No dia trinta e um de março, o golpe que instaurou a Ditadura Civil-Militar no Brasil completa 62 anos. Em Santa Maria, uma cidade marcada pelo trem e pela farda, a data é marcada como um registro nos livros de história e uma cicatriz que ainda vive na memória de quem viveu a repressão.
Nos anos 1960, o dia de um grupo de jovens normalmente terminava em um pátio na Rua Pinheiro Machado. Ali, nos fundos da casa de um advogado local, estudantes jogavam futebol. Entre os rostos suados e a disputa pela bola, estava um futuro capitão do Exército que, ocasionalmente, juntava-se à “pelada”. Para o jovem estudante secundarista do Maneco, Dartagnan Luiz Agostini, aquele era apenas o irmão de um colega. Ele não sabia, mas anos depois, o mesmo homem que dividia o gramado com ele seria o rosto do terror em um dos porões mais sombrios do país.
Um ciclo de rupturas
O professor de história do Colégio Politécnico da UFSM, Leonardo Botega, explica que 1964 não foi um evento isolado. “Foi o fechamento de um ciclo de tentativas de tomadas de poder que vinha desde o suicídio de Getúlio Vargas em 1954 e as crises de 55, 56, 59 e 61”, contextualiza.
Segundo Botega, o discurso oficial da época, alimentado por setores da imprensa empresarial e das elites rurais, vendia a ideia de uma “Revolução Democrática” para salvar o país de uma suposta “República Sindicalista” liderada por João Goulart. “O real motivo foi a oposição ferrenha às Reformas de Base. Era a lógica da manutenção dos interesses empresariais e latifundiários acima de tudo”, destaca o professor.
Santa Maria, a “Cidade Partida”
Enquanto a ditadura iniciava no país, Santa Maria ganhava contornos de “Cidade Partida”, termo utilizado pelo professor e historiador da UFSM, Diorge Konrad, para descrever a divisão entre a forte tradição trabalhista dos ferroviários e o massivo contingente militar da região.
“Santa Maria já era o segundo maior contingente militar e tinha uma tradição trabalhista consolidada. A cidade se dividiu”, explica Konrad. De acordo com o docente do Departamento de História e um dos coordenadores do Cálice – Grupo de Estudos sobre a Ditadura Civil-Militar, a repressão no município foi imediata e estratégica. “Os ferroviários, que tentaram uma greve no primeiro dia de abril daquele ano, foram os primeiros alvos. Onofre Dornelles foi preso, torturado no Regimento Mallet e morreu na Casa de Saúde em decorrência das sequelas. Foi o primeiro morto pela ditadura na cidade”, revela.
Dentro da UFSM, Konrad aponta que, a partir de 1968, com o AI-5, a vigilância tornou-se cotidiana por meio das Assessorias Especiais de Serviço de Informações (AES), instaladas no quinto andar da reitoria. “Temos registros de mais de mil documentos do Serviço Nacional de Informações (SNI) vigiando estudantes e professores. A universidade era um laboratório da vigilância”, pontua.
“Boêmio, Carreteiro e Vanguarda”
A luta pela resistência ocupava as mesas de bar da cidade. No livro “Relatos de um militante”, Dartagnan conta que, na Avenida Rio Branco, o Moby Dick, era o porto seguro da intelectualidade progressista da época. “Tínhamos poucos recursos, o consumo era mínimo, mas o proprietário, o Cláudio, nos oferecia um carreteiro gratuito a cada ano”, conta Dartagnan. Esses encontros boêmios serviram de base para a criação do Grupo Vanguarda Cultural. Ali, entre intelectuais e estudantes, debatia-se a cultura como ferramenta fundamental para coesionar a sociedade brasileira contra o regime. Para Dartagnan e seus pares, fazer cultura era um ato político de formação da juventude para o fim da ditadura e a redemocratização do país.
Do congresso clandestino para os porões do DOI-CODI
Dartagnan viveu essa vigilância na pele. Em 1967, ele era um dos dois delegados escolhidos por Santa Maria para participar do Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Belo Horizonte, um evento que ocorria no porão de uma igreja. “O movimento estudantil era aberto antes de 1964. Depois, foi cerceado. Em Santa Maria, éramos poucos, cerca de 3 mil universitários, mas uma vanguarda organizada”, recorda.
A aventura clandestina terminou em prisão. Segundo Dartagnan, o cárcere se deu após um acordo de “salvaguarda” que não foi cumprido pela polícia estadual. Ele e outros estudantes, incluindo o futuro político e estudante de direito na época, Tarso Genro, foram capturados pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).
“Ficamos dias incomunicáveis. Havia uma tortura psicológica forte: ‘nós vamos te matar, sabemos quem é você’, mas ainda não havia a agressão física sistemática. A repressão ainda não era ‘científica’ “, conta.
A consciência da dor veio anos depois. Já formado em engenharia e trabalhando em uma obra da Petrobras na Serra do Mar, Dartagnan foi preso novamente em 1971. O destino foi o DOI-CODI, em São Paulo, o epicentro da Operação Bandeirante. Ali, o engenheiro reencontrou o “companheiro de futebol” de Santa Maria: o agora Major Carlos Brilhante Ustra, chefe do centro de tortura.
“Ele me perguntou: ‘sabe quem eu sou?’. Eu disse: ‘claro, te conheço do bairro Pinheiro Machado’. Ele ficou meio chateado com a resposta”, relata Dartagnan.
O engenheiro passou dois meses em São Paulo e outros dois no DOPS, em Porto Alegre. Ele descreve um método de desestruturação psíquica: “Eles te chamavam na cela, faziam um carnaval, davam choque e te mandavam embora. Duas horas depois, te buscavam de novo. Tu nunca sabia quando tinha terminado. O objetivo era não te deixar raciocinar”.
O jogo era pela sobrevivência. “Tu fica psicologicamente destroçado. Tem que ter muita força de vontade para não cair no desespero. Eu queria sobreviver, mas não queria contar nada que causasse a morte ou a prisão de mais ninguém. Era um jogo de medir o que falar”, explica.
O dever da memória e a herança do silêncio
A saída dos militares, descrita por eles como “lenta, gradual e segura”, deixou heranças que os historiadores apontam como entraves para a democracia atual. Para Leonardo Botega, a Lei de Anistia de 1979 garantiu a não punição de torturadores e moldou uma estrutura frágil. “A transição criou um grande problema: a lógica da não punição aliada à autonomia militar. Isso gera uma perspectiva social aberta aos negacionismos”, alerta o professor.
Diorge Konrad reforça que o autoritarismo ainda molda a formação social brasileira. “O Brasil possui uma sociedade fortemente autoritária. Estruturas como a autonomia das polícias militares estaduais são heranças vivas desse período. Temos a polícia que mais mata e que mais morre, atuando em guerra permanente contra a sociedade civil”, enfatiza.
Dartagnan Agostini, que após o exílio interno e a redemocratização decidiu cursar História, transformou sua vivência em objeto de estudo. Sua motivação? A plena consciência de que a luta de sua geração era por um Brasil que diminuísse a disparidade entre ricos e pobres, um projeto que, segundo ele, foi abortado pelo golpe.
Hoje, aos 83 anos, o engenheiro e historiador guarda as marcas psicológicas e a compreensão de que o silêncio é a ferramenta predileta do autoritarismo. A história de Dartagnan serve como um lembrete: a democracia não é um estado permanente, mas uma construção que exige, acima de tudo, o fim do esquecimento.
Texto: Isadora Bortolotto, estudante de Jornalismo e voluntária na Agência de Notícias
Imagens: Reprodução do livro “Relatos de um militante”, de Dartagnan Agostini, e Arquivo Pessoal
Foto: Daniel Michelon De Carli, designer
Edição: Maurício Dias, jornalista