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Professora Doutora Sandra de Deus recebe título de Patronesse do Mês da Consciência Negra na UFSM



Na noite do dia 20 de novembro de 2019, Dia da Consciência Negra, foi realizada a entrega do título de Patronesse deste mês para a Professora Doutora Sandra de Deus, egressa da UFSM e atualmente Pró-Reitora de Extensão da UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Professora Doutora Sandra de Deus em sua carta de agradecimento à Universidade Federal de Santa Maria. Foto: Ronald Mendes

Dentre os motivos para sua escolha como homenageada, está o fato de que a extensão é tradicionalmente a área que tem maior contato com a sociedade, colocando-a na linha de frente dentro das universidades para o acolhimento das demandas da população negra. O intuito da homenagem é poder coroá-la como exemplo de liderança e representatividade já na luta pelo movimento negro a tanto tempo.

Sandra de Deus é graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria (1980), tem especialização em Pensamento Político Brasileiro pela UFSM (1990), é Mestre em Extensão Rural também pela UFSM (1989) e Doutora em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2005). Atua como professora  associada da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Coordenadora do Curso de Especialização Jornalismo Esportivo e Pró-reitora de Extensão da UFGRS.

Além da entrega, os presentes puderam prestigiar a apresentação do espetáculo “Vozes Negras“, promovido pela Banda Sinfônica, com a regência de Dilber Alonso e Luiz Antônio Silva, e coordenação de Tita Sartor. As vozes das cantora Arianne TeLima, Ediana Larruscain ecoaram junto com a Escola de Samba Vila Brasil no palco do Centro de Convenções da UFSM,  o repertório foi composto por musicais norte-americanos, black music, música popular brasileira e sambas-enredos que marcaram época.

Em seu discurso de agradecimento, a Professora Doutora Sandra de Deus afirmou já ter escrito muitas cartas para a UFSM, mas nunca as enviou, então, sentiu que esse era o momento de ler uma delas para todos, em agradecimento pelo título.

Leia a carta completa:

Querida UFSM, 
Eu já te escrevi uma outra carta em 1998 mas acabei não te enviando por falta de oportunidade e porque fiquei desconfiada da publicização. Hoje não vejo nenhum problema que nossas cartas se tornem públicas, pois as cartas de amor entre Simone de Beauvoir e seu amante Nelson Algren, ao serem descobertas, se tornaram best seller e as cartas entre Tarsila do Amaral e Luis Martins são de uma beleza contagiante, verdadeiro retrato de uma época. A verdade é que tu e eu preferimos cartas à biografias. Bem, naquela carta, que não te enviei, te contava que eu tinha desistido de ti, porque depois de muito insistir em fazer concurso para continuar aqui contigo e não ter sucesso, havia sido aprovada no concurso para ser professora do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Bem, mas com o tempo tu ficaste sabendo que lá em 98 me tornei professora da UFRGS. Passaram-se 21 anos! Então quando soube desta honraria que tu estás me concedendo resolvi te escrever, te atualizar de algumas mudanças, te relembrar alguns fatos do nosso passado e te dar um abraço solidário e bem apertado para te dizer que deves ignorar as bobagens que alguns forasteiros dizem por ai, proferindo asneiras sem sentido a teu respeito. Tu sempre foste corajosa não é agora que vais te retrair diante de fracos de plantão, 43 anos atrás eu fiz vestibular para jornalismo aqui neste Campus. Eram tempos difíceis para uma jovem negra, pobre, filha de trabalhador do campo. Certamente tu deves lembrar de eu te falar que minha família tinha certeza de que jornalismo não era uma profissão e que chegar na universidade não era para minha gente. Mas tu lembra, também, que sai direto do Colégio Maria Rocha e passei no primeiro vestibular sem cursinho….estudei muito e chorei muito. E ai veio março de 1977 para iniciar o curso… tempos duros para o Brasil. Foram quatro anos difíceis, de poucos amigos, de
exclusão, mas foram de militância politica…, já fazia balbúrdia naquela época e em dezembro de 1980 recebi o diploma de jornalista. No meio do curso pedi para dois professores que me auxiliassem para encontrar um trabalho porque precisava sobreviver. Eu tinha crédito educativo (que paguei em suaves prestações mensais quando terminei o curso) mas quando eu busquei auxilio dos professores um deles me desencorajou e me disse que no jornalismo eu não daria certo, seria difícil e outro me encaminhou para a Rádio Imembuí onde trabalhei por 20 anos e me fiz a jornalista cheia de coragem, tanto que acabei sendo professora de Jornalismo. Bem mais tarde, eu li o maravilhoso Mia Couto dizer que ” tem quem tenha medo que um dia o medo acabe”. Pois então…. foi ali, iniciando a vida de jornalista que o meu medo acabou. Quando eu fiz vestibular para 
Jornalismo meu irmão fez no ano seguinte para Veterinária e não foi beneficiado pela Lei do Boi que vigorava na época como uma cota para os filhos de fazendeiros.

Pró-Reitor de Extensão da UFSM, Prof. Flavi Ferreira Lisboa Filho, Coordenador do Observatório de Direitos Humanos da UFSM. Victor de Carli Lopes e a homenageada da noite, Sandra de Deus

É, querida UFSM, os tempos mudaram ou será que não mudaram? Outro dia a gente conversa mais sobre isto…. Lá em 1977 estudante negro na universidade era uma atração ou um intruso, quem sabe exótico, Então não mudou muito porque tem gente que faz moda com os turbantes porque considera exóticos! Te conto que depois de onze anos como Pró Reitora de Extensão, não são poucas às vezes que ao anunciarem a chegada da Pró-reitora, tem aqueles que ficam procurando para ver se encontram uma figura a altura do cargo e não uma negra. Uma negra na gestão ainda causa estranhamento! O que mudou foi a chegada dos filhos dos pobres na Universidade. O que mudou foi a insistência ou a resistência das negras e negros para ocuparem um lugar na academia. O que mudou foi a implantação de uma politica de ações afirmativas que trouxe para dentro das universidades gente que até então era excluída. Mas ainda tem quem considere estes tempos atuais como uma afronta. As vezes sinto como se jogassem uma linha num grande rio e quando pegamos a isca está na hora de nos sacrificar ou nos devolver para o rio. Sei! Fiz a comparação esdrúxula: é devolver para a senzala que se fala! o mais triste é que assim pensam alguns que ainda se procriam neste Brasil e no mundo e que mais do que antes agora estão soltos por ai. Aqui contigo fiz o curso de jornalismo, especialização em pensamento politico brasileiro e mestrado em extensão rural. Ah! Por tudo isto me tornei Zumbi no sentido Zumbi de Paimares, no sentido de resistência minha, tua e de nossa gente. Virei doutora pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sou uma cidadã consciente da minha humanidade, uma jornalista ousada, professora freireana que formo muitos excelentes jornalistas e estou no cargo de pró reitora de extensão de uma grande universidade pública. Deves estar te perguntando se este caminho foi fácil? Claro que não! Sabes que não é fácil e que muitas vezes o olhar punitivo dizendo que este não é o meu lugar, não é o lugar de uma negra, me dá uma dor tão grande de saber que este olhar é para mim e para todos os meus, para todos negros e pobres que continuam sendo desrespeitados, segregados, violentados, desvalorizados. Bem eu não imaginava, nem nos meus melhores sonhos, que um dia tu me convidaria para estar aqui nesta noite. Certamente muitos, nem nos seus piores pesadelos me imaginavam aqui nesta noite. Que continuem tendo pesadelos! Gratidão! Preciso te contar que a vida acadêmica muitos desafios que passam pelas relações de trabalho, pela produção acadêmica, pela gestão e olha tem dias que ouço: onde tu queres chegar? Respondo com segurança que só quero chegar em uma sociedade mais igualitária e agradecer a ousadia dos teus gestores que decidiram homenagear a “negrinha” que aqui iniciou a vida de balburdia mas também de fraternidade. Para aqueles e, especialmente para aquelas, que como eu vem de onde viemos, te asseguro que lutar cada dia para ser aceita, produzir, bancar uma opinião ainda é um desafio, tem sempre uma esquina para ser dobrada….e a 
gente dobra e volta se for preciso para resgatar os amigos que ficaram. Ainda somos objeto de estudos e tenho de ouvir uma frase que pode ser um elogio, mas soa como condenação para mais de 55 por cento da população brasileira considerada pelo IBGE como negra ou parda. A frase é : ” em 20 anos tu continuas sendo a única professora negra do curso de jornalismo da Fabico”. Não quero só a representatividade, quero, também, a proporcionalidade”. Mas antes de encerrar, porque esta carta já esta longa, te conto que meu pai, um negro de 86 anos bem vividos está muito bem de saúde e continua sendo um assíduo ouvinte de rádio que sem saber me levou para este caminho de paixão pelo rádio; que minha filha Raissa é uma jornalista ambientalista, solidária e cidadā do mundo; que meu irmão, que não foi beneficiado pela lei do boi, virou veterinário, poeta e criador de cavalos crioulos, que os amigos vão todos bem e estão espalhados pelo mundo e, que tu querida, é responsável pela pessoa que me tornei e por muitos outros. A vida segue! Outro dia te escrevo para te contar outras novidades e como diz Saramago eu ainda “creio no direito à solidariedade e no dever de ser solidária. Somos feitos todos da mesma carne sofrente. Mas, também, creio que ainda nos falta muito para chegarmos a ser verdadeiramente humanos”. Se é que seremos alguma vez. Por fim não esquece do que diz Luis Fernando Verissimo no conto Barricada: “Esta civilização nos deve, pelo menos, outra rodada. 
Minha gratidão para ti e para os teus. Que a jornada seja ionga, mas que seja leve. Beijos carinhosos. Tam!

Confira mais algumas fotos do evento

Texto: Lucas Felipe da Silva

Fotos: Lucas Felipe da Silva

Fotos de Joelison Freitas:


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