Uma comitiva de nove pesquisadores do Hub.doc, Hub de pesquisa em Inovação em Arquivos coordenado pela UFSM, inicia, na próxima segunda-feira (7), uma agenda de visitas técnicas a cinco instituições italianas dedicadas à conservação e ao restauro de patrimônio documental. Até o dia 11 de setembro, o grupo percorre laboratórios em Venaria Reale, na região de Turim, em Florença e em Roma.
A viagem integra as ações de implementação do projeto Reviver Arquivos: Restauração e Acesso ao Acervo da UFSM (RevivARQ-UFSM), financiado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), por meio do Convênio 01.25.0120.00.
Por que a Itália
O projeto responde a um problema concreto: cerca de 12 mil caixas de documentos da UFSM foram atingidas pela enchente de maio de 2024. O material foi retirado do local do alagamento em menos de dez horas e submetido ao congelamento, técnica recomendada para conter a deterioração até que os documentos possam ser secos, higienizados, restaurados e digitalizados.
O congelamento, porém, é uma medida de contenção. O que vem depois — descongelar, secar, separar folhas coladas por resíduos e microrganismos, restaurar e digitalizar — exige equipamentos, protocolos e experiência acumulada.
As instituições italianas escolhidas concentram esse conhecimento por uma razão histórica. A enchente do rio Arno, que atingiu Florença em 1966, é considerada um marco na área: foi a partir dela que se desenvolveram boa parte das técnicas de recuperação de materiais danificados por água ainda hoje em uso.
O roteiro
- 7 de setembro — Centro Conservazione e Restauro “La Venaria Reale” (CCR), em Venaria Reale (TO)
- 8 de setembro — Biblioteca Nacional Central de Florença, Setor de Tutela, Conservação, Prevenção e Restauro
- 9 de setembro — Opificio delle Pietre Dure, setor de restauro de materiais cartáceos e membranáceos (Florença)
- 10 de setembro — Archivio Apostolico Vaticano, Laboratório de Conservação e Restauro (Roma)
- 11 de setembro — Istituto Centrale per la Patologia degli Archivi e del Libro (ICPAL), em Roma
O que a comitiva vai observar
A agenda prevê o acompanhamento de rotinas operacionais em cada laboratório, como higienização técnica com controle de partículas, estabilização físico-química de suportes, secagem controlada por ar forçado, vácuo e liofilização, umectação para recuperar a maleabilidade de papéis ressecados, desinfestação por métodos físicos e químicos e protocolos de resposta emergencial a acervos sinistrados.
Também serão analisados equipamentos e instalações — câmaras de secagem e liofilização, mesas de vácuo e sistemas de sucção, cabines multifuncionais de higienização, câmaras de desinfestação e sistemas de monitoramento ambiental —, informação que interessa diretamente ao projeto, cujo objetivo central é ampliar essa infraestrutura na UFSM.
Parte do roteiro trata de tecnologias ainda pouco difundidas no Brasil. No CCR, a comitiva conhecerá o uso de laser na limpeza de materiais; no ICPAL, a ablação a laser e o plasma a frio para remoção controlada de contaminantes; no Opificio delle Pietre Dure, exames por raios X, fluorescência de raios X e espectroscopias infravermelha e Raman aplicados à caracterização de materiais.
No Archivio Apostolico Vaticano, o foco recai sobre conservação preventiva, acondicionamento, monitoramento ambiental e os protocolos de guarda permanente, além de digitalização e reprodução de manuscritos e documentos históricos. Nesse sentido, atenção especial será dada às técnicas de captura de materiais frágeis, sistemas de suporte e abertura controlada, gestão da qualidade das imagens, documentação técnica, tratamento digital e disponibilização para pesquisa.
Na Biblioteca Nacional Central de Florença, sobre os procedimentos consolidados desde 1966 para acervos atingidos por água. Além da conservação, a BNCF possui uma estrutura de digitalização de manuscritos, livros, coleções e projetos de estudo prático de técnicas para exemplares antigos e frágeis.
O que se espera
O retorno esperado da missão é prático: subsidiar as decisões técnicas sobre a infraestrutura de restauração e digitalização que está sendo implantada na UFSM e qualificar os protocolos de resposta a emergências em acervos.
O alcance, porém, não se limita à Universidade. A enchente de 2024 afetou documentação em mais de 400 municípios gaúchos, e os estudos e relatos de experiência gerados pelo projeto devem contribuir para definir estratégias de resposta a desastres em outras instituições. Gerar e compartilhar conhecimento é uma das bases do Hub.doc.
Acompanhe
A cobertura das visitas será publicada diariamente no Instagram do Hub.Doc, com registros dos laboratórios, das técnicas e das conversas com os especialistas italianos.
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Texto: João Ricardo Gazzaneo