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Valorização da tradição: Laboratório de Lã da UFSM recebe curso de confecção em lã crua

Iniciativa conecta a preservação de técnicas artesanais, sustentabilidade e geração de renda a partir da lã



Participantes de diferentes gerações compartilham experiências na confecção com lã crua

“É uma arte que está morrendo, e se a gente não der continuidade por meio de iniciativas como essa, isso pode acabar”, aponta a participante da atividade, Maristela Muniz. A declaração reflete a preocupação com a preservação de técnicas artesanais ligadas ao uso da lã, tema central do Curso de Confecção em Lã Crua

Promovida pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), a capacitação, iniciada na última segunda-feira (13) no Laboratório de Lã da UFSM, destaca a qualidade da fibra, suas propriedades e seu potencial sustentável, além de incentivar a agregação de valor ao produto final.

Diante da redução no valor da lã no mercado, que levou muitos produtores a acumularem o produto sem outras alternativas, surgem iniciativas como essa, voltadas ao fortalecimento da cadeia produtiva. “Houve um período em que a lã bruta foi desvalorizada. O objetivo, então, é processá-la e transformá-la em produto para gerar mais retorno econômico e beneficiar quem depende dela”, destaca a zootecnista e coordenadora do Laboratório de Lã, Simone de David Antônio, ao resumir a importância da iniciativa.

O curso acontece no Laboratório de Lã

Laboratório de Lã: tradição e pesquisa há 45 anos

O Laboratório de Lã, vinculado ao Departamento de Zootecnia da Universidade, atua há cerca de 45 anos com atividades relacionadas à fibra animal. Inicialmente voltado à análise da lã, o espaço ampliou sua atuação ao longo do tempo e passou a desenvolver também ações de ensino e extensão sobre o processamento do material, a partir da atuação do professor Cleber Cassol Pires.  

O curso, que ensina a parte da confecção, chegou à Universidade em 2003, com o objetivo de promover a transformação da lã em itens artesanais, como tapeçarias, cobertores e peças de vestuário térmico.

A professora Marcia Duran, natural de Pelotas e formada em Artes Visuais – Licenciatura pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), destaca o caráter geracional dessa prática. “Eu fui instruída pela minha irmã e, quando estava me formando, acompanhava o trabalho dela, que era lindo. Depois, ela me trouxe para dar aulas também”, relata.

Ao longo da semana, Marcia apresentou a diversidade da tecelagem artesanal aos participantes, como técnicas de grampada, teares de prego, tear de pente liço e a feltragem para fazer tecidos autênticos. “A empregabilidade da lã é diversa, desde a forma mais tradicional, que são os xergões, até uma bolsa de grife que hoje está nas passarelas”, destaca a professora. 

A lã também está presente na moda

A lã como recurso natural

A matéria-prima do curso é um recurso natural, biodegradável e reciclável, obtido a partir da tosquia de ovinos, geralmente realizada uma vez ao ano. Além do uso têxtil e no artesanato, a lã também pode ser aplicada na construção civil, como isolante térmico e acústico, e na agricultura, como fertilizante, o que amplia suas possibilidades de uso em diferentes áreas.

A lã possui propriedades térmicas que vão além da associação comum com o frio, contribuindo também para o conforto em diferentes temperaturas. “A lã não é quente, ela é térmica. Os beduínos no Saara usam ela para se protegerem do calor. Existe um conceito errado de que ela serve só para o frio, mas é possível usar uma peça de lã no verão por causa dessa adaptabilidade”, explica a aluna Maristela Muniz.

Para a realização do curso, a lã é extraída na própria UFSM, o que aproxima os participantes das etapas iniciais do processo e reforça o entendimento sobre a origem da matéria-prima. Ao longo das atividades, o contato direto com o material também contribui para uma nova percepção sobre o trabalho artesanal.

A lã é extraída no setor de ovinocultura da UFSM

“Hoje, se sair para a campanha do estado, não se encontra mais ninguém fazendo isso. Eles lavavam na sanga a lã, cardavam, depois teciam as cobertas e os xergões pro cavalo. Isso morreu. O que a gente tem agora são núcleos assim, tentando salvar um pouco da história”, relata Maristela.

Assim, a lã se apresenta como uma matéria-prima versátil, que alia propriedades térmicas, sustentabilidade e potencial de uso em diferentes áreas, mantendo sua relevância tanto na tradição quanto na atualidade. 

O curso é gratuito e costuma ser oferecido entre quatro e seis vezes ao ano, com cobrança apenas dos materiais para os participantes que optarem por ficar com o produto final. Nesta primeira edição de 2026, as atividades têm carga horária de 40 horas e ocorrem entre os dias 13 e 17 de abril, no Laboratório de Lã, localizado no prédio 78, sala 21. Cada turma conta com, no mínimo, 10 alunos.

Mais informações estão disponíveis na página oficial do laboratório no Instagram: @lablaufsm.

Texto: Giovanna Felkl, estudante de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Fotos: Adrieny Rosa, estudante de Produção Editorial e bolsista da Agência de Notícias
Edição: Lucas Casali e Ricardo Bonfanti, jornalistas

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