
“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. O tradicional verso da música “Comida”, lançada pela banda Titãs em 1987, traduz a ideia de que o acesso à cultura e à liberdade também é uma necessidade humana. Santa Maria é conhecida como Cidade Cultura. O título está presente na identidade do município, nos eventos, nos espaços de arte e nas trajetórias de quem produz cultura na cidade. Mas uma parte dessa história também foi construída dentro da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e, principalmente, para além dos limites do campus.
A relação entre a universidade e a produção cultural santa-mariense começou ainda nos primeiros anos da instituição. Em 1963, apenas três anos depois da fundação da UFSM, foi criada a Faculdade de Belas Artes, com a implantação do curso de Música. Desde então, diferentes gerações de estudantes, professores, pesquisadores, artistas e produtores passaram pela universidade e levaram consigo experiências que se espalharam por Santa Maria e pela região. Desde então, a instituição atua como espaço de formação, difusão e fomento do conhecimento artístico e cultural. Hoje, essa presença aparece em diferentes frentes: na formação de profissionais, em projetos de extensão, em espetáculos, festivais, grupos artísticos, espaços culturais, pesquisas e iniciativas de preservação do patrimônio.
Uma amostra dessa trajetória apareceu na 3ª edição do Prêmio Evandro Behr, considerado o “Oscar da cultura” no município, que agraciou, no dia 3 de setembro, docentes em atividade e aposentados, estudantes, egressos de cursos de graduação e pós-graduação e profissionais cuja trajetória cultural foi constituída ou fortalecida na universidade. Os reconhecimentos materializam a contribuição da UFSM para a formação artístico-cultural por meio de projetos de extensão, espaços de mostras, espetáculos, festivais e pesquisas.
Para além do arco

Entre os 50 homenageados, a coordenadora de Cultura e Arte e professora do Centro de Artes e Letras (CAL) da UFSM, Raquel Guerra, foi agraciada na categoria Formação e Difusão Teatral. Com mais de 20 anos dedicados à circulação de espetáculos em escolas e comunidades, a docente esteve, nos últimos quatro anos, à frente do processo de reabertura do Teatro Caixa Preta, espaço que permaneceu fechado por mais de três anos na universidade.
A experiência ajuda a explicar uma característica da produção cultural universitária: a universidade pode ser ponto de partida, mas a atividade artística não precisa terminar dentro dela. Para a professora, a UFSM é um polo cultural. Quando o estudante vai para a comunidade, também aprende outras formas de prática e organização social. O teatro e a arte, segundo ela, permitem abordar temas fundamentais, como o combate ao racismo e ao feminicídio. “Eu acho que a arte tem um poder muito grande de transformação social, de mobilização da formação humana. Eu acho que a arte sensibiliza a gente para princípios e olhares que são de cuidado com o outro, de sensibilizar para a vida”, ressalta.
A ideia de ultrapassar os limites físicos da universidade também aparece na atuação do Centro de Artes e Letras (CAL). Para o diretor do Centro, professor Gil Negreiros, não basta que a produção permaneça dentro do campus. “Não existe outro caminho senão nós sairmos da Roraima, no caso, sairmos do arco, atravessarmos o arco e irmos para todas as áreas da sociedade de Santa Maria, da região, do Brasil, e mostrarmos como nós podemos ser úteis”, afirma. A extensão é, para ele, uma das maneiras encontradas pela universidade para estabelecer essa relação com a sociedade.
Uma universidade que também é espaço de convivência
A cultura produzida na UFSM não se resume aos cursos e aos espaços formalmente destinados às artes. Em alguns casos, ela nasce da própria convivência entre estudantes. É o caso do DTG Noel Guarany, outro destaque da premiação, reconhecido na categoria Tradição e Folclore. Fundado em 2005 por estudantes que buscavam um espaço de convivência dentro do campus, o grupo é, simultaneamente, um projeto de extensão da UFSM e uma entidade tradicionalista vinculada ao Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG).
O patrão do DTG, João Vítor Jacobi, acredita que, entre os fatores determinantes para o recebimento do prêmio, estão a pluralidade e a multidisciplinaridade da iniciativa. Além disso, o grupo é formado por jovens e feito para jovens, com o objetivo de levar o tradicionalismo a diferentes lugares do Brasil.
Luiza Berger, integrante do DTG, também foi agraciada na condição de 1ª Prenda do Rio Grande do Sul. Segundo Luiza, além de ser um expoente cultural santa-mariense, o projeto atua diretamente no combate à evasão acadêmica. “O ex-reitor Luciano Schuch costumava dizer que o DTG é uma ferramenta importantíssima de permanência estudantil. As pessoas criam vínculos e, mesmo quando enfrentam dificuldades, não desistem do curso. Elas se formam porque encontram aqui um acolhimento”, pontua.
O papel público da universidade

O Centro de Artes e Letras (CAL) da UFSM é um dos principais espaços de formação de profissionais para o cenário cultural local. Com 1.478 estudantes ativos e 172 projetos de extensão em andamento no segundo semestre de 2026, o CAL é um centro de extensão por natureza, tanto nas artes quanto nas letras, colocando em contato estudantes e diferentes públicos. Gil Negreiros entende que esta atuação é uma forma de devolver à sociedade o investimento feito na instituição.
De acordo com o chefe de Gabinete da Reitoria e pesquisador da área da cultura, Flavi Ferreira Lisboa Filho, o investimento público, nesse sentido, não se restringe apenas à manutenção de cursos, mas viabiliza iniciativas como a Orquestra Sinfônica de Santa Maria, a preservação de bens do Acervo Artístico, o desenvolvimento dos Geoparques e os cursos de pós-graduação em Patrimônio Cultural. Para ele, a universidade pública contribui diretamente para a garantia do acesso à cultura e à arte.
O Prêmio Evandro Behr, segundo Flavi, evidencia a potência cultural da UFSM pela quantidade de homenageados vinculados à instituição. Essa presença, para ele, também reforça a relação da universidade com a identidade de Santa Maria como “Cidade Cultura”.
Cultura também precisa de investimento
Se a universidade ajuda a formar artistas, criar projetos e ampliar o acesso à cultura, existe também uma questão que acompanha quem trabalha no setor: como garantir que essas iniciativas tenham continuidade? Apesar da importância dos profissionais para o mercado cultural santa-mariense, existem limitações para a atuação no setor. A professora Raquel observa que o campo sobrevive de iniciativas sazonais, como a Feira do Livro, ou de atividades de caráter privado, com a comercialização de ingressos.
Nesse contexto, políticas públicas de financiamento tornam-se importantes para a manutenção das produções artísticas.Programas como a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), do Governo Federal, contribuem para a manutenção das produções artísticas.
Na UFSM, parte dos incentivos à cultura ocorre por meio de editais de bolsas e auxílios. Na elaboração do novo Plano de Desenvolvimento Institucional (2028-2035), a política cultural vem sendo discutida como um dos eixos estruturantes da universidade, segundo Raquel.
O professor Gil retoma a letra da música dos Titãs e reconhece que a população busca emprego, saúde e educação de qualidade, mas também precisa de arte. Ele ressalta que não basta garantir apenas alguns direitos e serviços: é necessário investimento público e a valorização da universidade pública como espaço de diálogo, formação e acesso. “A gente precisa ter esse papo aqui que a gente está tendo, a gente precisa conversar, a gente precisa mostrar que a universidade é um local para todo mundo”, afirma.
Texto: Nicolle Seixas, estudante de Jornalismo e voluntária da Agência de Notícias.
Fotos: Acervo pessoal / Raquel Guerra e João Vítor Jacobi.
Edição: Mariana Henriques, jornalista
Artes Visuais e Artes Plásticas
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Ana Norogrando — Escultura e expressão artística
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Djalmira de F. Rosa — Artes plásticas
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Gilson Santini Procati — Artes visuais – fotografia
Tradição e Folclore
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CTG Victório Mário — Patrono João V. Oliveira
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DTG Noel Guarany — Patrono João Jacobi
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Luiz Eduardo da Silva Lima — Poesia
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Luiza B. Von Ende — 1ª Prenda RS – Destaque Cultural RS
Literatura
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Carla Mano — Personalidade nas Letras
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Academia Santa-Mariense de Letras Pres. Onilse Noal Pozzobon — Mérito Literário Concurso Ignes Sofia
Cinema
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Neli Mombelli — Documentarista
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Bi Naluna — Atriz e diretora
Dança
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Gisela Biancalana — Docência e formação artística
Dança – Destaque Evento
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Paulo Xavier — Santa Maria em Dança
Teatro
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Raquel Guerra — Formação e difusão teatral
Arte Circense
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Natalia Dolwitsch
Cultura Popular
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Sérgio Marques — Valorização da cultura popular
Cultura Religiosa
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Padre Vitor Hugo Possetti
Cultura da Beleza
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Lucimar Casagrande
Moda
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Ruby Sarat — Alta costura
Música
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Diogo Matos — Produção musical
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Julian Ramos — Regência – Orquestra Jovem Recanto Maestro
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Bruno Seligman de Menezes — Criação poética regional
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Nenito Sarturi — Composição e interpretação musical
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Banda Boca Roxa — Música e protagonismo feminino
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João Batista Sartor (Tita Sartor) — Criação e difusão da música orquestral
Preservação da Memória
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Clara Maria Scherer Kurtz
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Amanda Eloina Scherer
Incentivadores Culturais
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Danier Avello — Gestão pública e incentivador cultural
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Instituto de Radiologia São Lucas – Dr. Carlos A. Funck Biazus
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Construtora Jobim – Gustavo Jobim
Personalidade Cultural
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Vera Lucia Portinho Vianna
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Adão José Fighera
Empreendedorismo Cultural
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Simone Cambraia Machado Haygert — Instituto Moetê
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Nathalia Ruviaro e Ademir Nunes — Morphine Produções
Comunicação Cultural
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Maria Cult – Deivid Pazzato
Inclusão Cultural
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CEFASOL – Ir. Carmem Andreia Angst
Gestão Pública
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Jaqueline M. S. Milanesi — Pref. S. João do Polêsine — Patrimônio, memória e identidade
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Jucemara Rossato — Pref. Nova Palma — Patrimônio, memória e identidade
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Sérgio Roberto Cechin — Presidente da CVSM — Valorização da cultura popular
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Rodrigo Décimo — Pref. Santa Maria — Valorização da cultura popular
Mérito Cultural e Desenvolvimento Humano
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Martha Bohrer Adaime — Reitora UFSM
Grande Destaque Cultural
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Ceura Fernandes da Silveira