
O silêncio dura poucos segundos antes do lançamento. Com cuidado, uma estudante segura o planador de isopor acima da cabeça, mira para frente e solta. O pequeno aeromodelo atravessa o pátio da Escola Municipal de Ensino Fundamental Lívia Menna Barreto enquanto os colegas acompanham o voo com os olhos. Alguns torcem enquanto outros tentam entender por que aquele foi mais longe do que o anterior. Em vez de fórmulas no quadro, a aula, agora, acontece no ar.
É dessa forma que estudantes de escolas públicas de Santa Maria estão tendo o primeiro contato com conceitos de aerodinâmica, sustentação e engenharia aeroespacial. Trata-se de uma manhã de aplicação do projeto de extensão “Aeronáutica nas Escolas”, desenvolvido pela Escola Piloto de Engenharia Aeroespacial (EP Aero), vinculada ao curso de Engenharia Aeroespacial da UFSM.
Ciência ao alcance de todos
Coordenador do projeto, o professor Marcos Daniel Awruch afirma que a proposta surgiu justamente para romper essa barreira. “O ensino de física e matemática em escolas públicas, muitas vezes, é excessivamente teórico e carente de metodologias que conectem o conteúdo à realidade”, explica. “Percebemos que temas como a aerodinâmica são raramente explorados de forma prática por falta de equipamentos e materiais didáticos.” A solução encontrada pelo grupo foi usar um tema que desperta curiosidade quase imediata entre crianças e adolescentes: o voo.
O projeto funciona a partir de oficinas realizadas nas escolas por estudantes universitários. A atividade mistura explicações teóricas e construção de planadores de baixo custo, produzidos com materiais simples como papelão, isopor e palitos de churrasco. O valor de cada planador gira em torno de, aproximadamente, R$ 2,52.

A escolha desses materiais, inclusive, não é aleatória. Mais do que ensinar conceitos de engenharia, o grupo quer provar que experiências científicas podem acontecer mesmo em contextos com poucos recursos. “A democratização acontece primeiro pela escolha de escolas públicas”, destaca Awruch. “Queríamos mostrar que é possível fazer ciência e tecnologia com recursos mínimos”.
A atividade segue a metodologia de Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP). Na prática, isso significa trocar o aluno passivo pelo aluno que testa, erra, ajusta e descobre. Ao construir um planador, os estudantes precisam entender por que uma asa influencia o voo, como o peso altera a estabilidade ou o que acontece quando o centro de gravidade muda de posição. Conceitos que normalmente apareceriam apenas em exercícios passam a ser percebidos fisicamente.
Presidente da EP Aero e uma das responsáveis pela criação da iniciativa, a estudante de Engenharia Aeroespacial Carolina Barbara Massinatore conta que as oficinas são divididas em três momentos: primeiro, os universitários apresentam conceitos básicos sobre planadores e princípios de voo; depois, os estudantes participam de um quiz; e, por fim, constroem e lançam os próprios planadores. Mesmo com encontros de cerca de três horas, os resultados surpreenderam a equipe. Segundo Awruch, em uma das aplicações os grupos atingiram média de 14 acertos em 15 questões teóricas.
Ensino básico e superior em construção conjunta
No dia 7 de maio, o projeto chegou à Escola Lívia Menna Barreto. Entre os estudantes, estavam Julia Rorato e Manuela Lesina, ambas do 9º ano. Quando questionadas sobre a atividade, as respostas vieram rápido: “muito legal”. As duas relembravam os conceitos aprendidos durante a oficina enquanto reproduziam com as mãos o movimento dos planadores atravessando o ar. “A gente aprendeu sobre como o planador se mantém no ar sem precisar de um motor”, explicaram.

Não somente os conceitos de física, mas também o contato com os universitários chamou atenção das estudantes. Para Carolina, esse tipo de reação revela um dos principais objetivos do projeto: ampliar horizontes. “Muitas crianças nem sabem que o caminho da universidade existe”, afirma. “Tem aluno que pensa só em terminar a escola e trabalhar. A gente tenta mostrar que existem outras possibilidades.”
O projeto também agrega à própria formação universitária. Além da parte técnica, os extensionistas precisam aprender a transformar conceitos complexos em linguagem acessível para crianças e adolescentes. “A gente estuda sustentação, arrasto, asas e outros conceitos da aeronáutica, mas também precisa traduzir isso para uma linguagem simples”, conta Carolina. “Desenvolvemos comunicação, didática e trabalho em equipe.”
Ao transformar o voo em ferramenta de ensino, o “Aeronáutica nas Escolas” vai além da construção de planadores: aproxima universidade e comunidade, traduz ciência em experiência e mostra, na prática, que física, matemática e engenharia podem ser simples, possíveis e, até mesmo, divertidas. O projeto integra um leque de iniciativas realizadas pela EP Aero e reforça que, quando o conhecimento sai do papel e ganha espaço no ar, ele também pode ampliar perspectivas tanto para quem aprende quanto para quem ensina.
Texto: Camille Moraes, estudante de Jornalismo e voluntária da Agência de Notícias
Fotos: Mathias Ilnicki, estudante de jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Edição: Lucas Casali