
Paleontólogos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) publicaram nesta quarta-feira (28) um novo estudo no periódico científico Scientific Reports apresentando um pequeno crânio fóssil de uma espécie inédita. O fóssil, encontrado no interior do Rio Grande do Sul, revela detalhes inéditos sobre os ecossistemas terrestres que existiam há cerca de 240 milhões de anos, antes da ascensão dos dinossauros.
Durante o Período Triássico (entre 251 e 201 milhões de anos atrás), logo após a maior extinção em massa da história da Terra, a vida passou por um intenso processo de recuperação e diversificação. Foi nesse intervalo que surgiram vários grupos emblemáticos de vertebrados, incluindo os primeiros dinossauros, pterossauros e uma série de répteis hoje completamente extintos. Entre esses grupos estavam os pararépteis, uma linhagem antiga que sobreviveu a grande extinção, mas desapareceu antes do fim do Triássico.
Foi nesse contexto que uma nova descoberta no sul do Brasil trouxe informações inéditas sobre esse enigmático grupo de vertebrados. O estudo, liderado pelo paleontólogo da UFSM Rodrigo Temp Müller, descreveu uma nova espécie de pararéptil, Sauropia macrorhinus, com base em um crânio quase completo medindo apenas 9,5 milímetros de comprimento, menor do que uma unha. Devido ao seu tamanho minúsculo, o exemplar é o menor tetrápode já registrado em depósitos triássicos da América do Sul.

A descoberta e os desafios
O fóssil foi encontrado no município de Novo Cabrais (RS) pelo paleontólogo Lúcio Roberto da Silva, durante uma saída de campo realizada em conjunto com o médico Pedro Lucas Porcela Aurélio. As rochas que preservaram o exemplar pertencem a depósitos com cerca de 240 milhões de anos, uma época em que os ecossistemas eram dominados por ancestrais dos jacarés e crocodilos, e os continentes ainda estavam unidos, formando a Pangeia.
Em virtude do tamanho extremamente reduzido, os paleontólogos precisaram realizar a limpeza do fóssil com agulhas, sob lupas de aumento. Em seguida, o paleontólogo Leonardo Kerber submeteu o material a tomografias computadorizadas, que revelaram detalhes impossíveis de observar a olho nu. Com esses dados em mãos, os pesquisadores reconstruíram modelos tridimensionais do crânio, permitindo uma análise muito mais minuciosa. Assim, foi possível constatar a presença de características únicas, indicando que se tratava de um animal até então desconhecido pela ciência.

Características da nova espécie
Com base no tamanho do crânio, estima-se que o animal tivesse cerca de 5 centímetros de comprimento total. De modo geral, ele se assemelharia a um pequeno lagarto, caminhando sobre quatro patas e com olhos grandes. Entre suas principais características destacam-se as narinas amplas e os dentes grandes, em forma de pino, que provavelmente eram usados para se alimentar de pequenos invertebrados.
Por ser tão diminuto, é possível que o fóssil pertença a um indivíduo que ainda não havia atingido o tamanho máximo. Essa condição inspirou o nome do animal: Sauropia combina o termo grego sauros (“lagarto”) com a palavra regional “piá”, usada no sul do Brasil para se referir a uma criança. Já o nome da espécie, macrorhinus, faz referência às narinas proporcionalmente grandes.
A análise do grau de parentesco de indicou que Sauropia macrorhinus pertence ao grupo de pararépteis conhecido como Procolophonoidea. Esses animais são particularmente raros no registro fóssil do Triássico Médio da América do Sul, com apenas duas espécies descritas até o momento. Em geral, os procolofonóides eram animais pequenos, com menos de 30 centímetros de comprimento, e desapareceram pouco depois do surgimento dos dinossauros. Esse grupo apresentou uma grande diversidade de hábitos alimentares. Algumas espécies tiveram uma dieta baseada em insetos, enquanto outras eram capazes de consumir vegetação mais dura e fibrosa. Essa diversidade alimentar indica que os procolofonóides exploraram diferentes nichos ecológicos nos ecossistemas do Triássico.

Uma nova peça do quebra-cabeça
Reconstruir as teias alimentares de ambientes pretéritos é um desafio para os pesquisadores, uma vez que essa ação depende da descoberta de muitos fósseis. Nos últimos anos, diversos novos achados oriundos da região central do Rio Grande do Sul têm tornado mais clara como era a composição dos ecossistemas de 240 milhões de anos atrás. Contudo, nunca um animal tão pequeno havia sido encontrado em meio aos fósseis de outros organismos muito maiores naqueles sítios fossilíferos.
Assim, a descoberta do pequeno Sauropia macrorhinus traz mais uma peça para compor o quebra-cabeça que os paleontólogos tentam reconstruir. A nova espécie pode ter feito parte da dieta de outros predadores ligeiramente maiores, como o pequeno precursor dos crocodilos chamado de Parvosuchus aurelioi, com menos de 1 metros de comprimento.
Assim, além de representar um dos poucos fósseis de procolofonóides com 240 milhões de anos na América do Sul, Sauropia macrorhinus mostra que os ecossistemas do Triássico Médio no sul do Brasil eram mais ricos e diversos do que se imaginava, abrigando não apenas grandes herbívoros e predadores, mas também uma fauna diversa de pequenos vertebrados. Esses animais desempenhavam papéis variados nas teias alimentares terrestres, muito antes do domínio ecológico dos dinossauros.
Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da UFSM
O fóssil de Sauropia macrorhinus está depositado no Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia da Universidade Federal de Santa Maria (CAPPA/UFSM), localizado no município de São João do Polêsine, no Rio Grande do Sul. O centro integra o Geoparque Quarta Colônia UNESCO e abriga uma importante coleção de fósseis do Triássico brasileiro, além de uma exposição aberta à visitação gratuita.
O estudo foi conduzido por Rodrigo Temp Müller, Lúcio Roberto da Silva, Pedro Lucas Porcela Aurélio e Leonardo Kerber. A pesquisa recebeu apoio do CNPq e INCT Paleovert.
O artigo intitulado “The smallest tetrapod from the Middle Triassic of South America: a new procolophonoid parareptile from the Ladinian of Southern Brazil” foi publicado no periódico Scientific Reports e está disponível no link.
Fonte: Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia da UFSM