Dentre
os diversos trabalhos apresentados durante a última Jornada Acadêmica Integrada
(JAI) da UFSM, que aconteceu de
a 23 de outubro, um deles foi o da acadêmica do curso de
Letras Luciane de Lima. O tema abordado por ela foi a representação da mulher
negra na obra O Cortiço, de Aluísio
Azevedo.
O trabalho de Luciane objetivou
demonstrar como a mulher negra, especificamente duas personagens, Bertoleza e
Rita Baiana, são representadas pelo autor. Além disso, foram apresentados
pontos que distinguem as duas personagens. “Enquanto uma ainda era escrava, a
outra era uma negra livre. Por que duas mulheres de mesma raça e mesma classe
social são tratadas de modos tão distintos? O que diferencia Rita de
Bertoleza?”, questiona Luciane.
Outro ponto relevante no trabalho da
estudante é a questão do racismo na obra. “Mesmo tendo sido escrito dois anos
após a criação da Lei Áurea, O Cortiço
apresenta, ainda, o negro como escravo, o que é o caso de Bertoleza, que pensa
ser livre, mas continua sendo escrava; e Rita Baiana, que mesmo sendo uma negra
livre é tratada de forma pejorativa e vista como inferior em relação a seus
companheiros de moradia.”
Luciane
diz que escolheu esse tema porque sempre se interessou pelas obras de Aluísio
Azevedo e principalmente porque sempre lhe chamou atenção o modo como Rita e
Bertoleza eram tratadas. “A visão que se tem sobre a mulher naquela época
motiva muita gente a se perguntar ‘O que mudou de lá para cá?’. A meu ver mudou
muito pouco, pois se tivesse mudado mesmo não haveria tanto machismo e tanto
preconceito em pleno século
afirma a pesquisadora.
Esse trabalho começou a ser
desenvolvido a partir da disciplina Relações Étnico-Raciais e Educação,
ministrada pela professora Carmen Deleacil Ribeiro Gavioli. A estudante conta
que, durante as aulas, a professora apresentou vários artigos, trabalhos,
filmes e vídeos, mostrando a visão que o mundo tinha e ainda tem sobre o negro.
No final da disciplina, os alunos teriam de elaborar um trabalho sobre algum
dos temas sugeridos.
Foi depois de ver o filme Doze Anos de Escravidão que Luciane se
interessou pela representação da mulher negra na sociedade
semestre, a sua professora e orientadora Rosani Umbach, em uma conversa no
grupo de pesquisa Literatura e Autoritarismo, sugeriu à estudante que começasse
a escrever algo. Foi assim que a autora do trabalho começou a pesquisar sobre
racismo. Luciane questiona: “afinal, por que as pessoas agridem, ofendem,
maltratam os negros se eles são seres humanos como todos nós?”.
Na
busca por uma obra literária que abordasse o racismo, a aluna tinha dois
autores em mente: Machado de Assis e Aluísio Azevedo. E foi Azevedo que a
encantou mais. Foi assim que ela criou dois trabalhos sobre um mesmo autor. Um
deles foi para a disciplina mencionada, consistindo em um comparativo entre as
mulheres negras do século 20 e as do século 21. O outro trabalho foi o artigo
que resultou no pôster exibido na JAI.
Sobre
a construção do trabalho, Luciane disse que foi um processo tranquilo, porém às
vezes assustador. “Muitas vezes eu me coloquei no lugar da Bertoleza e da Rita,
e ficava me perguntado: o que eu faria nesta situação? Seria eu mais Rita ou mais
Bertoleza?” Orientada pelas professoras Carmen e Rosani, nesse trabalho a
autora contou ainda com auxílio de duas colegas de grupo de pesquisa: Priscila
Strenzel, que a ajudou na busca por expressões que demonstrassem
especificamente como as personagens eram tratadas, e a pós-doutoranda e revisora Mara Lúcia Barbosa
da Silva.
Luciane conta que o seu próximo
trabalho vai ser sobre a violência contra a mulher
Cortiço. Ao ler esta obra, ela percebe que não há só
racismo, há discriminação social, preconceito linguístico, agressão contra a
mulher, etc. Nesse próximo trabalho, a acadêmica quer mostrar como outras
mulheres da obra são violentadas física e psicologicamente.
Para a professora Rosani, é
essencial que alunas como Luciane abordem temas femininos e raciais nos
trabalhos acadêmicos para a construção de uma sociedade mais consciente com
relação aos preconceitos que indivíduos vêm sofrendo desde tempos imemoriais,
apenas por pertencerem a determinado gênero ou grupo étnico.
Luciane diz que a importância de
abordar temas como esse é poder mostrar como a mulher negra era tratada naquela
época, classificadas por critérios tão fúteis como a pureza do sangue, no caso
Bertoleza, ou o sangue misturado com europeus, com relação a Rita, o que
agregava mais valor à pessoa. “Eu só queria mostrar como o passado condena o
presente, já que ainda hoje há tanta discriminação, tanta maldade. E ao final
deste trabalho há uma pergunta que ainda fica sem respostas: quantas Bertolezas
precisarão morrer para todas serem tratadas com respeito e dignidade?”
Texto: Sabrina Cáceres, acadêmica
de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
