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Seu Roque e Dona Maria: Os Doutores do Mato e a Sabedoria Viva



Na filosofia de vida de Seu Roque e Dona Maria, a terra só faz sentido se trouxer dignidade, autonomia e saúde para o povo.

por Fellipe H. Alves Medeiros

Francisco Roque Franco de Almeida e Maria Olíria Almeida aprenderam cedo que a cura não nasce apenas nos remédios, mas na escuta, na observação atenta da natureza e na convivência comunitária. Conhecidos no Noroeste gaúcho, mais precisamente no Assentamento Rondinha, em Jóia, como Seu Roque e Dona Maria, eles transformaram o cuidado com a terra em um espaço de acolhimento, resistência e ensino coletivo. 

A trajetória deles desenha uma parceria estratégica e política profunda que une a luta pela terra à cura ancestral. Há décadas dedicados integralmente à fitoterapia e à agroecologia, a vida do casal carrega marcas da oralidade, da ancestralidade e da militância construída na busca pela reforma agrária, transformando a rotina do assentamento por meio de uma revolução silenciosa onde a saúde não é uma mercadoria, mas um direito que nasce da comunhão entre o ser humano e a natureza preservada.

Esse caminho começou muito antes de se tornarem referências na região, no tempo em que os dois eram vizinhos de cerca com cerca em uma fazenda. Eles se conheceram ainda na infância, quando Roque tinha dez anos e Maria tinha onze. Como relembra Seu Roque, a proximidade vinha desde cedo, mas o tempo do afeto teve que esperar: “Nós éramos bem vizinhos de cerca na fazenda por lá. Conheci ela quando ela tinha 11 anos e eu tinha uns 10, nos criamos perto. Mas a mãe dela era muito brava, tio! Não dava nem para chegar perto da casa”. O namoro só começou por volta dos 21 anos e, desde o início, os dois passaram a funcionar como uma engrenagem complementar. Ele resume a dinâmica com bom humor e precisão: “A mulher é a bruxa velha. Eu sou o bugre, que eu sei onde está a planta, conheço a planta, sei o dia, hora… Ela processa”.

As origens dessa sabedoria recuam às infâncias vividas em Nonoai e Novo Tiradentes, em meio a dificuldades financeiras e ao trabalho duro como agregados. Desde muito jovens, aprenderam que a natureza era a principal aliada. Seu Roque traz consigo uma forte herança de matriz indígena e um profundo conhecimento prático, sendo capaz de reconhecer variedades apenas pelo sabor ou pelo cheiro da casca. Já Dona Maria herdou a vocação de sua linhagem familiar, muito ligada à trajetória de seu avô, João dos Matos, e de sua mãe, uma respeitada parteira tradicional que atendia a comunidade a cavalo em noites de geada, levando chás e óleos preparados em casa.

Essa formação popular enfrentou também as marcas da exclusão social. Na infância, ambos puderam estudar apenas até a segunda série devido às dificuldades da época e ao machismo estrutural. Dona Maria recorda o peso desse período: “Naquela época, tinha o machismo de que as meninas não podiam mais estudar depois dos 11 anos; as meninas saíam e só os guris podiam continuar. Então eu aprendi mais foi lendo a Bíblia, lendo os livros de plantas medicinais”.

Essa busca pelo conhecimento, no entanto, gerou imagens poéticas na família. Anos mais tarde, a própria mãe de Dona Maria, a parteira ancestral, decidiu frequentar a escola através da Educação de Jovens e Adultos quando já era avó. Ela sentava nos mesmos bancos escolares que a sua bisneta, que na época estava no jardim de infância. Enquanto a menina aprendia as primeiras letras, a bisavó aprendia a assinar o próprio nome, mostrando que o saber tradicional e o formal se cruzam no tempo. Dona Maria, por sua vez, alfabetizou-se de verdade na maturidade. Como ela costuma afirmar com orgulho: “Não estudei lá na classe da escola, mas no Livro da Vida”.

Essa experiência foi testada como uma verdadeira estratégia combativa durante os anos de militância junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Na década de noventa, o casal adotou uma tática rigorosa de sobrevivência para manter a família e o movimento de pé. Seu Roque foi instigado a ir para a linha de frente da luta pela reforma agrária por um chamado direto que recebeu na época: “Não, Roque, agora tu não vai mais só falar. Tu fica dizendo para os outros que é bom ir acampar, ganhar terra, e tu fica aí na cidade? Tu tem que ir também para provar!”. E ele foi. Passou cerca de cinco anos acampado sob a lona preta. “Se me chamarem na rua de Francisco eu não atendo, eu não conheço. […] Eu sou um jovenzinho mais criado, mas temos tempo da luta sindical forte”, conta.

Ele não era apenas um acampado, mas um articulador de saúde itinerante, ajudando a organizar farmácias fitoterápicas em acampamentos de trinta e cinco municípios diferentes, ensinando as comunidades a buscar a cura no que havia disponível na mata local. Roque recorda com detalhes o sacrifício físico dos rigorosos invernos de 1991 em Palmeira das Missões, enfrentando geadas que duravam até às onze horas da manhã e banhos em córregos gelados, o que lhe causou uma pneumonia grave. Enquanto ele resistia na articulação e na saúde itinerante, Dona Maria liderava a retaguarda na cidade, garantindo a presença no cuidado da casa e a educação dos filhos.

Foi justamente no cotidiano severo das lonas pretas que o saber ancestral se transformou em uma ferramenta vital de sobrevivência coletiva. Diante de um inverno rigoroso, um grupo de pessoas que havia sido expulso de uma fazenda estava acampado em condições extremamente precárias, enfrentando uma grave epidemia de gripe e febre alta, agravada pelo frio intenso e pelo sereno constante da noite. Ao testemunhar o sofrimento daquelas famílias desassistidas, Dona Maria, acompanhada por outras três companheiras de luta, que eram carinhosamente chamadas no acampamento de bruxinhas, decidiu agir com os poucos recursos que tinham à disposição.

Os detalhes daquela preparação se transformaram em uma memória viva. Elas reuniram um saco de ervas medicinais, marcela, maçanilha, laranjas e açúcar mascavo, colocando uma panela gigante diretamente no fogo ao ar livre. Dona Maria revive aquele momento com emoção na voz: “Quando começou a ferver, o cheiro subiu e o povo já começou a rodear a panela querendo. […] Foi uma coisa que me marcou muito, nunca mais vou me esquecer daquela panelada”. Diante da emergência e na falta de uma logística adequada, elas utilizaram os materiais disponíveis como garrafas plásticas descartáveis para armazenar e distribuir o remédio aos enfermos.

O resultado foi imediato, ajudando a baixar a febre e permitindo que os acampados finalmente descansassem e se recuperassem. Esse episódio marcou profundamente Dona Maria, servindo como o alicerce de uma promessa firme que ela fez a si mesma e ao seu povo: “Digo, o dia que nós chegar na terra a gente vai fazer um grande horto e vamos trabalhar com fitoterápicos porque a gente já tinha uma boa sabedoria”.

A conquista do lote no Assentamento Rondinha aconteceu em 1995, mas a grande transição agroecológica ocorreu em 2002. Foi nesse ano que o casal decidiu cumprir a promessa e abandonar de vez o modelo convencional de produção baseado na soja e no leite para se dedicar inteiramente à fitoterapia, impulsionados por um curso de capacitação sobre plantas bioativas. O horto medicinal deles se materializou como uma farmácia viva com uma extensão de um quilômetro de comprimento, que vai desde a casa até as proximidades da margem do rio Ijuizinho. Para proteger essa área, eles utilizam barreiras vivas de capim-cameroon e árvores nativas.

Nesse espaço protegido, a divisão do trabalho segue o ritmo da natureza e adota um protocolo ético e espiritual rigoroso. Seu Roque caminha pela extensão do horto colhendo as plantas e sempre pedindo licença a cada uma antes de retirar qualquer folha ou casca da terra. Ele explica a ciência por trás desse gesto de respeito: “Tu tem que pedir licença pra planta, que tu vai precisar daquela planta, não é chegar e… estipular ela. […] A planta, o corpo reconhece a planta”. Para ele, a conexão é direta e dispensa intermediários industriais: “Com a natureza se oferece tudo. Não precisamos buscar na farmácia química. O criador criou nós e criou tudo, o alimento e o remédio junto também”. 

Dona Maria, na cozinha de casa, manipula e processa as ervas para organizá-las em xaropes, compostos, óleos e tinturas concentradas em cachaça de alambique. Toda essa produção obedece ao relógio humano, uma filosofia do casal que defende que a eficácia do tratamento depende de tomar os preparados na margem de horários em que os órgãos do corpo estão mais receptivos aos princípios ativos.

A variedade da farmácia viva atende a quase todas as necessidades do corpo. O que começou como um atendimento caseiro ganhou escala nacional. Hoje, com o auxílio logístico, os remédios são enviados por correio para todo o Brasil e a produção abastece inclusive a Escola Nacional do MST. Essa soberania também dita a relação de Seu Roque e Dona Maria com o meio acadêmico. 

Eles mantêm intercâmbios com universidades, recebendo pesquisadores no lote. Hoje, o trabalho de Seu Roque e Dona Maria transborda os limites do lote e funciona como uma pedagogia viva. O Assentamento Rondinha recebe mensalmente visitas de escolas e universidades para oficinas de reconhecimento de plantas nativas e educação ambiental. As crianças caminham pelo horto de um quilômetro de extensão e aprendem a importância de proteger as sementes crioulas. No lote, existe ainda o potreiro das abelhas, um espaço de campo nativo onde Seu Roque não planta nada nem retira ervas, mantendo-o isolado apenas para que as abelhas possam buscar a floração.

Para o casal, a defesa da biodiversidade e da soberania alimentar precisa incluir até os insetos contra o avanço agressivo da monocultura. Essa dedicação funciona como a salvaguarda de uma memória coletiva que se multiplica. Olhando para trás e assumindo a própria identidade de “bruxinha do bem”, Dona Maria reflete sobre a importância histórica de manter o trabalho vivo: “A gente sabe que a pessoa tomou e melhorou por isso. […] Antigamente eles mandavam matar as bruxas, porque não queriam que as bruxas fizessem milagre nenhum. ..”.

O maior símbolo de vitória e continuidade desse legado já frutifica na própria família: Roque e Maria celebram com orgulho o fato de um de seus netos estar cursando a faculdade de medicina em Viamão. O jovem já atua como um aprendiz de Mestre, na escola onde estuda, usando sua caixinha de remédios fitoterápicos preparados pelos avós para atender os colegas. Seu Roque orgulha-se de ver o jovem carregar adiante esse bastão: “Nós temos o nosso neto que está estudando, ele quer fazer medicina mais para trabalhar com os fitoterápicos também. […] Lá onde ele está na escola, ele tem a caixinha dele de remédio, quando um colega fica mal de noite, ele levanta e dá o remédio”. É o saber popular atuando como processo complementar e preventivo nos cuidados em saúde, aproximando-se, finalmente, do conhecimento tradicional da terra.

Toda a caminhada de Seu Roque e Dona Maria se apoia no orgulho de suas origens e na recusa absoluta ao esquecimento. Seu Roque resume o que move a rotina e o compromisso dos dois no assentamento: “Negar o que a gente é seria a coisa mais feia que tem. Eu não nego a minha criação, conto a história da nossa vida, e do que a gente faz eu não tenho vergonha nem um pouco”. Dona Maria resume o sentimento que fica: “Saber que as pessoas tomam aquelas gotinhas e [vêem que] é uma gotinha milagrosa… Então, aqui dentro é só gratidão, isso é muito bom”. A vida deles é a prova de que a reforma agrária vai muito além de demarcar lotes de terra; significa cultivar soberania, saúde e esperança. Cuidar das pessoas e proteger a biodiversidade é, acima de tudo, defender o direito ancestral a um pedaço de chão vivo, o cuidado com a terra integra nossas raízes, nosso corpo.

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