No
Brasil, o acesso integral, universal e gratuito aos serviços de saúde é direito
de todo cidadão. O Serviço Único de Saúde (SUS), todos os anos, beneficia
milhões de brasileiros ao realizar desde procedimentos ambulatoriais simples a
atendimentos de alta complexidade, como transplantes de órgãos.
Apesar
de ser considerado como um dos maiores e melhores sistemas públicos de saúde do
mundo, formar profissionais capacitados para atuar nessa área é um grande
desafio enfrentado tanto na gestão pública quanto no âmbito
acadêmico.
A fim
de proporcionar um novo espaço de aprendizagem relacionado ao cotidiano de
trabalho das organizações e serviços de saúde, surgiu o projeto Vivências e
Estágios na Realidade do Sistema Único de Saúde (VER-SUS). Trata-se de uma
experiência de imersão teórica, prática e vivencial com duração entre sete e 15
dias, de forma transdisciplinar, com a participação de estudantes da graduação,
residentes técnicos e movimentos sociais. Durante esse
período, além de debater questões intrínsecas ao SUS, os participantes ficam
hospedados juntos para que ocorra a troca de experiências e, dessa forma, uma
sensibilização maior.
A
edição de verão 2015 VER-SUS Santa Maria ocorreu entre os dias 13 e 25 de
janeiro e teve apoio da Pró-Reitoria de Extensão, do Diretório Central dos
Estudantes (DCE), do Movimento Estudantil e Coletivo Sou SUS.
Depois
de passar por uma seleção por meio de cartas de intenção, cerca de 40 pessoas
puderam participar das atividades, sendo elas inscritas como viventes (1° vez
no evento), facilitadores (já participaram de outras edições) ou comissão
organizadora.
Durante
12 dias, os integrantes do grupo ficaram alojados no Centro de Eventos da UFSM
e promoveram debates em uma plenária, pautando questões políticas e sociais e
as diretrizes que norteiam o SUS. Além disso, o espaço foi aberto para questões
que abrangem movimentos sociais e discussão de gêneros.
Foram
feitas também algumas visitas a comunidades carentes e a instituições como o
Centro de Atenção Psicossocial (Caps), o Centro de Referência em Saúde do
Trabalhador (Cerest) e o Hospital Universitário de Santa Maria (Husm).
Priscila
Souza, estudante do 6° semestre de Fisioterapia, e Rafaella Codeim, estudante
do 5° semestre de Psicologia da UFSM, trabalharam ativamente para a realização
do evento. Ambas acreditam que há uma grande necessidade na promoção de eventos
que agreguem “senso de realidade” à formação do profissional da saúde. Segundo
elas, o estudante, ao se formar, tem pouca noção do que poderá encontrar no
mercado de trabalho, das condições, e principalmente, dos problemas e
precariedades do sistema. “Cerca
de 60% das pessoas que se formam na área da saúde vão atuar no SUS e a formação
não é voltada para isso. É preciso reforçar essa necessidade”, destaca
Rafaella.
Na
sexta-feira (23), o grupo fez uma visita ao Loteamento Estação dos Ventos, onde
cerca de 1,5 mil famílias vivem sem água e luz em condições legais nas
residências. Não há postos de saúde na comunidade e os moradores enfrentam
dificuldades para garantir a vacinação. Além disso, não há estradas de acesso
em boas condições, o que pode interferir em casos de atendimento ambulatorial.
Aparício
Rodrigues, o Tito, líder da comunidade, recebeu os alunos e levou-os para
conhecer o lugar e, assim, terem algumas noções básicas, mas reais, do que
poderão encontrar futuramente. Depois de apresentar algumas problemáticas da
saúde pública atrelada ao movimento de luta por moradia, Tito elogiou a
iniciativa e ressaltou a importância de se conhecer a realidade. “Sempre tive a
visão de que o profissional é mais do que uma ‘cadeira’ da grade curricular.
Essa ativa participação na comunidade deveria contar no currículo. Isso pode
motivar os alunos a buscar soluções e ter maior interesse nas questões sociais”,
diz.
A
estudante do curso de Medicina da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) campus
Passo Fundo Marien Edina Foresti, 21 anos, vivenciou pela primeira vez as
atividades de imersão do VER-SUS. Ela descreve como uma
“experiência impactante”, uma vez que novas perspectivas são levantadas sobre a
ética e a política da saúde pública, direito de todo cidadão. “Todos os espaços
de debate estão sendo muito bons e construtivos. A gente consegue ter um
entrosamento maior com pessoas de outros cursos, de outras áreas, e, assim, ter
olhares diferentes sobre a mesma coisa e ver a importância que se deve dar
àquilo”, ressalta.
O
VER-SUS também chamou a atenção de Anaclara Ernandez, que tem 20 anos e cursa
Psicologia na Universidad de
(Udelar)
amigo e veio de Montevidéu para prestigiar o evento. Depois de participar da edição
de Passo Fundo, que ocorreu no início desse ano, veio para Santa Maria. Apesar
de destacar algumas diferenças entre o sistema público de saúde de seu país, a
estudante acredita que, assim, consegue despertar uma visão ampla sobre o
conceito de saúde e ter uma aprendizagem bem mais significativa e
interdisciplinar.
O
evento ocorre em todo o país e para participar o estudante precisa se inscrever
como vivente, facilitador ou comissão organizadora, preenchendo o cadastro
conforme as orientações disponíveis no site (http://www.otics.org/estacoes-de-observacao/versus)
ou nos blogs sobre o evento.
Texto e fotos: Tainara
Liesenfeld – acadêmica de Jornalismo, bolsista da Agência de Notícias


