Como as atividades econômicas e as transformações ambientais influenciam a ocorrência de doenças na Amazônia? Essa foi a pergunta que guiou um estudo internacional com participação da pesquisadora Camila de Moura Vogt, docente do Programa de Pós-Graduação em Gestão de Organizações Públicas (PPGOP) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Publicado na revista Nature Communications Earth & Environment, o artigo analisou dados de todos os municípios da Amazônia Legal e identificou que diferentes formas de uso da terra, associadas a fatores sociais e econômicos, estão relacionadas a padrões distintos de ocorrência de doenças transmitidas por vetores, como malária, dengue, leishmaniose e doença de Chagas.
O trabalho é resultado de uma colaboração construída ao longo de mais de uma década no âmbito do Projeto SInBIOse Trajetórias, coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que reúne pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, como economia, epidemiologia, ecologia, biologia, saúde pública, sensoriamento remoto e ciência da computação. O objetivo é compreender a saúde de forma integrada, considerando também aspectos ambientais, econômicos e sociais.
Segundo Camila, essa abordagem parte do conceito de One Health (Saúde Única), que entende que a saúde humana está diretamente relacionada às condições ambientais e sociais. “A questão da saúde não está relacionada apenas à doença. Ela depende também do contexto econômico, do uso do solo, do desmatamento, da estrutura de saúde e da forma como as pessoas vivem”, explica.
Economia, ambiente e doenças
A pesquisa utilizou informações de 2015 a 2019 para compreender por que determinadas doenças aparecem em conjunto em alguns municípios da Amazônia, enquanto outras predominam em regiões diferentes. Para isso, os pesquisadores analisaram dados ambientais, sociais, econômicos e epidemiológicos de toda a Amazônia Legal.
Os resultados mostraram que existe uma forte correlação entre as atividades econômicas desenvolvidas em cada região e o perfil das doenças registradas. Áreas com menor desmatamento e maior presença de agricultura familiar e sistemas agroflorestais apresentaram maior ocorrência de malária e doença de Chagas. Já regiões mais urbanizadas ou marcadas pela expansão da pecuária e pelo desmatamento concentraram casos de dengue e alguns tipos de leishmaniose.
De acordo com a pesquisadora, o estudo demonstra que as doenças não podem ser compreendidas de forma isolada. “A doença não acontece simplesmente. Existe um ambiente propício para que ela ocorra. Cada modelo econômico modifica o ambiente, altera os habitats dos vetores e a exposição das populações, criando diferentes padrões de doenças”, explica. Além das características ambientais, a pesquisa também encontrou associações entre diferentes formas de pobreza urbana e rural, e também a incidência das doenças, reforçando que fatores sociais podem influenciar na dinâmica epidemiológica da região.
A contribuição da UFSM
Na pesquisa, Camila contribuiu com as análises relacionadas à pobreza multidimensional, tema que desenvolve em suas pesquisas. Segundo ela, indicadores baseados apenas na renda não conseguem representar a realidade de populações que vivem em contextos específicos da Amazônia. “Quando analisamos essas regiões, olhar apenas para a renda não é suficiente. Existem diferenças importantes no acesso à saúde, aos serviços públicos e à infraestrutura. Por isso, trabalhamos com indicadores de pobreza multidimensional, que conseguem representar melhor essas condições”, descreve.
Subsídios para políticas públicas
Embora o estudo identifique correlações e não relações de causa e efeito, os resultados podem contribuir para o planejamento de políticas públicas de saúde e para o fortalecimento da vigilância epidemiológica. Segundo Camila, compreender como as mudanças ambientais alteram os padrões das doenças pode auxiliar gestores públicos na distribuição de recursos, definição de campanhas de prevenção e organização dos serviços de saúde. “Quando muda o padrão das doenças, muitas vezes também está mudando o ambiente. Entender essas dinâmicas permite direcionar melhor as políticas públicas e planejar ações de acordo com a realidade de cada território”, conta.
O grupo de pesquisa continua atualizando as bases de dados e desenvolvendo novos estudos em áreas específicas da Amazônia, buscando compreender como as transformações ambientais influenciam a saúde das populações.
Saúde além das doenças
Para a pesquisadora, a principal contribuição do estudo é reforçar que saúde, meio ambiente e desenvolvimento econômico são temas inseparáveis. “Tudo está interconectado. O meio ambiente interfere na forma como a saúde responde, e isso também está relacionado à pobreza, ao planejamento urbano e ao uso da terra. Quando entendemos esse contexto, conseguimos pensar em políticas públicas mais eficientes”, relata.
Camila também destaca a importância da colaboração entre diferentes áreas do conhecimento e da publicação em uma das revistas científicas mais relevantes do mundo na área ambiental. “É muito gratificante participar de um grupo tão multidisciplinar e representar a UFSM em uma revista de referência internacional. Trabalhar com pesquisadores de diferentes áreas amplia nossa forma de compreender problemas complexos e ajuda a produzir conhecimento com potencial de impacto para a sociedade “, finaliza.
O artigo completo pode ser acessado neste link.
Texto: Isadora Bortolotto, estudante de Jornalismo e voluntária na Agencia de Notícias
Arte: Comunicações Terra e Meio Ambiente (Commun Earth Environ) ISSN 2662-4435 (online)
Edição: Ricardo Bonfanti, jornalista
