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Mestre Adel: A Tradição da Guascaria Viva em Caçapava do Sul



Entre memória e prática, Adel mantém vivo um ofício que aprendeu com o pai e com a vida no campo.

por Fellipe H. Alves Medeiros

 

Dias de chuva em Caçapava do Sul mudam o ritmo no galpão de Adélio Simão Mendes Ferreira, conhecido como Mestre Adel Guasqueiro. Longe de ser um problema, a umidade amacia o couro cru e deixa o material no ponto ideal para o trabalho, ao contrário do que acontece no tempo seco do verão. O artesão aproveita o clima para abrir sobre a mesa uma peça com mais de meio século de história, ainda firme e servível. Orgulhoso, ele aponta para a relíquia: “Você vê um couro velho, esse aqui mesmo, nunca mostrei para vocês, tem mais de 50 anos de uso”. Com o material em mãos, o mestre trança os tentos com a destreza de quem aprendeu o ofício na infância e recorda como o tempo moldava a sua rotina desde guri: “Dia de chuva era mais prático para lidar com o couro. Ele ficava mais branco, mais fácil de trabalhar. Com tempo úmido, o couro se adapta melhor”.

A trajetória de Adélio começou no Irapuá, distrito rural de Caçapava do Sul marcado por uma paisagem de cerros antigos, forte tradição de campo e herança indígena. Ele resume a infância moldada pelos costumes desse interior de chão batido, terra que carrega a ancestralidade dos povos originários: “Eu nasci na campanha, lá no Irapuá, e trabalhei desde pequeno na lida da chácara, na plantação, na campeirada e em tudo assim”.

Filho de José Bernardino Ferreira e Isabela Mendes Ferreira, o artesã cresceu acompanhando o trabalho do pai, um domador de cavalos bravos e xucros que conhecia a fundo os segredos da lida e o manejo do couro cru. Seu José foi o grande professor, ensinando o filho a ler o tempo e a respeitar o ritmo da natureza: em dia de sol, cuidava-se da terra; quando o tempo virava e a chuva barrava o serviço na lavoura ou com o gado, o refúgio era o galpão.

O mestre ri ao lembrar de como a oficina virava o seu paradeiro nesses dias de inverno ou temporal: “Em chuva não podia ir para o campo. Então ficava em casa, ficava no galpão, e tinha que ter serviço para não fazer muita arte”. Para aproveitar a claridade que teimava em entrar pelo cinza dos dias chuvosos, o pai trazia o guri para perto da porta. “Ali é mais claro para trabalhar. No dia de chuva tem que ficar dentro do galpão, mas quando não está chovendo, a gente fica na porta para trabalhar o couro”, descreve Adélio. 

Foi nessa observação miúda, entre o cheiro da umidade e o som das ferramentas, que ele aprendeu a amaciar a matéria-prima batendo com o macete de madeira e a dar forma às primeiras cordas.

Dessa época de aprendizado no pampa, a lembrança mais viva é o primeiro laço, feito pelo pai sob medida para as mãos da criança. Adélio resgata o episódio com a nitidez de quem guarda o passado no bolso: “Ele me deu o primeiro laço quando eu tinha uns oito anos. Saiu um terneiro por uma fresta da cerca. O terneiro veio para o meu lado e eu lasseei ele. O dono da lida me deu uma terneira por causa daquele laço. Tenho até hoje lembrança disso”. Essa memória da primeira terneira e os ensinamentos da infância foram a base que o sustentou dali por diante.

O pai de Adélio, o domador José Bernardino, faleceu quando o menino tinha apenas 11 anos. A perda precoce jogou o guri direto na lida, fazendo com que ele assumisse as rédeas do ofício que havia aprendido apenas olhando o pai trabalhar no galpão. Dali em diante, coube ao garoto dominar o compasso de amaciar o couro na força do macete e o jeito certo de trançar as tiras para erguer as próprias ferramentas de trabalho.

Ainda menino, Adélio já lidava com cavalos e preparava os xergões para a montaria. A necessidade de fabricar os utensílios para o dia a dia na campanha fez com que ele seguisse praticando as técnicas do pai, salvando da memória um saber tradicional que corria o risco de desaparecer com o tempo. Até hoje, o mestre preserva relíquias daquela infância na campanha de Caçapava, mostrando com orgulho o chicote antigo que guarda como tesouro: “Este rebenque foi feito pelo meu pai, né? Isso aqui se chama rabo de tatu. No tempo em que ele domava, usava isso aqui para tocar os baguais”.

Aos 29 anos, Adélio mudou-se para a zona urbana de Caçapava do Sul para casar e trabalhar. Mesmo mudando de rumo e enfrentando o serviço pesado da lavoura, ele nunca largou o artesanato em couro. A fama de suas peças resistentes logo correu pelos corredores de campo e o interior do município, trazendo vizinhos e campeiros que buscavam o conserto de láticos, sobreláticos, barrigueiras e buçais. Ele conta, rindo, que o buçal novo é meio bagual e brabo na cabeça do cavalo, mas que amansa logo com o tempo de uso e um pouco de graxinha.

Para Mestre Adel, o trabalho manual carrega uma durabilidade que as peças de fábrica não conseguem alcançar. O couro de gado é o sustento de toda a montaria, dando corpo aos laços, às rédeas e às soiteiras dos relhos. É um serviço que exige força bruta, pois o couro precisa ser estapiado, esticado, amaciado e limpo na faca para ganhar aquela brancura correta que o gaúcho valoriza.

O couro industrializado, curtido com química para acelerar o processo nas fábricas, não serve para quem conhece o rigor do dia a dia no campo. O artesão sabe bem onde esse material racha na hora do puxão: “Tem comércio que vende esse material, mas muitos vendem só para revenda. Parece umas cascas secas”. Como o galpão de Adel não tem luz elétrica, o feitio da goasqueria tradicional continua todo na paciência do braço. Ele se orgulha de manter o mesmo ritmo de antigamente: “Eu ainda estou na moda antiga, de garrotear o couro no macete. O bruto ainda existe, e são poucos que fazem assim, só na força e no macete”.

Adélio explica que o couro de curtume é trabalhado com costura de linha, um método que acaba fragilizando a peça com o tempo. O guasqueiro aponta a diferença do seu fazer: “Já esse aqui é trabalhado com couro, com tento de lonca de cavalo, por isso dura mais”. Nessa arte, a pele fina e resistente do cavalo é o que amarra toda a estrutura, dispensando totalmente os fios de algodão ou nylon das fábricas. Muitos clientes chegam ao galpão com láticos comprados em lojas, reclamando que as tiras quebram por falta de tratamento adequado na indústria. 

Embora já tenha visto em cursos universitários o funcionamento de máquinas modernas para amaciar a matéria-prima, Adel nota que o maquinário rouba a textura e a flexibilidade do material. A preferência do mestre continua sendo o processo manual no tempo úmido da chuva, sabendo que o cavalo oferece o tento fino e firme para os acabamentos, enquanto o gado entrega a força bruta para o arreio.

Essa busca por resistência também resgata técnicas antigas da herança indígena que ele traz guardada na memória e na ponta dos dedos. Um exemplo vivo desse passado é a bota de garrão de potro, um calçado rústico feito sem moldes ou costuras, retirado inteiro da perna do animal. O mestre ensina o ofício demonstrando o movimento com as mãos: “A bota garrão de potro era feita do garrão do animal. Tinha que secar e tirar inteira, sem riscar. Virava do avesso e colocava uma madeira por dentro para secar sem fechar, para não craquelar o couro, e assim caber na canela”. Ele lembra que o calçado tradicionalmente deixava os dedos dos pés descobertos, um detalhe fundamental para dar mais firmeza ao peão na hora de firmar o pé no estribo.

Da mesma forma, para montar as boleadeiras, Adélio busca na fauna local os materiais capazes de aguentar o impacto do uso no campo. Ele resgata a origem da peça que hoje adorna o galpão: “Esta aqui era a arma dos índios para pegar os bichos baguais”. Para encapar as pedras que ele mesmo esculpe, o artesão utiliza a pele da barriga do tatu-peludo ou o couro de lagarto, matérias-primas conhecidas pela longevidade. Adélio descreve o processo desse feitio: “Cobria-se a pedra com o couro da barriga do tatu-peludo. Também se usava couro de lagarto, que é muito forte”. Por dentro das cordas de couro que ligam as três pedras da boleadeira, o mestre utiliza couro de gato torcido, o segredo antigo que garante a flexibilidade e a força necessárias para suportar o movimento do arremesso no meio do campo.

Nos últimos anos, a rotina pacata do guasqueiro ganhou visibilidade fora do galpão. Em abril de 2024, ele ministrou uma oficina prática no I Seminário de Notórios Saberes da Universidade Federal de Santa Maria, a UFSM. Entre fevereiro e março de 2025, participou como expositor na Recepção Estudantil e na Semana Descobrindo os Notórios Saberes, levando a cultura e o cheiro do campo para dentro do ambiente universitário.

O encontro com as novas gerações de estudantes rendeu boas histórias. Adélio conta, com bom humor e um sorriso no rosto, sobre um médico traumatologista de Caçapava do Sul que frequentava suas oficinas na universidade. O doutor dizia brincando que ia até lá mais pela merenda, mas acabou fisgado pela arte do trançado e saiu de lá sabendo erguer um porta-cuia de couro.

Apesar do reconhecimento acadêmico, Adélio mantém a modéstia típica dos homens da campanha. Ele quase recusou os primeiros convites da UFSM por achar que não tinha o estudo ou a técnica refinada que as salas de aula exigiam. O mestre desabafa, deixando de lado qualquer vaidade: “O meu serviço é mais grosseiro, não é muito aperfeiçoado não. É forte, mas não é muito bonito, não”. Ele prioriza a utilidade prática no dia a dia do pampa e faz questão de elogiar seu colega de ofício, o guasqueiro Batista, a quem considera o verdadeiro especialista no acabamento e nas bainhas de faca detalhadas.

Para Adel, o companheiro domina a parte estética da guascaria e tem o perfil ideal para o ensino formal. Ele afirma, sem nenhuma ponta de inveja, reconhecendo o valor do outro: “O Batista trabalha muito bem. Ele tem condições de fazer cursos, participa de seminários fora do estado, no Uruguai também”. Ainda assim, ciente de que muitos jovens hoje evitam o trabalho pesado de limpar e preparar a matéria-prima, Adel entende a importância de passar o conhecimento adiante e alerta sobre o risco do esquecimento: “É muito importante ensinar, porque se a gente não der continuação, vai terminar os que lidam com couro”.

Aos 82 anos e aposentado da lavoura, Adélio hoje divide o tempo entre o galpão e os cuidados com uma horta de verduras no fundo de casa. Ele confessa, com a serenidade de quem já cumpriu sua jornada na terra: “A guasqueria hoje é mais um entretenimento, algo que eu gosto de fazer”. A atividade tornou-se um passatempo e a melhor forma de preservar suas próprias memórias. Quando uma ideia surge na entrada do galpão, ele apenas pega a faca e puxa o tento. Enquanto trabalha o couro cru na ponta dos dedos, mantém viva a tradição herdada de Seu José Bernardino e a identidade forte do Irapuá. E sempre que o céu nubla no pampa caçapavano, ele já sabe que é hora de se achegar para a porta e preparar o couro para mais uma trança.

 
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