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HUSM realiza transplante inédito de medula óssea sem transfusão de sangue

Procedimento exigiu adaptação de protocolos para garantir segurança clínica e respeitar a decisão religiosa do paciente



No Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), integrante da Rede HU Brasil, meses de planejamento, estudo e articulação entre diferentes especialidades resultaram, no dia 15 de abril, na realização de um transplante autólogo de medula óssea sem transfusão de sangue. O procedimento, inédito na instituição, exigiu a adaptação rigorosa de protocolos assistenciais com base em diretrizes internacionais e no conceito de Patient Blood Management (PBM), abordagem que prioriza a preservação e o manejo do próprio sangue do paciente durante todas as etapas do tratamento.

A estratégia foi conduzida pela equipe do Serviço de Transplante de Medula Óssea (TMO), em conjunto com a hemoterapia e outras áreas assistenciais do hospital, para atender Anderson Mazzon, de 25 anos, respeitando integralmente sua decisão religiosa de não receber hemocomponentes.

No transplante autólogo, as células-tronco do próprio paciente são coletadas, armazenadas e posteriormente reinfundidas após o tratamento quimioterápico, com o objetivo de restabelecer a produção sanguínea. Em situações habituais, esse processo demanda transfusões de sangue e plaquetas devido à queda temporária das células sanguíneas.

No caso de Anderson, cada etapa precisou ser reorganizada, desde a preparação clínica até o suporte durante o período de aplasia medular. O uso de medicações específicas, o controle rigoroso de perdas sanguíneas e o acompanhamento intensivo permitiram que o procedimento fosse realizado com segurança, sem a necessidade de transfusões.

Do diagnóstico ao tratamento

Morador do interior de Rosário do Sul, Anderson começou a apresentar sintomas durante o período de colheita da soja, quando uma tosse persistente passou a comprometer sua rotina. Após buscar atendimento no Hospital de Caridade Nossa Senhora Auxiliadora (HCNSA), exames identificaram alterações na região do mediastino, localizada entre os pulmões.

Dias depois, uma biópsia confirmou o diagnóstico de linfoma não Hodgkin. “Em um primeiro momento, fiquei apreensivo, mas tentei me manter calmo. Só tive uma reação mais forte quando consultei em Santa Maria”, relembra Anderson.

Após o diagnóstico, ele foi encaminhado ao HUSM, onde iniciou o tratamento na Unidade de Oncologia e Hematologia. Como ainda estava na faixa etária atendida pelo serviço, permaneceu internado no Centro de Tratamento da Criança e do Adolescente com Câncer (CTCriac).

Integrante da comunidade das Testemunhas de Jeová desde a infância, Anderson e sua família passaram a buscar alternativas que permitissem conciliar o tratamento com suas convicções religiosas. As Testemunhas de Jeová não aceitam transfusões de hemocomponentes, como hemácias, leucócitos, plaquetas e plasma.

Em setembro de 2024, o Supremo Tribunal Federal reconheceu o direito de pacientes recusarem transfusões de sangue por convicção religiosa. Paralelamente, o Patient Blood Management vem sendo adotado internacionalmente como abordagem baseada em evidências científicas para reduzir ou evitar transfusões, de acordo com a avaliação individual de riscos e benefícios.

Diante da complexidade do caso, a família chegou a considerar a busca por tratamento em outros centros do país. “O apoio do meu grupo religioso em relação à minha saúde foi muito acolhedor. Quase todos os dias recebo mensagens de força e incentivo. Esse processo me aproximou ainda mais de Jeová”, relata Anderson.

Planejamento e integração entre equipes

Embora o HUSM já possua experiência consolidada em transplantes autólogos e alogênicos, o procedimento exigiu meses de preparação e integração entre diferentes áreas, já que pela primeira vez, o Serviço de Transplante de Medula Óssea realizou um transplante autólogo sem transfusão de sangue. “Além do preparo técnico, foi fundamental o engajamento do paciente e da sua rede de apoio, já que o transplante sem transfusão exige o uso de medicações específicas e ainda enfrenta desafios de acesso no SUS”, explica a médica Marielli Rosa Sagrilo, responsável pelo Serviço de Transplante de Medula Óssea.

Segundo a médica, o procedimento reforça o compromisso institucional com o cuidado centrado no paciente. “O procedimento demonstra não apenas a capacidade técnica da equipe, mas também o profundo comprometimento com o paciente, sua individualidade e sua rede de apoio”, destaca.

Ao longo do tratamento, Anderson realizou inicialmente seis sessões de quimioterapia de forma ambulatorial. Posteriormente, após a progressão do linfoma para outra região do corpo, precisou permanecer internado no CTCriac para continuidade da quimioterapia e radioterapia. “A quimioterapia demorava em torno de três dias para ser feita. Depois eu ficava mais alguns dias no CTCriac para me recuperar e, quando estava melhor, voltava para casa”, conta.

Com a doença controlada, Anderson permaneceu 24 dias hospitalizado em 2026 para a realização da infusão de medula óssea. Atualmente, ele já recebeu alta e retornou para Rosário do Sul.

O que é o linfoma não Hodgkin?

O linfoma é um tipo de câncer que afeta o sistema linfático, responsável pela defesa do organismo contra infecções. Diferentemente da leucemia, que tem origem na medula óssea, o linfoma se desenvolve nos linfonodos e em outros tecidos linfáticos.

Existem dois tipos principais da doença: o linfoma de Hodgkin e o linfoma não Hodgkin (LNH). Este último reúne mais de 20 subtipos e se caracteriza pela multiplicação desordenada das células de defesa do organismo.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a estimativa é de 12.560 novos casos de linfoma não Hodgkin por ano no Brasil entre 2026 e 2028.

Texto: Luiza Ventura, estagiária da Assessoria de Comunicação do HU Brasil
Edição: Agência de Notícias

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