
Dois anos após as enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, o debate sobre eventos climáticos extremos voltou ao centro das discussões pela expectativa de um novo El Niño. A partir de hoje, e nas próximas três semanas, a Agência de Notícias da UFSM apresenta uma série especial de reportagens sobre o fenômeno El Niño e suas perspectivas para os próximos meses, em especial para o Rio Grande do Sul. Nesta primeira reportagem, apresentamos as perspectivas pelo olhar da Meteorologia. Nas próximas semanas, abordaremos os impactos no campo, nas cidades, na infraestrutura logística e a ciência produzida pela UFSM a partir das enchentes, com foco em como devemos nos preparar.
Resiliência climática em pauta
No último dia 6 de maio, representantes do curso de Meteorologia da Universidade Federal de Santa Maria se reuniram em um encontro do “Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática” do “Plano Rio Grande”, realizado no Centro Administrativo Fernando Ferrari (CAFF), em Porto Alegre.
A atividade integrou a Semana Estadual de Prevenção aos Desastres Socioambientais, promovida em alusão aos dois anos das enchentes de 2024, e foi dividida em dois painéis temáticos: “Tempestades severas e seus impactos” e “Avaliação de danos, treinamentos e mitigação”. O encontro reuniu pesquisadores, especialistas e gestores públicos para discutir os desafios climáticos enfrentados pelo Estado e as perspectivas para os próximos meses.
Entre os participantes esteve o meteorologista e professor da UFSM, Vagner Anabor, integrante do comitê científico. Pesquisador da área de eventos extremos, Anabor atuou como mediador do evento e destacou que a principal motivação da atividade foi ampliar o debate sobre eventos meteorológicos severos entre os gestores públicos.
Segundo o professor, ainda existe a percepção equivocada de que fenômenos extremos são raros ou recentes. No entanto, ele ressalta que tempestades severas fazem parte da dinâmica climática da região Sul do Brasil, especialmente no território gaúcho, e que compreender esse cenário é essencial para fortalecer estratégias de prevenção e adaptação.
Após o encontro, foi divulgada uma nota técnica elaborada por 14 especialistas ligados ao Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática, reunindo análises e projeções sobre o comportamento climático no Rio Grande do Sul nos próximos meses. Entre os autores, estão os meteorologistas da UFSM Vagner Anabor e Murilo Machado Lopes, além da professora do Departamento de Física da universidade, Nathalie Tissot Boiaski, que contribuíram para a construção das avaliações sobre eventos extremos e seus possíveis impactos no estado.
Entenda o fenômeno El Niño

Apesar de ter ganhado maior visibilidade nos últimos anos, o El Niño não é um fenômeno recente. A partir da década de 1980, pesquisadores da climatologia, área responsável pelo estudo dos fenômenos climáticos, passaram a investigar com mais profundidade os impactos do evento e as regiões do mundo onde ele ocorre com maior frequência, entre elas, o Rio Grande do Sul.
De forma breve, o meteorologista e professor da UFSM, Vagner Anabor, explica que o El Niño é “um fenômeno marcado pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico na região equatorial”. Segundo o pesquisador, esse aquecimento provoca alterações na circulação atmosférica, modificando a distribuição de calor e umidade em diferentes regiões do planeta. Normalmente, ocorre a cada dois a sete anos e dura de nove a 12 meses.
No Brasil, os efeitos podem ser percebidos de formas distintas entre as regiões do país. Conforme Anabor, a região Sul tende a ficar mais suscetível a episódios de chuva intensa e temporais. Enquanto isso, áreas do Norte e Nordeste costumam registrar períodos mais secos durante a atuação do fenômeno. O professor também destaca que esses impactos podem variar de intensidade. Isso depende da força com que o El Niño se manifesta em cada período.
As enchentes de 2024 ocorreram em um período em que o El Niño já apresentava sinais de enfraquecimento. Por isso, segundo os especialistas, a tragédia não pode ser atribuída exclusivamente ao fenômeno climático, mas sim à combinação de diferentes fatores atmosféricos que contribuíram para a intensificação das chuvas no Rio Grande do Sul.
Em pesquisa desenvolvida em conjunto com pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Meteorologia da UFSM, o professor Anabor explica que um dos fatores esteve ligado a eventos ocorridos do outro lado do oceano. “A ocorrência de grandes tempestades na costa da África produziu perturbações que se propagaram até a América do Sul e modificaram as condições de tempo na região”, afirma.
De acordo com o pesquisador, essas perturbações atmosféricas acabaram bloqueando o fluxo de ar, favorecendo a permanência das tempestades sobre o Estado por um período mais prolongado, o que aumentou o volume de chuva e agravou os impactos da catástrofe climática.
A vulnerabilidade climática do Rio Grande do Sul
A localização geográfica do Rio Grande do Sul também contribui para que o Estado seja mais vulnerável à ocorrência de eventos climáticos extremos. Segundo Murilo Lopes, doutor em Meteorologia pela Universidade Federal de Santa Maria, a região recebe diferentes massas de ar ao longo do ano, especialmente durante as estações de transição, como outono e primavera. Além disso, a umidade vinda da região Amazônica, transportada por correntes de vento, favorece a formação de tempestades e episódios de chuva intensa no Estado.
Murilo explica que a localização geográfica do Sul do Brasil favorece a formação de tempestades severas. “Estamos em uma faixa de latitude do globo que favorece a aproximação tanto de massas de ar mais aquecidas, que vêm da região equatorial, quanto de massas de ar mais frias, que vêm da região polar”, explica. O encontro dessas diferentes massas de ar contribuem para alterações na velocidade dos ventos em diferentes níveis da atmosfera. Esse cenário favorece a formação de tempestades mais intensas e duradouras, capazes de atingir áreas mais amplas e provocar fenômenos como granizo de grande porte, vendavais e até tornados.
Entre os fatores atmosféricos que resultaram nas enchentes de 2024, Murilo destaca o grande volume de umidade transportado da Amazônia e do Oceano Atlântico, somado a uma condição de bloqueio atmosférico que impediu o deslocamento das tempestades. “Nós tivemos chuvas bastante intensas sobre a mesma região no período de 72 horas”, destaca.
Para realizar previsões e compreender o comportamento das tempestades severas no Rio Grande do Sul, os meteorologistas costumam utilizar paralelos com os sistemas atmosféricos observados nos Estados Unidos. Isso ocorre porque a região sul apresenta condições climáticas semelhantes às registradas em algumas regiões do país norte-americano, especialmente no que diz respeito à formação de fenômenos extremos.
Murilo explica ainda que o chamado “tempo severo” está associado a tempestades caracterizadas por nuvens com intensa atividade elétrica, grande volume de chuva e potencial para provocar inundações repentinas. Entre os fenômenos que fazem parte dessa classificação, ele cita as rajadas de vento superiores a 90 km/h, ou capazes de causar danos significativos, a ocorrência de granizo com mais de dois centímetros de diâmetro e os tornados, considerados mais raros, mas com elevado potencial destrutivo.
O que indicam os modelos climáticos
Através do documento formulado pelos membros do Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do Rio Grande do Sul entre abril e maio de 2026, foi apontada a possibilidade de um novo episódio de El Niño ainda neste ano. No entanto, até o momento, não há evidências de que o fenômeno alcance a mesma intensidade registrada entre 2023 e 2024. Nesse cenário, Murilo reforça que a presença do fenômeno, por si só, não significa a repetição de eventos como os registrados nos últimos anos. “Tudo indica um novo El Niño em 2026, possivelmente forte, mas isso não significa uma nova tragédia. Eventos extremos dependem da combinação de diversos fatores”, afirma.
As previsões mais recentes da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), apontam para uma alta probabilidade de formação de um novo episódio de El Niño entre julho e agosto de 2026. De acordo com os modelos climáticos analisados, a chance de ocorrência do fenômeno está em torno de 80% e, em alguns cenários, pode alcançar 90% ao longo do segundo semestre do ano. Há ainda a possibilidade de o evento se prolongar até o fim de 2026.
A previsão mais recente do Instituto Internacional de Pesquisa sobre Clima e Sociedade (IRI), da Escola do Clima da Universidade Columbia, aponta uma probabilidade de 70% para o desenvolvimento do El Niño entre abril e junho de 2026. Além disso, também indicam que o fenômeno deve permanecer atuando ao longo do restante do ano, com chances elevadas de permanência, variando entre 88% e 94%. Com base no comportamento registrado em episódios anteriores de El Niño, a tendência é de tempestades e episódios de chuva intensa durante a primavera de 2026 e temperaturas mais elevadas no inverno.
Como mostra o gráfico, entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, os cenários avaliados indicam probabilidades semelhantes para diferentes intensidades do fenômeno, com cerca de 25% de chance para episódios classificados como moderados, fortes ou muito fortes. Apesar disso, o documento ressalta que ainda existe um elevado grau de incerteza em relação à intensidade do El Niño, principalmente devido à longa antecedência das projeções. Em seu boletim mais recente, a NOAA também destaca a possibilidade de um episódio moderado a forte nesse período, mas reforça que ainda não é possível definir com segurança qual será a intensidade do fenômeno durante a primavera de 2026.
Para 2027, porém, ainda é cedo para estabelecer previsões mais precisas sobre o comportamento climático. Anabor ressalta ainda que os modelos climáticos trabalham com probabilidades e tendências, não com previsões exatas.
Ainda não é possível ter certeza se os impactos do El Nino 2026-27 serão menores, similares ou maiores do que em 2023-24. Mas sabe-se, certamente, que ocorrerá algum tipo de impacto para a população e atividades no Estado do Rio Grande do Sul. Segundo os professores, o momento exige atenção qualificada, e não medo. O acompanhamento das previsões sazonais e dos alertas meteorológicos serão fundamentais nos próximos meses.
Ações de prevenção

Eventos extremos não são sinônimos de desastres naturais, mas fenômenos meteorológicos que podem desencadear situações de desastre, dependendo da intensidade e dos impactos causados sobre a população e o território. Nesse contexto, a ocorrência do El Niño não significa, necessariamente, a previsão de uma catástrofe específica, mas indica uma maior probabilidade de episódios de chuva extrema no Sul do Brasil.
Entre os impactos mais comuns associados ao fenômeno estão inundações, enxurradas, movimentos de massa, alagamentos urbanos, danos à infraestrutura e perdas agrícolas, especialmente em culturas como soja, milho e arroz.
O documento também destaca a importância da preparação prévia dos órgãos públicos, da Defesa Civil e dos setores produtivos diante da possibilidade de consolidação do fenômeno climático. Entre as medidas apontadas estão a revisão de planos de contingência e o fortalecimento da infraestrutura voltada à manutenção de serviços essenciais para a população, especialmente em cenários de eventos hidrometeorológicos extremos.
Além das ações operacionais, o relatório ressalta a necessidade de ampliar a comunicação com a população de forma clara e acessível. A proposta é que a sociedade tenha maior conhecimento sobre os planos de contingência, os riscos associados aos eventos extremos e os procedimentos recomendados em situações de emergência, contribuindo para a redução de danos e para o fortalecimento da capacidade de resposta coletiva.
Em áreas mais vulneráveis, essas condições podem favorecer ocorrências de alagamentos, inundações, enxurradas e movimentos de massa, além de outros impactos associados a fenômenos geo-hidro-meteorológicos, que envolvem a movimentação de terra (geológicos), a dinâmica da água (hidrológicos) e eventos climáticos intensos (meteorológicos). Apesar disso, o documento destaca que ainda é cedo para prever o comportamento das chuvas no verão e no outono de 2027.
A ciência da UFSM no monitoramento climático

Para garantir previsões meteorológicas mais precisas e detalhadas, são necessários investimentos em equipamentos e estruturas capazes de monitorar continuamente a atmosfera. Entre os recursos utilizados nesse acompanhamento estão satélites meteorológicos calibrados e os chamados supercomputadores, responsáveis pelo processamento de modelos atmosféricos em alta resolução. Esses requisitos seguem protocolos estabelecidos pela World Meteorological Organization (WMO) e são fundamentais para ampliar a capacidade de previsão e monitoramento de eventos extremos.
O trabalho do meteorologista responsável por estudar e divulgar as condições climáticas envolve uma combinação de formação especializada, pesquisa científica e tecnologia de alta complexidade. Segundo o professor Vagner Anabor, “para a gente ter essas previsões com altíssima qualidade e resolução, é preciso ter redes de observação de excelência e com alta distribuição espacial”.
Anabor destaca ainda que o avanço tecnológico transformou a capacidade de observação atmosférica e fortaleceu a qualidade das previsões meteorológicas. “Com a chegada dos satélites, tivemos um aumento nas observações e, hoje, contamos também com radares meteorológicos, como os da UFSM e outros distribuídos pelo Estado. Essas ferramentas permitem ao meteorologista treinado fazer excelentes previsões do tempo”, afirma.
Nesse contexto, a ciência produzida dentro da Universidade Federal de Santa Maria, por meio das pesquisas em Meteorologia, também cumpre um papel fundamental ao aproximar o conhecimento científico da população em temas que impactam diretamente a cidade, a agricultura e a rotina dos gaúchos.
Acesse a nota técnica completa elaborada pelo Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática
Texto: Giovanna Felkl, estudante de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Artes infográficas: Daniel Michelon De Carli
Fotos: Banco de Imagens da Agência de Notícias UFSM e registros de Murilo Lopes
Edição: João Ricardo Gazzaneo, jornalista