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UFSM participa de estudo internacional sobre ameaças às terras indígenas na Amazônia

Pesquisa com 66 autores de 57 instituições ao redor do mundo resultou em artigo publicado na Nature Sustainability



Foto colorida horizontal registra uma paisagem de rio e de vegetação da Amazônia. Em primeiro plano, há um pequeno curso de rio marrom com vegetação rasteira à sua margem, cercado por árvores mais frondosas. À direita, um pequeno barco de madeira está na margem do rio. Ao fundo, o curso de água se encontra com o rio, onde também é possível observar outros barcos pequenos de madeira e casas simples. O céu está parcialmente nublado, com a luz do sol atravessando as árvores no canto superior esquerdo da imagem.
Vale do Javari na Amazônia é a terra de maior concentração mundial de Povos Indígenas voluntariamente isolados

O artigo “Ameaças Fronteiriças em Espiral na Amazônia Indígena”, publicado em 28 de julho de 2026, na revista Nature Sustainability, teve como um dos autores o estudante de pós-doutorado do Programa de Pós-Graduação em Física da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Alecsander Mergen. 

O pesquisador foi o responsável pelo processamento de imagens via satélite de áreas ao redor da Terra Indígena Vale do Javari, localizada na região oeste do estado do Amazonas. Foram identificados índices de desmatamento a 5, 10, 50, 100 e 200 quilômetros de distância do território mapeado. 

O trabalho ocorreu durante o doutorado sanduíche de Alecsander na University of South Alabama, entre 1° de junho e 31 de dezembro de 2025. A colaboração surgiu a partir de convite do professor Gabriel de Oliveira, lotado na instituição estadunidense e líder da pesquisa. 

A coleta de dados via satélite foi feita e analisada por Alecsander durante o doutorado na UFSM. Em sua tese, foram identificadas as trocas de dióxido de carbono (CO₂) em áreas de criação de gado com vegetação nativa no Pampa, por meio de imagens de satélite, para desenvolver modelos capazes de monitorá-las em todo o bioma. 

No estágio doutoral, o cientista pôde ampliar o conhecimento sobre sensoriamento remoto na área do Javari, na Amazônia. Para criar modelos específicos para a análise do território brasileiro, também foram feitos estudos no Delta do Rio Mobile-Tensaw, na cidade de Mobile, Alabama. Alecsander considera que aquela região se assemelha com o Vale do Javari, por ser banhada por um grande rio e cercada pela vegetação.

O Vale do Javari é a terra de maior concentração mundial de Povos Indígenas voluntariamente isolados. Com 8.544.440 hectares, o vale está localizado entre as fronteiras do Brasil, do Peru e da Colômbia. O território ganhou atenção mundial em 2022 após os assassinatos do jornalista estadunidense Dom Phillips e do indigenista brasileiro Bruno Pereira, que expuseram as ameaças de atividades ilegais na região. 

Gráfico de linhas, em cores, apresenta a evolução do desmatamento no Vale do Javari e em áreas de amortecimento localizadas a diferentes distâncias da região, entre 2008 e 2024. O eixo horizontal indica os anos, enquanto o eixo vertical mostra a área desmatada, em quilômetros quadrados, com valores de 0 a 400 km². A legenda identifica o Vale do Javari e as zonas de 5, 10, 50, 100 e 200 quilômetros. A linha referente à Zona 200 km apresenta os maiores valores ao longo de todo o período, com oscilações e crescimento acentuado a partir de 2018. O desmatamento nessa área atinge o pico em 2022, próximo de 380 km², e diminui em 2023 e 2024. A Zona 100 km também registra aumento expressivo a partir de 2018, chegando a cerca de 180 km² em 2022. As zonas de 50, 10 e 5 km apresentam valores menores, embora também tenham aumento do desmatamento a partir de 2018. O Vale do Javari permanece entre as áreas com menores valores de desmatamento no período.
Desmatamento anual em quilômetros quadrados na Terra Indígena Vale do Javari e zonas de amortecimento

Desmatamento, violência e extração de recursos ilegais

A zona de amortecimento do Vale do Javari, uma faixa de 200 quilômetros ao redor da terra indígena e considerada uma área de proteção, foi analisada via satélite para que fosse possível identificar a situação do desmatamento na região. Os resultados do estudo mostraram que, quanto mais distante da Terra Indígena, maiores são os índices de desmatamento. “Isso mostra o quão importante é preservar essas áreas indígenas e o poder de preservação que elas exercem na área amazônica”, destacou o pesquisador Alecsander Mergen, do PPG em Física. 

O estudo ainda mostra que, desde 2008, a devastação ambiental vem crescendo no Vale do Javari. Entre 2017 e 2022, o desmatamento aumentou de forma exponencial. Em 2022, a perda florestal no entorno foi 187,5 vezes maior do que na própria Terra Indígena. São várias as causas para esse resultado. O pesquisador aponta o fator agrícola na Amazônia como um dos responsáveis. 

Além disso, o narcotráfico, a caça e a pesca ilegais são as principais causas das invasões e ameaças diretas à Terra Indígena. A vulnerabilidade ocorre pela localização fronteiriça do território. Alecsander sugere que, principalmente nas áreas mais remotas, devem ser aumentadas as políticas públicas de fiscalização. 

No Vale do Javari, cinco povos indígenas mantêm contato com a sociedade em redor: os Marubo, Mayoruna, Matis, Kanamari e Kulina. Dois grupos têm contato recente: os Korubo e Tsohóm-Djapá. E, pelo menos, 14 grupos vivem em isolamento voluntário.

Ciência de alta qualidade

Antes de voltar ao Brasil, o cientista participou da Reunião Anual de 2025 da American Geophysical Union (AGU) em Nova Orleans, Louisiana. O encontro é considerado o maior do mundo na área de biogeociências. “A UFSM tem esse know-how muito grande de conseguir contatos e de ter esse poder científico. Todo mundo conhece a Universidade de Santa Maria, então isso abre muito as portas”, relatou. 

Além de estudar as ameaças fronteiriças na Amazônia a partir de dados via satélite, o trabalho de Alecsander na University of South Alabama resultou na instalação de torres de fluxo para monitorar a emissão de gases decorrente do efeito estufa. Após a experiência, surgiu a oportunidade de uma parceria com o Instituto Mamirauá para a implantação de uma torre de fluxo em uma área de preservação ambiental na Amazônia. 

O líder da pesquisa, o professor Gabriel de Oliveira, ainda o chamou para seguir com o pós-doutorado nos Estados Unidos. No entanto, com já havia recebido o convite do Laboratório de Gases de Efeito Estufa (LABGEE), Alecsander decidiu permanecer na UFSM. O pesquisador avalia a relevância da experiência no exterior para a busca de conhecimento, mas, observa, a importância de contrtibuir com a evoluição a pesquisa brasileira e mostrar para o mundo a ciência de alta qualidade feita no país. 

A professora do PPG em Física da UFSM, Débora Roberti, ressalta que, quando os estudantes retornam à UFSM, trazem conhecimento para os grupos de pesquisa e contribuem para a formação de outros colegas. “O benefício dos alunos saírem para esse período no exterior não fica restrito a eles. Eles também trazem esse retorno científico e institucional para a Universidade”, avalia. A professora lembra, ainda, que PPG participa do Capes Global, iniciativa que fomenta redes de cooperação internacional entre instituições brasileiras de ensino superior com diferentes graus de internacionalização. 

O artigo “Ameaças Fronteiriças em Espiral na Amazônia Indígena” pode ser acessado na revista Nature Sustainability.

Texto: Nicolle Seixas, estudante de Jornalismo e voluntária da Agência de Notícias.

FotoAcervo pessoal / Gabriel de Oliveira / Erin Koster

Gráfico: Alecsander Mergen / Gabriel de Oliveira / Erin Koster

Edição: Maurício Dias, jornalista

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