
Quem passa pela Rua Floriano Peixoto, no centro de Santa Maria, agora se depara com uma composição de cores vibrantes que transforma a paisagem urbana. Tons de azul, vermelho, amarelo e verde dão forma ao mural Ubuntu Terra Viva, inaugurado na noite de quarta-feira (25) no Complexo Multicultural Antiga Reitoria. A obra traz novos significados ao espaço e marca a celebração da cultura e da memória afro-gaúcha.
A obra e seus significados
Finalizado em janeiro deste ano, após quase dois meses de produção, o mural ocupa a área externa do prédio da Antiga Reitoria da UFSM, no centro de Santa Maria. A obra foi idealizada pelo artista e muralista Braziliano e executada em 21 dias de pintura, dentro de um processo que envolveu pré e pós-produção, além de uma operação técnica complexa em altura.
A composição faz referência à população afro-gaúcha e às suas riquezas culturais. Rostos negros ocupam posição de destaque, acompanhados por elementos simbólicos como as sete ervas e a pomba branca, que representa o orixá Oxalá. As sete ervas carregam significados ancestrais: arruda (proteção), guiné (limpeza espiritual), alecrim (equilíbrio e alegria), manjericão (harmonia), espada-de-são-jorge (defesa), levante (renovação) e comigo-ninguém-pode (proteção espiritual).
Além de Braziliano, participaram da execução Alexon Messias, Amanda Rodrigues, Cauê Toledo e Israel Caetano. Segundo o muralista, o trabalho exigiu uma equipe com conhecimento técnico específico para atuação em grandes superfícies.
Espaço de circulação e aproximação com a comunidade
A escolha do local para a instalação do mural foi estratégica. De acordo com a coordenadora de Cidadania da Pró-Reitoria de Extensão (PRE) da UFSM, Cassiana Marques da Silva, o prédio recebe, em média, de 200 a 300 pessoas por dia, o que representa cerca de 100 mil visitantes ao ano. “É um prédio muito vivo, muito pulsante, porque nós temos vários projetos que são realizados aqui para a comunidade de Santa Maria”, afirma.
A gestora do Complexo, Jeanne Mainardi, destaca que o espaço funciona como porta de entrada da comunidade para a Universidade. Segundo ela, a revitalização do prédio contribui para aproximar o público e ampliar o acesso às iniciativas desenvolvidas no local. Nesse contexto, a obra também atua como elemento de convite e curiosidade sobre o que acontece no interior do local.
A iniciativa integra um projeto de rotas turísticas em comunidades quilombolas, financiado pela Fundação Cultural Palmares. Em 2024, a UFSM recebeu R$ 360 mil para o desenvolvimento do programa “Afroturismo no centro do Rio Grande do Sul: Identidade e Tradição”.
O programa promove o protagonismo da juventude negra nas comunidades quilombolas da região da Quarta Colônia. Entre as ações, estão a produção de materiais gráficos e informativos sobre a trajetória dessas comunidades, o fortalecimento da visibilidade de seus saberes e o incentivo ao afroturismo e à economia circular e criativa.

Intervenção artística no evento
A programação de inauguração contou, ainda, com uma intervenção da Royale Escola de Dança e Integração Social, em homenagem a Dandara dos Palmares. A coreografia apresentada é inspirada no espetáculo “E as meninas rebeldes vão à luta”, de 2018, e foi adaptada para a ocasião. “A gente pesquisou sobre figuras femininas na história e decidiu trazer a trajetória da Dandara”, explica Layana da Rosa Ferreira, uma das bailarinas.
Ao final do evento, foi realizado o descerramento de uma placa, com a presença dos artistas e do vice-reitor, Tiago Marchesan. O material inclui um QR Code que direciona o público ao site da UFSM, com informações sobre as comunidades quilombolas do centro do Rio Grande do Sul.
Texto: Júlia Zucchetto, estudante de Jornalismo e estagiária da Agência de Notícias
Fotos: Mathias Ilnick, estudante de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Edição: Mariana Henriques, jornalista