O crescimento e modernização das
cidades, a expansão dos meios de comunicação e a obrigatoriedade do ensino são
alguns dos fatores que impulsionam o êxodo rural, sobretudo de mulheres. Assim,
são comuns os casos de homens apegados à terra que permanecem no campo,
restando-lhes a condição de solteiros. Com base nessa situação, o professor
Joel Orlando Bevilaqua Marin, do Departamento de Extensão Rural da UFSM,
desenvolve estudos sobre a masculinização e o processo de envelhecimento da
população, a fim de entender a realidade dos solteirões no campo e buscar alternativas
que melhorem essa condição.
Tendo como inspiração e
fundamentação teórica para suas pesquisas os conceitos de célibat paysan, de Pierre Bourdieu, Marin afirma que até a década
de 60 eram raríssimos no Brasil os casos de homens solteiros no meio rural, já
que todos encontravam casamento na própria comunidade ou em comunidades
vizinhas. As famílias também expandiam as fronteiras agrícolas, em busca de terras.
Porém, da década de 70 em diante, as mulheres deixaram de aceitar facilmente os
papéis de meras donas de casa e a relativa dominação masculina no campo, para
então conquistar o mercado de trabalho nas cidades. Já o homem, normalmente
mais apegado à terra e à autonomia do trabalho rural, opta pela permanência,
dando continuidade ao serviço desenvolvido pelos pais.
O tema da solteirice masculina no
meio agrícola resultou na tese de doutorado de Cassiane da Costa, defendida este
ano no Curso de Doutorado do Programa de Pós-graduação em Extensão Rural da
UFSM. Orientada por Marin, Cassiane levou em conta a situação dos solteirões na
agricultura familiar do município de Alegrete/RS. Tratando da solteirice como
uma construção social, Cassiane conclui que as restritas condições
socioeconômicas de famílias de agricultores favorecem a solteirice em Alegrete.
Entretanto, há valorização positiva da vida rural por esses homens, como citado
na tese: “A representação social dos solteirões em torno do espaço rural remete
a um espaço de vida, um lugar bom para viver, e onde eles querem viver. As
redes de sociabilidade construídas no espaço rural e a vinculação da vida rural
com liberdade são elementos valorizados positivamente por eles. Nesse sentido,
eles demonstram orgulho por serem homens rurais.”
Para entender como vivem esses
homens, qual o drama deles e quais as políticas públicas que poderiam ser
oferecidas para diminuir a solidão no campo, Marin relata a ideia de
desenvolver uma coletânea para 2016. Com o intuito de unir pesquisas dispersas
sobre o tema da solteirice masculina, pesquisadores da UFSM, de São Paulo e,
até mesmo, da França e da Espanha já estão escalados para participar. Marin
afirma que os problemas na masculinidade são um cenário que atinge várias
regiões do Brasil e que não deveria ser visto como individual. Ele cita que
países como Espanha e França desenvolvem alternativas para diminuir a
solteirice e conservar a população no meio rural, entre elas os bailes dos
solteiros. No Brasil, ainda não existe significativa preocupação com essas
políticas públicas, o que pode resultar na desertificação da população rural,
conclui.
Texto: Claudine
Freiberger Friedrich