Ouvir o som de um latido, jogar uma bolinha para o cão buscar ou simplesmente dividir a companhia de um animal de estimação pode parecer parte comum do dia a dia de quem convive com cães. Apesar disso, essas vivências podem contribuir para o bem-estar psicológico de quem precisa. Apresentar esse potencial foi o objetivo do 1º Seminário de Cinoterapia, ou Terapia Assistida por Cães, realizado no Auditório do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) nesta sexta-feira (12).

O evento foi realizado em alusão aos oito anos de existência do projeto Cinoterapia no Hospital Universitário de Santa Maria (Husm). A iniciativa foi organizada pelo Grupo de Pesquisa Cuidado em Saúde Mental e Formação em Saúde, vinculado ao curso de Enfermagem da UFSM e liderado por Daiana Foggiato, enfermeira e doutora em Enfermagem. Durante a abertura do Seminário, ocorrida nesta manhã, Daiana destacou que “esse projeto representa um avanço quanto às instituições. Hoje trouxemos os resultados, os relatos e como o projeto é visto pelo público”.
Na sequência, a diretora do CCS, Maria Denise Schimith, ressaltou que o projeto rompe barreiras pois questiona a racionalidade biomédica. “Temos que questionar outras possibilidades que também proporcionam saúde para a comunidade. Não são apenas os remédios que fazem a diferença. Os anos de extensão a pesquisa deste projeto trazem motivos para celebrar”, disse.
A vice-reitora da UFSM, Martha Adaime, esteve presente entre os membros da mesa de abertura. Em sua fala, reforçou a importância dos parceiros da Universidade e frisou a relevância do projeto em um contexto em que a saúde mental é uma preocupação coletiva. “A terapia, que antes parecia fraqueza, hoje sabemos que é um sinal de maturidade. E também entendemos que, intuitivamente, os animais melhoram nossos dias e hoje vamos ver resultados científicos que comprovam isso na prática”, afirmou.
A mesa de abertura também foi composta pelo superintendente do Husm, Humberto Palma; pelo Major do quadro de oficiais do Estado-Maior, Mateus Bastianello; pelo comandante do segundo Canil do Batalhão de Busca e Salvamento, o primeiro sargento Jaubert Ribeiro; e pela chefe da Unidade de Saúde Mental do Husm, Helena Moro Stochero.
Ciclo de palestras aborda efetividade e repercussão da cinoterapia
A palestra de abertura do Seminário foi realizada pela psicóloga e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFSM, Priscila Zubiaurre. Na ocasião, a estudante apresentou pesquisas que investigaram a percepção de usuários, familiares e trabalhadores sobre a cinoterapia. O estudo, realizado em forma de pesquisa quantitativa, descritiva e exploratória, foi desenvolvido por meio de entrevistas semiestruturadas com questões sobre perfil sociodemográfico e assuntos relacionados à cinoterapia.

Entre os resultados encontrados, Priscila destacou que os usuários percebem a cinoterapia como uma prática humanizada e terapêutica. Além disso, os participantes destacaram que a técnica promove sentimentos de aceitação e familiaridade por meio da interação com o cão. A pesquisadora disse ainda que sentimentos de distração, liberdade, afeto, proteção, confiança e tranquilidade foram citados pelos usuários que participaram do estudo.
Durante a apresentação, Priscila compartilhou trechos das entrevistas e, para preservar a identidade dos participantes, optou por identificá-los apenas pela letra “U”, de usuário. Entre os relatos exibidos, um deles destacou o impacto afetivo da presença dos cães: “Dá segurança para o ser humano […] Entendo ser uma terapia através dos cães para a pessoa fazer um carinho […] quem sai beneficiado não é só o cachorro, mas nós também”, afirmou um dos participantes.
O evento seguiu ao longo da manhã e da tarde com palestras que abordaram pesquisas acadêmicas sobre os efeitos da cinoterapia, relatos de experiências em unidades de saúde mental e na atuação de bombeiros cinotécnicos. As apresentações também destacaram impressões de trabalhadores e usuários, além da presença da cinoterapia nas mídias e seus impactos na percepção pública. A programação detalhada por ser conferida no aqui.
Cães-terapeutas marcam presença no encerramento do Seminário
O encerramento do Seminário foi marcado pela participação de cães-terapeutas dos Bombeiros Militares Cinotécnicos. Segundo 1º sargento do Quadro de Praças Bombeiros-Militares, Alex Sandro Teixeira Brum, hoje o grupo conta com oito cães, sendo que apenas três participam das atividades do projeto de Cinoterapia do Husm. “Levamos em consideração que o condutor saiba atuar na atividade e que o cão se sinta confortável. Temos muita atenção com o bem-estar animal e, por isso, sempre indicamos os cães mais sociáveis e que aceitem bem o toque e o carinho, já que faz parte do processo da cinoterapia”, explicou.
Brum ainda salientou sobre o valor da parceria entre as instituições públicas para o bem comunitário e avanço na produção de conhecimentos científicos. “Esse projeto se tornou de grande importância e hoje temos um grande papel nessas pesquisas. São duas instituições públicas que se unem para entregar melhores resultados para a sociedade”, reforçou o sargento.
O projeto de Cinoterapia do Husm
Fundado em 12 de dezembro de 2017, o projeto é oferecido para pacientes da Unidade de Saúde Mental do Husm. Uma vez por semana, cães de busca e resgate do 4º batalhão de Bombeiros Militares da cidade realizam visitas aos pacientes da Unidade. Atualmente, as sessões ocorrem nas terças-feiras e possuem duração de uma hora.
Mais informações sobre a iniciativa podem ser conferidas no site do Verdadeiramente e na reportagem da TV Campus, produzida em 2022.
O futuro do Seminário
Conforme Daiana Foggiato, o evento trouxe grande satisfação ao público e surgiu devido a solicitações para que o grupo divulgasse os resultados recolhidos ao longo da existência do projeto. Daiana ainda compartilhou suas expectativas para as próximas edições do Seminário. “Completamos oito anos de projeto e já estava na hora de compartilharmos esses conhecimentos. Esperamos fazer outro quando o projeto completar dez anos e trazer novas evidências e dados sobre o potencial da cinoterapia”, previu a enfermeira.
Texto: Pedro Moro,estudante de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Edição: Mariana Henriques, jornalista