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Missão de revalidação conclui visitas ao território de Caçapava do Sul 

Avaliadores da Unesco encerraram a programação de campo nesta quarta-feira (22)



Fotografia colorida na horizontal da visita dos avaliadores da Unesco à Feira Municipal da Agricultura Familiar e Produtos Coloniais (Femapro), em Caçapava do Sul. À esquerda da imagem, um homem de costas, com casaco cinza e verde, registra o momento com um telefone celular. No centro, uma integrante da equipe do Geoparque Caçapava, de costas, veste um colete bege com a inscrição "Caçapava Geoparque" e aponta em direção ao grupo reunido. Ao lado dela, o avaliador Jean-Luc também está de costas, veste uma jaqueta impermeável laranja e acompanha a apresentação. À direita, Amy Lee, tradutora da missão, tem cabelos grisalhos, usa óculos, colete bege e cachecol xadrez em tons de rosa e observa atentamente a atividade. Ao lado dela, Daniela Rocha aparece parcialmente visível, com cabelos loiros e jaqueta preta. Ao fundo, dezenas de pessoas formam uma roda em torno de mesas de exposição enquanto acompanham a fala da equipe do Geoparque. O ambiente é um pavilhão coberto, com teto revestido por tecido branco e uma fileira de pequenas luzes no centro da cobertura. Nas laterais, encontram-se os estandes da feira. À direita da imagem, aparecem placas com as inscrições "Agricultura Familiar", "Produtos Coloniais", "Parceria com a Natureza" e "Mel", além de prateleiras com produtos coloniais expostos. A iluminação combina luz natural e luminárias distribuídas ao longo do pavilhão.
Avaliadores encerraram as visitas de campo nesta quarta-feira (22)
Fotografia colorida na horizontal de geoprodutos artesanais expostos na Feira Municipal da Agricultura Familiar e Produtos Coloniais (Femapro), em Caçapava do Sul. Em primeiro plano, sobre uma mesa coberta por um tecido branco, estão miniaturas de animais da fauna local produzidas em papel machê. À esquerda, destaca-se a figura de um pássaro marrom com detalhes em tons avermelhados, apoiado sobre uma base verde que exibe um selo com a inscrição "Geoproduto". À direita, aparecem duas esculturas de mamíferos marrons, também sobre bases verdes com o mesmo selo. Ao centro da imagem, em segundo plano, há outras miniaturas, entre elas um lobo-guará em tons de cinza e um pássaro de plumagem verde. À direita, aparece parcialmente a escultura de uma ave cinza com bico comprido. As peças representam animais encontrados na região de Caçapava do Sul e fazem parte dos geoprodutos comercializados na feira.

Geofeira, visitas a sítios, vivências pedagógicas com estudantes e uma jornada de formação de professores marcaram o último dia da programação de campo da missão de revalidação do Geoparque Caçapava do Sul, realizada nesta quarta-feira (22). As atividades encerraram a etapa de visitas dos avaliadores da UNESCO, responsáveis por analisar se o território continua atendendo aos critérios para manter o título de Geoparque Mundial. 

Entre os dias 15 e 22 de julho, Daniela Rocha, de Portugal, e Jean-Luc Desbois, da França, percorreram os territórios dos geoparques Quarta Colônia e Caçapava do Sul, no Rio Grande do Sul. Reconhecidos como Geoparques Mundiais da Unesco em 2022, ambos passam agora pela primeira revalidação, processo realizado a cada quatro anos para confirmar se os territórios continuam atendendo aos critérios exigidos pela organização. Segundo o coordenador científico do Geoparque Caçapava do Sul, André Borba, desde o reconhecimento pela Unesco, “o que mais mudou foi o pertencimento das pessoas, a união da comunidade, a integração e a visibilidade que Caçapava alcançou”. 

Ao longo da missão, os avaliadores percorreram ainda diferentes pontos que representam a diversidade do patrimônio de Caçapava do Sul. Entre os locais visitados estiveram as Minas do Camaquã, que preservam o legado da mineração de cobre e paisagens marcadas por formações geológicas singulares; a Pedra do Segredo, um dos principais cartões-postais do Rio Grande do Sul; e o Forte Dom Pedro II, erguido com a finalidade de proteger a cidade de invasões estrangeiras.

Geoprodutos marcam o dia

Entre as atividades do último dia de visitas, os avaliadores da Unesco estiveram na Feira Municipal do Artesanato, Produtos e Prestação de Serviços (Femapro). No local, a comitiva que os recepciou mostrou geoprodutos feitos por artesãos e produtores de Caçapava do Sul. A iniciativa representa uma das estratégias dos Geoparques Mundiais da Unesco para transformar o patrimônio geológico, cultural e paisagístico em oportunidades de desenvolvimento para as comunidades do território.

Com 28 anos de história, a sede da associação reúne atualmente 26 salas e abriga, além da feira, o Centro de Atendimento ao Turista (CAT), a sede regional da Rota da Lã, o Lions Club e o Clube Recreativo Harmonia. Em 2026, o espaço também recebeu a certificação de Ponto de Cultura. Presidente da Femapro e integrante do Comitê Gestor do Geoparque Caçapava do Sul desde 2016, Rosa Ruschel destaca que a feira acompanhou a consolidação do geoparque e passou por mudanças nos últimos anos. “Quando eu entrei nesse espaço, ele estava bem desmotivado. Hoje conseguimos mudar essa realidade”, compara. 

Os geoprodutos são bens e serviços que carregam a identidade do território e estabelecem relação com a geodiversidade, a história, a cultura e a paisagem local. Além de valorizar o patrimônio, os itens incentivam o empreendedorismo, fortalecem pequenos produtores e geram novas oportunidades de renda para a população. Desde o reconhecimento do Geoparque Caçapava do Sul pela Unesco, a rede de parceiros também cresceu. Em 2022, eram 46 selos distribuídos entre iniciativas parceiras, geoprodutos e apoiadores; atualmente, o território reúne 244 certificações. 

Na Femapro, esse conceito aparece em diferentes criações inspiradas no município e/ou resultantes de matérias-primas locais. Entre os produtos estão esculturas em papel machê que representam a fauna regional, tábuas e gamelas de madeira, louças com paisagens e símbolos locais e peças em biscuit e lã que homenageiam animais pré-históricos, como a preguiça-gigante, além de pães e doces. A entidade é formada por 80% de artesãos, 10% de agricultores familiares e 10% de prestadores de serviços, além dos selos de Geoparceiro e Geoproduto. Segundo Rosa, o reconhecimento ampliou a procura pelos produtos locais. “O turista já chega aqui procurando por ele”, comenta.

Criada como feira permanente em 1998, a Femapro se consolidou como um espaço de fortalecimento da cultura e da economia local. Com maioria feminina entre os expositores, a iniciativa promove a autonomia econômica de artesãs e de produtoras. Para Rosa, a revalidação reforça a importância da melhoria contínua do território. “Se não existisse esse processo, talvez a gente achasse que aquilo que faz já estava bom”, afirma. 

Foto colorida horizontal de mulher de costas trabalhando em um tear de lã. Ela mostra como é tramada a lã de ovelha para produzir uma peça usada na sela de cavalo
A artesã Nara Alves do Santos, da Rota da Lã, integra a terceira geração de tecelãs e é uma das expositoras da Femapro

Educação, extensão e patrimônio no território

A programação com os avaliadores da Unesco destacou a integração entre educação, ciência e comunidade, um dos pilares dos geoparques. Ao longo de quatro dias em Caçapava do Sul, a comitiva visitou geossítios, projetos de educação patrimonial, iniciativas de pesquisa e ações voltadas à preservação da memória e da identidade do território.

No último dia da missão, a educação ambiental ganhou destaque durante a visita ao Sítio Chaleira Preta. No local, Daniela Rocha e Jean-Luc Desbois acompanharam vivências pedagógicas com estudantes dos anos iniciais. No local, os avaliadores conheceram um minhocário utilizado em atividades educativas e um moinho movido à roda d’água, construído por volta de 1865, que preserva técnicas tradicionais de moagem e integra o patrimônio histórico do território. Segundo André Borba, as escolas contam atualmente com cerca de 20 atividades à disposição para trabalhar temas como geoturismo, geoeducação e geoprodutos.

A relação entre universidade e comunidade também esteve presente durante a missão por meio das ações de extensão desenvolvidas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa) no território. “O papel da UFSM tem sido principalmente na extensão universitária, levando professores, técnicos e estudantes para desenvolver projetos junto às comunidades do território”, afirma Borba. A atuação da instituição envolve projetos voltados à educação, pesquisa e valorização do patrimônio natural e cultural, aproximando o conhecimento acadêmico das demandas locais.

A programação foi encerrada no CTG Família Nativista, com a abertura da Jornada Interdisciplinar de Formação de Professores em Educação Patrimonial. O encontro reuniu educadores, gestores e representantes do Geoparque em um painel de abertura com a participação de Borba e da professora Marta Rosa Borin, docente da UFSM e especialista em patrimônio cultural. A atividade discutiu o papel da educação patrimonial na formação de professores e no fortalecimento da identidade territorial.

Fotografia colorida na horizontal de uma atividade educativa realizada no minhocário do Sítio Chaleira Preta, em Caçapava do Sul. Em primeiro plano, uma criança, posicionada à direita da imagem, inclina o corpo sobre a estrutura de tijolos do minhocário e aponta com o dedo para uma minhoca sobre a terra. Ao redor, outras crianças aparecem parcialmente visíveis, observando atentamente a atividade. Uma delas usa um crachá pendurado no pescoço. O minhocário ocupa a maior parte da fotografia e apresenta solo úmido, onde é possível ver algumas minhocas na superfície. A estrutura é cercada por tijolos aparentes, que servem de apoio para as crianças durante a observação. A iluminação é suave e destaca a textura da terra e os detalhes da atividade, desenvolvida como parte das ações de educação ambiental oferecidas pelo Sítio Chaleira Preta e apresentadas aos avaliadores da Unesco durante a visita ao local.
Ações de educação ambiental integram os critérios de avaliação da Unesco
Fotografia colorida na horizontal do avaliador da Unesco Jean-Luc Desbois durante entrevista no Sítio Chaleira Preta, em Caçapava do Sul. No centro da imagem, Jean-Luc está sentado em um sofá listrado, com o corpo voltado para a direita e o olhar direcionado a outra pessoa. Ele tem cabelos grisalhos curtos, barba, usa óculos de armação transparente, jaqueta impermeável laranja sobre uma camisa verde e um crachá de identificação pendurado no pescoço. Ao fundo, há uma parede em tons de branco e madeira. À direita da imagem, aparece parcialmente outra pessoa sentada ao seu lado.
O avaliador Jean-Luc Desbois coordena o Geoparque Massif des Bauges, na França
Fotografia colorida na vertical da avaliadora da Unesco Daniela Rocha durante entrevista no Sítio Chaleira Preta, em Caçapava do Sul. No centro da imagem, Daniela está sentada em uma cadeira, com as pernas cruzadas e as mãos erguidas enquanto fala. Ela tem cabelos loiros na altura dos ombros, veste uma jaqueta preta sobre um casaco claro e usa um crachá de identificação pendurado no pescoço. Ao fundo, há uma parede com cortinas brancas rendadas.
A avaliadora Daniela Rocha, coordena o Geoparque Arouca, Portugal,

As impressões dos avaliadores da Unesco

Coordenadores de geoparques em seus países de origem, Jean-Luc Desbois, do Geoparque Massif des Bauges, na França, e Daniela Rocha, do Geoparque Arouca, em Portugal, destacaram o envolvimento coletivo como a principal impressão deixada por Caçapava do Sul durante a avaliação. Para os especialistas, a comunidade demonstra compreender o significado do que é um geoparque, a responsabilidade na construção do projeto e as oportunidades geradas pelo reconhecimento internacional.

Na avaliação de Jean-Luc, essa compreensão se reflete na evolução do território desde o reconhecimento em 2022. O avaliador destacou a ampliação dos geoprodutos, dos projetos desenvolvidos e das ações implementadas nos últimos quatro anos, período em que o território também trabalhou para atender às recomendações feitas na avaliação anterior. “Os avaliadores da outra missão deram algumas recomendações, e o que nós vimos durante os três dias é que houve muito trabalho nos últimos quatro anos”, afirma.

Para o avaliador francês, o comprometimento também está presente na forma como os moradores recebem os visitantes e se relacionam com o território. “Sinto desde o início da visita que as pessoas dão muita atenção ao outro, detectam o outro, todo mundo”, observa.Daniela também destacou que o sentimento de pertencimento esteve presente nos locais visitados durante a avaliação. Segundo ela, um dos aspectos que mais chamou atenção foi perceber que a comunidade compreende o significado de ser um geoparque mundial, conceito que muitas vezes é associado de forma equivocada apenas à preservação e às restrições de uso do território. “Todo mundo entende o seu verdadeiro significado, embora esse não seja um conceito fácil de compreender em um primeiro momento. Muitas pessoas associam a palavra ‘parque’ à ideia de restrições, quando, na realidade, a proposta é exatamente o contrário”, explica.

A especialista portuguesa enfatizou que iniciativas como os geoparceiros e os geoprodutos mostram como o reconhecimento internacional pode estimular novas formas de cooperação no território. “Esses programas também permitiram o surgimento de novos negócios e fez com que as pessoas se conhecessem para trabalhar em parceria. Assim, perceberam que o trabalho coletivo é mais forte do que cada um seguir sozinho”, destaca.

Assim como o colega avaliador, Daniela ressaltou a atuação conjunta entre instituições e comunidade na consolidação do projeto. “Eu acho que todos se reconhecem neste projeto, que está a ser alavancado pela Prefeitura, pela Universidade de Santa Maria. Todos chegaram a ele e, como todos estão a contribuir e a falar da mesma apropriação, o Geoparque em si segue muito mais vigoroso e forte”, conclui.

Após o encerramento oficial da missão nesta quinta-feira (23), os avaliadores irão elaborar um relatório com as observações realizadas durante a visita. O documento será encaminhado à Unesco, responsável pela análise da manutenção dos títulos de Geoparques Mundiais dos territórios de Caçapava do Sul e Quarta Colônia. 

Texto: Giovanna Felkl, estudante de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias

Fotos: Sofhia Krening,estudante de Produção Editorial e bolsista da Agência de Notícias 

Edição: Maurício Dias, jornalista

 

 

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