
Entre os dias 21 e 23 de julho, o Centro de Artes e Letras (CAL) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) recebeu a primeira edição do Festival Internacional de Inverno Jovem (FIIUFSM Jovem). Voltado a crianças e adolescentes estudantes de música, o evento proporcionou uma imersão em oficinas práticas e atividades pedagógicas inspiradas na experiência do tradicional Festival Internacional de Inverno da UFSM, aproximando os participantes do ambiente universitário e da formação musical oferecida pela instituição.
A ideia do festival começou a ser construída no fim de 2025, quando o professor do Departamento de Música e coordenador geral do evento, Diogo Baggio, assumiu a coordenação do Festival Internacional de Inverno da UFSM. Inspirado pela experiência à frente da Orquestra Viva, projeto de extensão voltado à formação musical infantojuvenil, ele propôs à comissão organizadora a criação de um evento destinado aos jovens músicos. “Nós queríamos criar um evento pensando nesse grupo de alunos do projeto, mas não exclusivo para eles, e sim inclusivo, aberto para as escolas e para outros instrumentos”, explica o coordenador.
Segundo Baggio, a proposta é despertar desde cedo o interesse dos participantes pela música e pela universidade. “Essa gurizada que está aqui com 14 ou 15 anos, daqui a cinco anos terá 19 ou 20. Eles podem ser os participantes do Festival de Inverno de 2030 ou podem ser nossos alunos da UFSM. A ideia é criar essa sementinha, esse gosto pela música e pela universidade.”
Embora a iniciativa tenha surgido a partir da proposta do professor, a organização contou com o trabalho coletivo de docentes, estudantes e egressos do curso de Música. A programação, inicialmente planejada para ser menor, foi ampliada e mantida integralmente mesmo após mudanças no planejamento inicial, reunindo professores da UFSM, ex-alunos e monitores em uma ação colaborativa.
Formação musical para além da técnica

Durante os três dias de festival, crianças e adolescentes participaram de aulas individuais e coletivas de violino, viola, violoncelo, contrabaixo, piano, bateria, percussão, fagote, oboé, flauta e violão, além da oficina de instrumentos de sopro e percussão para bandas sinfônicas.
A programação também incluiu atividades abertas ao público que ampliaram a formação musical para além da prática instrumental, como o Laboratório de Acordes, baseado em jogos desenvolvidos na UFSM que aproximam música, matemática e design; oficinas de Introdução à Composição Musical e Tecnologia Musical; a oficina de Autorregulação da Aprendizagem; e atividades de Alongamento, Postura e Expressão Corporal, voltadas ao cuidado com o corpo durante a prática musical. Outro destaque foi a Residência de Artistas, que promoveu a integração entre estudantes dos cursos de Música e Artes Visuais em processos criativos abertos à comunidade.
Ao longo da programação, os participantes também acompanharam recitais e apresentações musicais. Os Recitais de Abertura e Encerramento dos Professores apresentaram ao público o trabalho dos docentes convidados. Já o Recital dos Estudantes, realizado no último dia de oficinas, levou ao palco os próprios alunos, que mostraram parte do repertório e dos conhecimentos desenvolvidos durante as atividades, encerrando a primeira edição do festival com apresentações de cada turma.
Para o professor de percussão Gilmar Goulart, docente do curso de Música da UFSM, iniciativas como essa cumprem um papel importante na democratização do acesso ao ensino de música. “A educação musical infelizmente ainda não está sacramentada nas escolas como seria o ideal. Então essa oportunidade de estar três dias dentro da universidade, convivendo com professores e outros estudantes, conhecendo os espaços e vivenciando a música é muito importante”, afirma. Segundo o docente, o festival também aproxima crianças e adolescentes da realidade universitária. “É um momento em que a universidade está de portas abertas. Eles conhecem os espaços, conversam com professores e podem imaginar que esse também pode ser o lugar deles no futuro.”
A professora de flauta Marina Montero também destaca o caráter formativo da iniciativa. Ela lembra que participou do Festival Internacional de Inverno como estudante e, agora, retorna como professora na primeira edição do Festival Jovem. “Essa nova edição voltada aos jovens é muito importante para que eles se preparem para, futuramente, participar de festivais de maior magnitude e seguir construindo sua trajetória musical”, ressalta.
A docente conta que um dos momentos mais marcantes para ela foi quando uma das crianças de Santa Rosa (RS), participante de sua oficina, revelou estar muito ansiosa para ter aula com ela. Para Marina, o entusiasmo dos estudantes evidencia o impacto da experiência proporcionada pelo festival. “É muito legal quando a gente traz um material, propõe uma atividade e vê que os alunos engajam muito. Eles ouvem e a gente sabe que vão levar esses aprendizados para a vida musical deles. Em algum momento, vão utilizar tudo isso.”
Experiência que transforma
Entre os participantes estavam as irmãs Carla e Cristina Martinez, integrantes da Orquestra de Santa Rosa. Para elas, a oportunidade representou muito mais do que aprender novos conteúdos. “Quem não veio perdeu uma ótima oportunidade de aprender com professores muito bons. Agora nós vamos estar em um nível avançado porque o que a gente aprendeu aqui os nossos colegas que não vieram não sabem”, comenta Carla.
Estudante de flauta, ela conta que um dos principais aprendizados foi repensar sua própria técnica. “Eu tive que desestruturar muito do que eu achava que estava bom, para construir algo muito melhor.”
Já Cristina, aluna de percussão, destaca o contato com instrumentos que nunca havia experimentado. “Eu toquei marimba pela primeira vez. Além de aprender a tocar, o professor contava a história dos instrumentos, como eles surgiram e como evoluíram. Foi uma experiência muito legal que eu nunca tive antes.”
O entusiasmo foi tanto que as duas afirmam que pretendem voltar nas próximas edições. “Se tiver mais 40 festivais, eu participo dos 40″, brinca Carla.
Perspectivas para o futuro
A primeira edição do FIIUFSM Jovem reuniu 55 participantes inscritos, além do público presente nos recitais, e marcou o início de um projeto que pretende se consolidar nos próximos anos. Para Baggio, o objetivo é ampliar cada vez mais o alcance da iniciativa e fortalecer o vínculo entre a universidade e a comunidade. “O objetivo é crescer e fazer com que os jovens entendam que isso não é uma coisa elitista. A música exige estudo, dedicação e interesse, mas é para todos.”
Encerrada a programação do 1º FIIUFSM Jovem, a Universidade dá continuidade ao 41º Festival Internacional de Inverno da UFSM, que ocorre de 26 de julho a 2 de agosto. A abertura será realizada no domingo (26), às 10h, com concerto da Orquestra Sinfônica de Santa Maria.
Ao longo da semana, o festival oferecerá oficinas de violino, viola, violoncelo, contrabaixo, flauta transversal, oboé, clarinete, fagote, trompa, trompete, trombone, percussão, piano, violão, regência de orquestra e educação musical, além da prática de orquestra sinfônica. A programação artística contará ainda com recitais diários de música solo e de câmara, apresentações da Orquestra Sinfônica do Festival e será encerrada no dia 2 de agosto, com um concerto gratuito no Centro de Convenções da UFSM.
Texto e fotos: Gabriele Mendes, estudante de jornalismo
Edição: Mariana Henriques, jornalista