Um diálogo entre universidade, comunidades e projetos de extensão
A Universidade Federal de Santa Maria realizou, no dia 16 de junho de 2026, o 9º Fórum de Direitos Humanos: Direitos Humanos para Todas as Pessoas, promovido pelo Observatório de Direitos Humanos. O evento reuniu estudantes, servidores, lideranças sociais, representantes de movimentos e projetos de extensão para um dia de reflexões sobre diversidade, participação social e promoção dos direitos humanos.
Realizado no prédio do Curso de Arquitetura e Urbanismo (CAU), contando com a organização do grupo da disciplina de gestão de eventos, do curso de Relações Públicas, o fórum contou com atividades durante os turnos da manhã e da tarde, como um importante espaço de encontro entre universidade e comunidade.
A programação incluiu palestra, debate com lideranças sociais, apresentações culturais e rodas de conversa temáticas envolvendo projetos coordenados pelo ODH. A abertura institucional destacou a importância de fortalecer espaços de diálogo e construção coletiva em torno dos direitos humanos, especialmente diante dos desafios sociais contemporâneos.
Ao longo do dia, diferentes vozes compartilharam experiências, trajetórias e reflexões que evidenciaram a necessidade de ampliar o acesso a direitos, combater desigualdades e fortalecer a participação popular nos processos de transformação social.
Direitos Humanos, democracia e interseccionalidade
Dainara Taís Juchniewski, estudante de Relações Públicas e formada em Licenciatura em Letras pela UFSM, conduziu a abertura do fórum com um discurso de boas vindas aos presentes, logo em seguida, convocou ao palco do auditório Milena Freire de Oliveira-Cruz, reitora da Pró-Reitoria de Extensão (PRE), e em seguida, a chefe da Coordenadoria de Cidadania (COCID), Cassiane Marques da Silva, ambas trouxeram palavras que reforçaram a importância e trabalho da UFSM e dos projetos de extensão reunidos no evento.
A palestra principal do evento foi ministrada pela pesquisadora e jurista Winnie Bueno, que abordou a relação entre direitos humanos, democracia e interseccionalidade. Em sua fala, destacou a importância de reconhecer as diferentes formas pelas quais as violações de direitos atingem grupos historicamente marginalizados e ressaltou que as desigualdades não podem ser compreendidas como fenômenos naturais.
Segundo Winnie, a defesa dos direitos humanos exige a escuta ativa das pessoas que vivenciam essas violações e a transformação dessa escuta em ações concretas. “Precisamos ouvir as pessoas que vivem as violações. Não como objetos de pesquisa ou números de relatórios, mas como sujeitos políticos”, afirmou. A palestrante também enfatizou que a garantia de direitos depende do fortalecimento das instituições democráticas e da participação social.
Para ela, a democracia ultrapassa os processos eleitorais e envolve o acesso à informação, a liberdade de organização coletiva e a proteção dos movimentos sociais. Ao encerrar sua fala, Winnie reforçou a necessidade de recuperar o sentido mais profundo da dignidade humana. “Não existe uma humanidade abstrata.
“Defender os direitos humanos é defender o direito de cada pessoa existir plenamente. É garantir não apenas sobrevivência, mas liberdade.” As reflexões apresentadas pela palestrante serviram como ponto de partida para os debates que se estenderam ao longo de toda a programação.
O desafio de transformar direitos em realidade
Na sequência, o fórum promoveu um debate mediado com lideranças e representantes de diferentes movimentos sociais, coletivos e iniciativas comunitárias. O debate foi conduzido por Jane Schumacher, chefe do Observatório de Direitos Humanos, com a participação de Mariana Selister, professora de PPGRI e PPGCS da UFSM, Margarete Vidal, como representante da Associação de Materiais Recicláveis de Santa Maria (ASMAR), Rutiela Campos e Márcio Katánh representando o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI), e participação do professor e doutor Jesse da Cruz, adjunto da universidade.
As discussões trouxeram para o centro do debate experiências concretas relacionadas ao racismo, capacitismo, exclusão social, participação comunitária, direitos indígenas, migração e acesso às políticas públicas. Um dos pontos recorrentes das falas foi a necessidade de aproximar a universidade das comunidades e reconhecer os conhecimentos produzidos para além dos espaços acadêmicos.
Durante o debate, foi destacada a importância de compreender que os direitos humanos precisam ser pensados a partir das realidades vividas pelas pessoas e dos obstáculos enfrentados cotidianamente para acessar direitos básicos. Também foram debatidos os impactos do racismo e do capacitismo na vida das pessoas.
A pedagoga e pesquisadora Rutiele Campos compartilhou reflexões sobre sua trajetória enquanto mulher negra e pessoa com deficiência visual, ressaltando que as experiências de discriminação se multiplicam quando diferentes marcadores sociais se cruzam. Segundo ela, os direitos humanos só podem ser efetivamente garantidos quando contemplam todas as formas de diversidade e reconhecem as barreiras que ainda limitam o acesso de diferentes grupos aos espaços educacionais, acadêmicos e profissionais.
A discussão também trouxe questionamentos sobre acessibilidade, permanência estudantil e inclusão de pessoas com deficiência nos espaços universitários, reforçando a necessidade de que os debates sobre direitos humanos sejam acompanhados por ações concretas de transformação institucional.
União entre universidade e comunidade que precisa ser fortalecida
Outro eixo importante das discussões foi a relação entre universidade e comunidade. Diversas falas apontaram a necessidade de ampliar os espaços de diálogo e construir formas mais efetivas de participação social. Representantes de movimentos sociais e lideranças comunitárias destacaram que muitas vezes as populações em situação de vulnerabilidade precisam enfrentar inúmeros obstáculos para acessar direitos que deveriam estar garantidos.
Nesse contexto, chamou atenção a fala da coordenadora da Associação de Selecionadores de Materiais Recicláveis de Santa Maria (ASMAR), Margarete, que compartilhou experiências relacionadas à luta por acesso à educação, cidadania e reconhecimento social. Ao relatar situações vivenciadas junto a trabalhadores da associação, ela ressaltou a importância de aproximar a universidade das realidades enfrentadas pelas comunidades. “A universidade está aqui. A comunidade está aqui embaixo. E há muito preconceito entre a universidade e a comunidade. As pessoas precisam se conhecer”, disse.
Sua fala provocou reflexões sobre o papel social da universidade e sobre a necessidade de construir projetos que ultrapassem ações pontuais, estabelecendo relações contínuas com os territórios e com as populações atendidas. A discussão foi retomada por diferentes participantes, que defenderam uma atuação extensionista cada vez mais comprometida com a escuta, o diálogo e o reconhecimento dos saberes comunitários.
Cultura, diversidade e compartilhamento de experiências
No turno da tarde, a programação foi retomada com uma apresentação cultural do grupo Dança Mais, coordenado pelo professor Gustavo Duarte. A atividade marcou o início das ações voltadas à troca de experiências entre os projetos de extensão participantes do fórum.
Na sequência, os participantes foram distribuídos em quatro rodas de conversa simultâneas: Educação, Infâncias e Formação Cidadã; Saúde, Bem-Estar e Cuidado; Gênero, Diversidade e Direitos Humanos; e Inclusão Social, Cultura, Territórios e Participação Social. As rodas reuniram representantes de dezenas de projetos vinculados à UFSM, que apresentaram suas ações, compartilharam experiências e discutiram desafios encontrados em suas atuações junto às comunidades.
Mais do que apresentar resultados, os espaços de diálogo permitiram a construção de conexões entre iniciativas que atuam em diferentes áreas, mas que compartilham o compromisso com a promoção dos direitos humanos e a transformação social. Ao longo das discussões, foram abordados temas como educação popular, saúde comunitária, inclusão, diversidade, migração, relações étnico-raciais, sustentabilidade, cultura, participação social e fortalecimento dos territórios
Construindo direitos humanos para todas as pessoas
O encerramento do fórum foi marcado por um momento de integração entre os projetos com um coffee break e síntese coletiva das discussões realizadas ao longo do dia. O momento permitiu compartilhar os principais pontos debatidos nas rodas de conversa e reforçar compromissos assumidos pelos participantes em relação à promoção dos direitos humanos.
As reflexões construídas durante o evento evidenciaram que a defesa dos direitos humanos passa pelo fortalecimento da democracia, pela valorização da diversidade, pela ampliação da participação social e pelo reconhecimento das diferentes experiências que compõem a sociedade. Ao reunir universidade, movimentos sociais, lideranças comunitárias e projetos de extensão em um mesmo espaço de diálogo, o 9º Fórum de Direitos Humanos reafirmou a importância da construção coletiva de caminhos que contribuam para uma sociedade mais justa, inclusiva e comprometida com a dignidade de todas as pessoas.
O 9º Fórum de Direitos Humanos se consolidou como um espaço de escuta, encontro e articulação. Entre diferentes trajetórias, experiências e perspectivas, ficou evidente que a promoção dos direitos humanos exige uma universidade aberta ao diálogo, capaz de reconhecer os saberes construídos nas comunidades e de caminhar para além de seus muros, construindo, junto à sociedade, respostas para os desafios do presente.
Texto: Kelly Duarte, Bolsista de Comunicação ODH/UFSM.
Fotografias: Laura Gassen, Comunicação Social-Relações Públicas/UFSM.