
O Núcleo Interdisciplinar de Interação Jurídica Comunitária (NIIJUC) da UFSM promoveu, na terça-feira (8), o evento “Direito à memória e à verdade: a importância das Comissões da Verdade para a democracia”. A atividade reuniu integrantes da comunidade acadêmica e convidados para refletir sobre memória, democracia e direitos humanos, além de discutir a importância dos trabalhos da Comissão da Verdade da UFSM.
O encontro contou com a participação da enciclopedista, tradutora e ex-integrante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) Renata Ferraz Guerra de Andrade, que compartilhou experiências de sua trajetória como militante durante a ditadura militar brasileira.
Data do evento é referência à Campanha da Legalidade
A escolha da data não foi aleatória: faz referência ao Dia da Legalidade, celebrado em 25 de agosto, e se refere à proximidade com o aniversário da posse de João Goulart na Presidência da República, em 7 de setembro de 1961. A posse ocorreu após a crise política desencadeada pela renúncia de Jânio Quadros, em 25 de agosto daquele ano, e pela resistência à tentativa de impedir que seu vice assumisse o cargo.
No Rio Grande do Sul, a resistência foi articulada pelo então governador Leonel Brizola e deu origem à Campanha da Legalidade, que mobilizou setores da sociedade em defesa da ordem constitucional. Por essa proximidade com o 7 de setembro, a atividade foi programada para o dia 8, no período da tarde.
Comissão da Verdade da UFSM
As Comissões da Verdade são iniciativas voltadas à investigação e ao esclarecimento de violações de direitos humanos, perseguições políticas e atos de repressão ocorridos em determinados períodos históricos. Nas universidades, esses grupos também contribuem para recuperar a memória institucional e identificar casos de perseguição e repressão ocorridos no ambiente acadêmico durante a ditadura militar.
Na UFSM, a Comissão da Verdade foi criada em 2015. Em maio de 2026, o Gabinete da Reitoria instituiu o Grupo de Trabalho Paulo Devanier Lauda de Verdade e Memória, com o objetivo de elaborar um relatório atualizado de todos os atos praticados pela Comissão da Verdade da instituição. Em julho, o grupo entregou à reitora, Martha Adaime, seu relatório final de atividades.
O grupo recomendou a reconstituição formal da Comissão da Verdade da UFSM, mediante a edição de uma nova portaria. A recomendação é para que a nova comissão mantenha como referência a composição plural da iniciativa original, com participação da comunidade universitária e das instituições parceiras. Agora, o Gabinete da Reitoria dará sequência aos trâmites para a recomposição de uma nova Comissão da Verdade.
O grupo foi constituído por representantes da UFSM e da OAB Subseção de Santa Maria. Pela universidade, participaram os servidores Darci Roberto Trevisan Fidler, Alcir Luciany Lopes Martins, Glaucia Vieira Ramos Konrad, do Departamento de Arquivologia, e Diorge Alceno Konrad, do Departamento de História. Pela OAB, integraram o GT os advogados Márcio de Souza Bernardes e Márcio Morais Brum.

Memória e democracia em debate
A programação contou com uma mesa de abertura, a palestra “Quando ‘democracia’ não é só um verbete”, com Renata Ferraz Guerra de Andrade, a apresentação do relatório sobre a situação da Comissão da Verdade da UFSM e um debate sobre a possibilidade de retomada de suas atividades.
Durante a abertura, representantes das instituições participantes destacaram o papel da universidade na criação de espaços de debate e na preservação da memória histórica.
A presidente da OAB Subseção de Santa Maria, Juliane Müller Korb, ressaltou a importância das Comissões da Verdade para a preservação e o fortalecimento da democracia. “A democracia precisa ser ensinada, replicada, fortalecida. Muito para além dos livros, muito para além da retórica. Ela precisa ser fortalecida todos os dias do nosso exercício cidadão”, afirmou.
“Ousar lutar e ousar correr”
Durante a palestra “Quando ‘democracia’ não é só um verbete”, Renata Ferraz Guerra de Andrade compartilhou com o público experiências de sua trajetória como militante durante a ditadura militar.
Aos 79 anos, Renata é natural de Recife e se mudou para São Paulo, onde integrou a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) até meados dos anos 1970. Durante o período da ditadura, deixou o Brasil e viveu no Uruguai, no Chile e na Argentina, onde permaneceu até 1976. Retornou ao país após a promulgação da Lei da Anistia, em 1979.
Durante a conversa, Renata relembrou episódios de sua trajetória e dialogou com o público sobre temas como o avanço de movimentos conservadores, o negacionismo científico, a desinformação e a importância da democracia.
Ao recordar o período em que integrou a VPR, destacou a necessidade de reconhecer os limites e os riscos enfrentados pelos militantes durante a ditadura: “Eu gosto muito do nosso lema, que era ‘Ousar lutar e ousar vencer’, mas eu acho que a gente também deve saber ousar lutar e ousar correr. Eu corri a tempo de sobreviver, porque pouca gente da minha organização permaneceu solta. Eu tive sorte de sobreviver”, refletiu.
Questionada sobre o crescimento de movimentos conservadores entre os jovens, afirmou perceber o avanço dessas ideias, mas ressaltou que também observa muitos jovens e estudantes envolvidos em pautas sociais e políticas. A influência da religião nas decisões políticas brasileiras também esteve entre os temas discutidos com o público.
O evento foi promovido pelo Programa de Extensão Núcleo Interdisciplinar de Interação Jurídica Comunitária (NIIJUC), com apoio da UFSM, Sedufsm, Assufsm, OAB/RS, DCE UFSM, Grupo Cálice, Diretório Acadêmico de Direito e DACAR.
Texto: Ellen Schwade, estudante de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Fotos: Mathias Ilnick, estudante de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Edição: Lucas Casali e Ricardo Bonfanti, jornalistas