 maços de cigarro comum. 

Segundo o pneumologista Paulo Correia, ex-coordenador da Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, as substâncias químicas presentes nos cigarros eletrônicos reagem entre si durante o aquecimento, formando compostos tóxicos capazes de provocar inflamações severas nos pulmões. Entre essas substâncias estão compostos carbonílicos e derivados químicos associados a doenças respiratórias graves. 

Imagem horizontal de uma montagem com fotos de um pulmão, na frente uma mão segurando um cigarro eletrônico ao redor tem fumaça branca sobre um fundo vermelho.
Uso de cigarros eletrônicos pode causar danos pulmonares graves

Indústria do vape usa sabor, design e redes sociais 

Para a doutora em saúde pública Cristina Perez, coordenadora técnica da  organização ACT Promoção da Saúde o avanço desses dispositivos entre adolescentes reflete estratégias históricas da indústria do tabaco para atrair novos consumidores. Segundo Cristina, o vape é apresentado de forma enganosa como produto menos nocivo, enquanto utiliza elementos voltados ao público jovem, como sabor doce, design tecnológico e divulgação em redes sociais.

Fora do Brasil, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que esses produtos estão alimentando uma nova geração dependente de nicotina, com milhões de adolescentes usuários no mundo. Cristina também avalia que, embora a comercialização dos cigarros eletrônicos seja proibida, a fiscalização ainda é insuficiente. A venda irregular em redes sociais, o comércio informal e a entrada ilegal dos dispositivos no país ajudam a ampliar o acesso. O que representa um alerta para a saúde pública. 

Na vida de Laura, esse alerta surgiu quando os impactos do fumo começaram a afetar sua saúde respiratória. Antes acostumada a uma rotina ativa e à prática de esportes, ela conta que passou a sentir dificuldades até mesmo em atividades simples do dia a dia após o uso diário do cigarro eletrônico. “Eu sempre fui uma pessoa muito ativa, que gosta muito de esporte. Nunca tive nenhum problema, mas depois que comecei a usar o vape todo dia, senti uma dificuldade muito grande para respirar. Só de correr um pouco já ficava super ofegante”, relata. Segundo Laura, mesmo após interromper o uso do dispositivo, parte das consequências respiratórias ainda permanecem. “Hoje em dia isso nunca melhorou”, afirma.

De acordo com Paulo, os sintomas de doenças respiratórias relacionadas ao uso do cigarro podem surgir após poucas semanas de utilização e variam conforme o organismo de cada pessoa e o tipo de produto utilizado. “É como se fossem múltiplas inflamações dentro do pulmão”, explica. Essas lesões podem atingir tanto a região responsável pela respiração quanto provocar formação de bolhas pulmonares com danos permanentes. 

O pneumologista afirma que os sintomas mais comuns incluem tosse, febre, dores no peito e falta de ar. Em casos mais graves, os pacientes podem precisar de ventilação mecânica, apresentar sequelas respiratórias permanentes e até necessitar de transplante pulmonar. Segundo ele, exames como tomografia e espirometria ajudam a identificar alterações inflamatórias e danos causados pelo uso contínuo do vape. 

Pesquisa da UFSM alerta para danos respiratórios 

Pesquisadores do curso de Medicina da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) têm investigado os impactos do uso de cigarros eletrônicos na saúde respiratória. Em um artigo publicado neste ano, estudantes da instituição analisaram estudos sobre a EVALI, sigla em inglês para lesão pulmonar associada ao uso de cigarros eletrônicos e vaporizadores. A condição ganhou atenção internacional após centenas de casos de internações relacionadas ao uso de vape, especialmente entre jovens.

O estudo, intitulado Lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico e vaporizadores (EVALI): uma revisão narrativa, aponta que os dispositivos eletrônicos liberam aerossóis tóxicos. Segundo os pesquisadores, os sintomas da EVALI podem incluir tosse persistente, dor no peito, febre, fadiga e dificuldade respiratória progressiva. Em muitos casos, os sinais se confundem com outras doenças pulmonares, o que dificulta o diagnóstico.

Além dos danos pulmonares, o estudo aponta que a exposição contínua à nicotina presente nos dispositivos eletrônicos pode causar dependência intensa e rápida, especialmente entre adolescentes. Os pesquisadores destacam que adolescentes estão mais vulneráveis aos efeitos da nicotina, já que o cérebro ainda está em desenvolvimento nessa faixa etária, favorecendo a consolidação da dependência. 

 

“A indústria do tabaco sempre foi um lobo. Agora tenta vestir a pele de cordeiro”,
pneumologista Paulo Correia,
ex-coordenador da Comissão de Tabagismo da
Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia

“A melhor coisa que fiz na minha vida foi não usar mais o vape.” 

Em 2023, Laura, que hoje trabalha como influenciadora digital, publicou um vídeo nas redes sociais relatando sua experiência ao abandonar o uso de cigarros eletrônicos. No conteúdo, ela incentiva seguidores a deixarem o vício. Atualmente, a publicação já ultrapassa 100 mil visualizações.

Nos comentários, usuários relatam experiências semelhantes às vividas por Laura e compartilham dificuldades relacionadas à dependência e aos impactos na saúde. “Quero muito parar, estou tendo muita dificuldade em respirar”, escreveu um internauta. “Hoje em dia eu só fumo o pod se [sic] eu estou sem cigarro. Não tenho muito vício em si no pod, mas no cigarro sim. Tô tentando parar e vou conseguir. Hoje eu decidi de vez não fumar mais”, comentou outro usuário na publicação. 

Parar de usar o cigarro eletrônico, no entanto, não foi um processo simples para Laura. Conforme a influenciadora digital, um dos maiores desafios foi romper com os hábitos criados ao longo dos anos e se afastar de pessoas que continuavam incentivando o uso do vape. “Eu me afastei de muitas pessoas, de muitos ‘amigos’. Me afastei de quem usava e não respeitava minha decisão de parar, porque quem realmente se importa com você quer te ver bem”, conta. 

Laura relata que passou a pesquisar mais sobre os impactos do vape na saúde e se impressionou com imagens e relatos sobre os resíduos produzidos pelos aparelhos. “Quando eu vi de verdade os efeitos, me deu um nojo inexplicável. Lembro de ver uma foto de um líquido amarelo escuro que sai do vape e pensar que aquilo estava dentro do meu corpo”, recorda. Depois de um episódio de falta de ar que a levou ao hospital, ela decidiu abandonar o uso dos dispositivos. “O médico confirmou que era por causa do vape. Aquilo mudou tudo para mim. Joguei todos os meus vapes fora e nunca mais usei.”, relembra. 

Para quem deseja parar de fumar vape, o pneumologista Paulo Correia recomenda buscar acompanhamento profissional. Ele explica que o tratamento mais eficaz envolve o desmame gradual da nicotina, associado a estratégias de reposição e medicamentos específicos utilizados no combate ao tabagismo. “Parar de fumar é possível, mas com acompanhamento médico o processo se torna muito mais seguro e eficiente”, ressalta.

O especialista também alerta para a desinformação disseminada nas redes sociais sobre os cigarros eletrônicos. Conforme o médico, a ideia de que o vape seria “apenas vapor de água” ajuda a normalizar o consumo entre jovens e reduz a percepção de risco. “A indústria do tabaco sempre foi um lobo. Agora tenta vestir a pele de cordeiro”, critica.

Texto: João Victor Souza, estudante de jornalismo e estagiário da Agência de Notícias

Artes gráficas: Daniel Michelon De Carli, designer 

Edição: Maurício Dias, jornalista 

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