“No outono, as folhas caem, mas se transformam em nutrientes para o solo. Pode-se dizer assim a vida de um professor, de uma professora.” Foi com essa reflexão que o professor José Carlos Libâneo iniciou seu discurso ao receber, na noite de quarta-feira (26), o título de Doutor Honoris Causa da UFSM. A cerimônia encerrou o 2º Seminário de Pedagogia da Região Sul, no Centro de Convenções. O evento, ao longo de três dias, reuniu discussões sobre Pedagogia, política, democracia e trabalho pedagógico.
A mesa da cerimônia foi composta pela reitora da UFSM, Martha Adaime; pelo diretor do Centro de Educação (CE), Ascísio dos Reis Pereira; e pela vice-diretora do CE, Elena Maria Mallmann. A homenagem reconhece a contribuição de Libâneo para o pensamento pedagógico brasileiro e para os estudos em didática, formação de professores, escola pública e processos de ensino e aprendizagem.

Com o tema “Pedagogia, política e democracia: desafios para o trabalho pedagógico”, o seminário foi realizado de 24 a 26 de agosto, em uma ação conjunta do CE, da Rede Nacional de Pesquisas em Pedagogia (RePPed) e do Kairós – Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho, Educação e Políticas Públicas. Antes do início da cerimônia, o público acompanhou uma apresentação de Dodô da Gaita, que levou elementos da cultura nativista ao evento.
José Carlos Libâneo é doutor em Filosofia e História da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e realizou estágio de pós-doutorado na Espanha. Foi professor titular da Universidade Federal de Goiás (UFG) e é professor titular da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás). Sua produção acadêmica reúne estudos sobre teorias da educação, teoria histórico-cultural, teoria do ensino para o desenvolvimento humano, didática, formação de professores, políticas públicas para a escola e organização e gestão escolar.
Entre suas principais contribuições está a formulação da pedagogia crítico-social dos conteúdos, desenvolvida na década de 1980 em diálogo com outros pesquisadores. A proposta passou a integrar os debates sobre educação pública e formação de professores no Brasil. Entre suas obras estão “Democratização da Escola Pública – A Pedagogia Crítico-Social dos Conteúdos” e “Didática”, utilizadas na formação docente.
Entrevista
Então, professor, o senhor construiu uma trajetória de décadas dedicadas à educação e ao pensamento pedagógico. O que significa receber hoje o título de Honoris Causa pela UFSM?
José Carlos Libâneo: Eu encaro como um reconhecimento do meu trabalho e eu sou muito agradecido à Universidade Federal de Santa Maria por me conceder esse título que me honra muitíssimo. Eu tenho quase 60 anos de profissão e me formei em Filosofia, mas, logo no começo da minha carreira, eu fui diretor de escola. Então, eu comecei a buscar um conhecimento mais aprofundado da teoria pedagógica ou da teoria da educação. E assim eu fui construindo a minha carreira de professor e de pesquisador. Então, escrevi vários livros sobre o tema da pedagogia e como a pedagogia está muito ligada à formação de professores, porque, em certo sentido, eu entendo que todos os professores são pedagogos, porque a pedagogia, como eu costumo dizer, ela dá uma direção de sentido à prática educativa, dá uma direção de sentido ao que é adequado ensinar, como é que a gente ensina e qual é o sentido do aprender. Então, foi assim que eu fui construindo a minha carreira de professor.
E no início dos anos 80, após o seu retorno à Universidade Federal de Goiás, o senhor viveu um período de debate sobre o caminho da educação e da democratização do ensino. Foi nesse contexto que começou a ser sistematizada as ideias da “pedagogia crítico-social dos conteúdos”. Como aquele momento da história brasileira influenciou a sua forma de pensar a educação?
José Carlos Libâneo: Então, no final dos anos 80, a ditadura começou a perder força. Então, foi possível aos educadores, aos pesquisadores, retomar a pesquisa, a publicação de artigos, a publicação de livros. O ano de 1980 foi um ano bem pontual nesse sentido. O regime militar implantou um modelo de educação que a gente chamava e chama até hoje de uma educação tecnicista, que a gente considerava uma educação inadequada, porque era uma educação muito mecanizada, pois a ideia era uma educação mínima por conta da profissionalização. E nós achávamos que este modelo de educação não era adequado, ele não era uma educação que ajudava a pensar, não era uma educação que promovia o desenvolvimento humano, era mais no sentido de formar capacidades produtivas a serviço do mercado. Então, eu e muitos outros grandes pesquisadores dessa época começamos a retomar a discussão sobre a importância da escola pública, especialmente para os segmentos mais empobrecidos da sociedade.
E foi então que a gente criou uma associação chamada Associação Nacional de Educação, e que o nosso objetivo era precisamente lançar um movimento para a gente consolidar um tipo de educação destinada às camadas mais empobrecidas da população. Foi nesse contexto que eu, de certa forma, inventei, com estudos, uma orientação teórica em educação que se chamou “pedagogia crítica social dos conteúdos”. Que a ideia era de uma pedagogia crítica, onde o conhecimento possa servir, possa ter significado para os estudantes, no sentido de ele ter relevância para a vida, para a vida cotidiana. Uma pedagogia crítica é uma pedagogia crítica no sentido de também ajudar os alunos na criticidade, a formar uma consciência crítica das realidades sociais.
E o senhor tem uma trajetória muito ligada à formação dos professores. Na sua visão, o que um professor precisa construir ao longo da formação para além do domínio do conteúdo que ensina?
José Carlos Libâneo: Eu penso que o primeiro requisito da profissão de professor é, de fato, dominar o conteúdo. Eu não consigo entender um professor de todos os níveis de ensino que não tem o domínio do conteúdo. Então, esse é o primeiro requisito que eu entendo como necessário para o professor.

O segundo requisito é que ele saiba como é que ele vai trabalhar esse conteúdo com os alunos. Que o ensino só tem sentido se ele promove a aprendizagem dos alunos. Então, o segundo requisito, eu diria que são as formas pelas quais o professor ensina, mas de modo que o aluno aprenda.
E o terceiro requisito que eu entendo fundamental para os professores é conhecer o aluno, conhecer as condições do aluno, conhecer qual é a relação que o aluno tem com o conhecimento que ele está trabalhando. É muito importante que o professor saiba como é que ele coloca o conteúdo no campo de interesse dos alunos.
E o quarto requisito para formar professores é que o professor também conheça o que eu chamo de práticas socioculturais em que o aluno vive. Quer dizer, o contexto em que o aluno vive, a família, a sua comunidade, a relação que ele tem com as mídias, com as tecnologias.
Eu falei quatro, mas eu vou incluir mais um, que é que todo professor, toda professora é um educador, então, ele tem que cuidar do desenvolvimento da personalidade dos alunos.
E o senhor falou em tecnologias. Hoje a inteligência artificial já faz parte da rotina de muitos estudantes e professores. Como a educação deve lidar com essas tecnologias sem perder em vista o papel do professor na escola?
José Carlos Libâneo: Muito boa pergunta. Eu sou receptivo às tecnologias. E agora nós temos esta catarata da inteligência artificial e que está provocando um impacto muito grande na educação. O processo de aprendizagem tem que promover o pensamento dos alunos, a reflexividade dos alunos. A inteligência artificial não pode sufocar o desenvolvimento das capacidades intelectuais dos alunos, então, os professores precisam tomar um extremo cuidado para que a inteligência artificial não limite, não trave o desenvolvimento do pensamento dos alunos. De maneira que os alunos, por exemplo, vão fazer uma redação, o professor tem que orientar os alunos até onde ele vai se apropriar do texto da inteligência artificial, de tal maneira que ele não reproduza o texto, mas que os alunos sejam, vou falar “obrigados”, mas acho que talvez a palavra seja essa, os alunos têm que estar “condicionados” a ter uma atividade própria na produção de texto.
E ao receber o título hoje, a sua trajetória passa a ser reconhecida também pela UFSM. Olhando para a sua carreira, qual a contribuição para a educação brasileira o senhor considera mais importante?
José Carlos Libâneo: É uma pergunta difícil de responder, mas eu acho que o meu trabalho ajudou os professores. Eu escrevi um livro de didática, que continua sendo muito utilizado. É um livro de didática que eu escrevi há 45 anos e continua sendo usado. Então, aqui, quando há esses eventos que eu vou fazer palestra, os professores vêm e me dizem: “Professor, eu aprendi didática com o seu livro e prestei concurso e agora tenho um emprego, eu agradeço o senhor”. Então, a minha contribuição foi escrever um livro de didática que segue utilizado em muitas escolas, em boa parte dos cursos de formação, inclusive em dois países africanos de língua portuguesa, Moçambique e Angola. Então, eu acho que essa seria a minha principal contribuição. E a outra é, vamos chamar de uma educação crítica, uma educação transformadora, e ajudar os professores a entender que, com o trabalho deles, eles podem ajudar os alunos a serem mais dignos. Eu gosto de dizer que a função mais importante do professor é cuidar do destino humano dos alunos. Ele cuida do destino humano, formando, ajudando os alunos a desenvolver suas capacidades intelectuais por meio dos conteúdos que ele ensina.
E para encerrar, se pudesse conversar hoje com um jovem que está entrando na universidade para se tornar professor, o que o senhor diria a ele?
José Carlos Libâneo: Eu diria que hoje a condição de professor está muito abalada. O sistema educacional brasileiro, que eu chamo de educação de resultados, porque é um ensino demasiadamente mecânico, é um ensino muito atrelado a apostilas, responder testes. É um modelo de ensino que está trazendo um rebaixamento da qualidade pedagógica da escola e com prejuízos imensos, porque ele não ajuda os alunos a desenvolver o seu pensamento, a sua capacidade reflexiva e desenvolver valores. Então, este modelo de educação afeta muito o trabalho dos professores, porque os professores estão desencantados com a profissão. Quer dizer, é uma profissão que não cativa. Mas, em todo caso, se eu fosse dizer aos professores: “professor, a formação humana, a formação dos alunos para a vida é um projeto extremamente bonito, é um projeto humano, um projeto de humanização, é um projeto de você ajudar as pessoas a serem autônomas, a fazerem juízos de valor sobre as coisas. E isso tudo aprende pela leitura, pelo estudo, pela interpretação de textos. Então, professor, vá fazer uma licenciatura”. É isso que eu diria.
O título “Honoris Causa”
A homenagem na UFSM marca mais um reconhecimento à trajetória de Libâneo, construída ao longo de décadas de pesquisa, ensino e formação de professores. Ao receber o título, o professor passou a integrar a lista de personalidades que tiveram suas contribuições para a educação reconhecidas pela universidade, como a ministra Cármen Lúcia e a professora Selma Garrido Pimenta, que também recebeu o título de Doutora Honoris Causa no primeiro dia do seminário. A entrevista com a professora Selma Garrido Pimenta pode ser acessada em: “Que sejamos girassóis o ano todo”: Selma Garrido Pimenta recebe o título de Doutora Honoris Causa.
Texto: Giovanna Felkl, estudante de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Fotos: Gabriele Mendes, estudante de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Edição: Lucas Casali