Talvez o escritor Itamar Vieira Junior não imaginasse que a história das irmãs Bibiana e Belonísia ultrapassaria as páginas do seu romance para ganhar novas vozes na música brasileira. “Terra aqui só tem valor se tem trabalho / (…) Gente aqui não tem valor, só tem trabalho”, cantam Rubel, Liniker e Luedji Luna em “Torto Arado”, canção inspirada na obra homônima do escritor baiano de 46 anos. Publicado em 2018, o romance acompanha a vida de trabalhadores rurais no sertão da Bahia e aborda temas como ancestralidade, racismo estrutural, disputa por terra e resistência de comunidades descendentes de escravizados.
Finalizado em 2017, logo após a defesa de sua tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos da Universidade Federal da Bahia, o romance marcou a estreia de Itamar Vieira Junior na literatura. O livro foi aclamado pela crítica, venceu o Prêmio LeYa, um dos mais importantes da literatura em língua portuguesa, além dos prêmios Jabuti, Oceanos e Montluc Résistance et Liberté, transformando Itamar em um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea.

O geógrafo e servidor público do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), autarquia federal responsável pela administração das terras públicas da União e pela política de reforma agrária, viu sua rotina mudar radicalmente. O trabalho de escritório e as saídas de campo deram lugar a viagens pelo Brasil e pelo exterior para participar de feiras literárias, debates e sessões de autógrafos.
Cinco anos após o sucesso de seu romance de estreia, Itamar retornou às livrarias com “Salvar o Fogo”, lançado pela editora Todavia, segundo volume da trilogia da Terra. Mantendo a trajetória de reconhecimento iniciada por seu antecessor, a obra rendeu ao autor seu segundo Prêmio Jabuti e também alcançou forte desempenho comercial, com cerca de 37 mil exemplares vendidos ainda na pré-venda.
Em 2025, o autor encerrou sua trilogia com “Coração sem Medo”. Diferente dos romances anteriores, marcados pela vida rural, a nova obra desloca o olhar para o espaço urbano, retratando a cidade como local de conflitos e desigualdades. No romance, o leitor acompanha Rita Preta, mãe de três filhos, em meio à busca por um deles, desaparecido em Salvador. No mesmo ano, o autor também lançou um curso de escrita com 12 aulas, iniciativa que apresentou como uma tentativa de ampliar e democratizar o acesso à formação literária no Brasil.
Como parte da divulgação de sua obra, em parceria com o Serviço Social do Comércio (Sesc), Itamar Vieira Junior está percorrendo o Rio Grande do Sul com o Circuito Sesc de Literatura. Em Santa Maria, a atividade – realizada em parceria com o Centro de Artes e Letras – acontece nesta terça-feira (12), às 19h, no auditório do prédio 42, no Centro de Ciências Rurais. Inicialmente previsto para acontecer no Teatro Caixa Preta, o encontro precisou ser transferido para um local maior devido à alta procura do público.
Na manhã do dia do evento, Itamar Vieira Junior concedeu entrevista à Agência de Notícias. Em um dia em que as mínimas alcançaram cerca de 4 °C em Santa Maria, o escritor baiano comentou, em tom descontraído, que, mesmo após tantas viagens, “nunca está preparado para o frio”. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Agência de Notícias: Antes de se tornar um escritor nacionalmente reconhecido, você atuou como pesquisador e desenvolveu uma tese de doutorado sobre a vida e as relações de trabalho na Chapada Diamantina. De que forma essa experiência de escuta e convivência com comunidades rurais influenciou a construção do universo de “Torto Arado”?
Itamar Vieira Junior: Quando cheguei para realizar esse trabalho, encontrei aquela realidade no campo e pude entender realmente o que era aquilo. Não só as relações de trabalho, mas uma vida social ainda muito marcada por eventos que achamos que já superamos, como a colonização e a escravidão. Acompanhar isso de perto me permitiu dar profundidade e densidade ao que eu queria escrever. Tenho certeza de que, se essa experiência não tivesse acontecido, eu poderia até ter escrito o livro, mas seria outra história. Ela não traria as referências da realidade que traz.
Agência de Notícias: Você começou a escrever “Torto Arado” ainda aos 16 anos. Como foi o processo de construção da obra ao longo dos anos?
Itamar Vieira Junior: Aos 11 anos, ganhei uma máquina de escrever dos meus pais. Acho que eles já me observavam escrevendo e quiseram me dar alguma coisa para eu ficar entretido e quieto, porque eu era muito inquieto. Foi nessa máquina que, aos 16 anos, comecei a escrever essa história. O mote já era o mesmo: duas irmãs, a relação delas com o pai e com a terra. Mas essa história foi se modificando ao longo do tempo. Quando cheguei na página 80, abandonei a escrita. Primeiro porque não tinha maturidade, com 16 anos, para concluir o que estava escrevendo. Depois, porque acho que para escrever precisamos de tempo, de experiência, de vida. Tudo que escrevemos é a vida que nos dá. E eu ainda não tinha isso. Foi ótimo ter esperado 20 anos para retomar esse livro. Eu tinha perdido as páginas originais e precisei reescrever tudo de memória. Claro que já escrevi com outra experiência de vida e também com outra experiência literária. Ao longo desses anos, pude ler muitos autores importantes para que eu encontrasse a minha própria voz literária.
Agência de Notícias: Depois de anos escrevendo longe dos grandes centros literários, “Torto Arado” foi enviado ao Prêmio LeYa sob pseudônimo e acabou rompendo um jejum de mais de uma década sem vencedores brasileiros. O que passou pela sua cabeça ao perceber que uma história profundamente ligada ao sertão, à oralidade e às relações de trabalho no interior da Bahia conseguia atravessar fronteiras e ter seu primeiro grande reconhecimento fora do Brasil?
Itamar Vieira Junior: Eu só mandei o livro para esse prêmio porque não tinha uma editora no Brasil para publicá-lo. Já tinha publicado dois livros de contos antes, e os dois também passaram por prêmios literários locais. Quando terminei “Torto Arado” e considerei que o livro estava pronto, o único prêmio com inscrições abertas era o Prêmio LeYa. Eu já tinha ouvido falar, mas não sabia exatamente o que era. Resolvi enviar, mas sem nenhuma expectativa. Foi quase um envio protocolar, porque eu queria começar a escrever outras coisas. Seis meses depois, recebi a notícia de que o livro tinha vencido. Confesso que não imaginava isso pela história que ele conta. Parece uma narrativa anacrônica para o tempo em que vivemos, um mundo mais urbano, e o livro ainda falando de campo e ruralidade. Mas fui contrariado pelo júri. Esse prêmio foi muito importante porque, pela primeira vez, me colocou nesse lugar de autor. A partir dali, comecei a viajar para Portugal, participar de feiras literárias, falar com a imprensa. Seis meses depois, o livro foi publicado no Brasil e, pouco a pouco, foi conquistando leitores. Sem o Prêmio LeYa, acho que a história desse livro teria sido outra.
Agência de Notícias: Em entrevistas anteriores, você afirmou que nenhum autor pode ser unanimidade diante da complexidade humana. Como você observa o fato de “Torto Arado” ter ultrapassado os círculos literários e se transformado em um raro fenômeno de consenso entre crítica, mercado editorial, academia e redes sociais?
Itamar Vieira Junior: Se olharmos na superfície, pode até parecer uma unanimidade, mas a leitura é algo muito pessoal. Sempre haverá leitores que aquela história não toca. Ainda assim, reconheço que o livro conquistou muitas coisas ao longo desses sete anos de publicação. Hoje o livro já foi traduzido para mais de 30 idiomas e circula em mais de 50 países. E isso é muito especial porque nunca imaginei que essa história chegaria tão longe. Talvez, para nós brasileiros, seja mais fácil entender essa conexão, porque existe um desejo de conhecer o Brasil em toda a sua diversidade. Mas, para o leitor estrangeiro, acho que o que permanece são as emoções que a história transmite. O mais bonito é perceber como o livro ganhou outras formas de vida. Hoje existem peças de teatro inspiradas nele, um musical, músicas, obras de arte. Recebo constantemente mensagens de leitores e artistas que criaram algo a partir da obra. Então é muito bonito ver que o livro encontrou tantos leitores pelo caminho.
Agência de Notícias: Mesmo depois do reconhecimento literário você continuou trabalhando como servidor no Incra. Como é equilibrar essa vida com a produção literária?
Itamar Vieira Junior: Estou há três anos de licença sem remuneração. Existia essa possibilidade e me afastei para viver essa experiência nova como autor, poder circular e participar de feiras literárias, porque antes eu só conseguia fazer isso nos finais de semana. Também começaram a surgir muitas traduções dos romances fora do Brasil e eu já não conseguia conciliar as agendas. Então tenho me dedicado à literatura. Às vezes sinto falta da rotina, do trabalho no escritório, do trabalho no campo. Mas também não posso reclamar do trabalho que faço hoje, porque chego nos lugares para falar sobre livros. Essa sempre foi a minha paixão: a leitura, a literatura e, agora, também a escrita. Vou aos eventos e encontro leitores, pessoas que gostam de literatura como eu gosto, e essa troca é muito forte, muito positiva. Ainda não sei o que vai acontecer no futuro, se vou me afastar definitivamente ou tentar conciliar as duas coisas, como fiz durante muito tempo. Acontece que tudo cresceu muito e eu já não conseguia equilibrar as agendas. Mas, se fosse como nos primeiros livros, eu conciliaria tranquilamente.
Agência de Notícias: Você já disse rejeitar o título de realismo mágico nas suas obras, preferindo tratar elas como obras ancestrais e místicas. Que recado você deixaria para as pessoas que tentam enquadrar sua obra como algo folclórico?
Itamar Vieira Junior: Acho que, talvez por desconhecimento, as pessoas façam esse tipo de leitura. Mas o Brasil tem uma diversidade de culturas que precisa ser considerada, e o que escrevo tenta transmitir isso sem exotizar essas experiências. É mostrar que o mundo não é só como nós vemos. Há pessoas que falam com espíritos, com encantados, que têm uma relação muito forte com a ancestralidade e com a própria cultura. Para alguns de nós, o sonho pode ser apenas ficção ou, dependendo da religião, uma mensagem divina. Mas, para povos como os Yanomami, o sonho é uma dimensão indivisível da vida. Quando acordam, eles ficam relembrando os sonhos para decidir, por exemplo, se naquele dia podem caçar ou cultivar. Ou seja, não existe um jeito certo ou errado de viver, nem culturas exóticas ou folclóricas. Existem maneiras diferentes de se relacionar com o mundo. O que escrevo tenta emular isso. Talvez por isso eu não goste do rótulo de realismo mágico, nem do rótulo de regionalismo. Parece que existe um centro e todo o resto é regional. Para mim, essa ideia não é positiva.
Agência de Notícias: Recentemente, “Torto Arado” passou a integrar o acervo do programa MEC Livros, ampliando o acesso da obra de forma gratuita. O que significa pra você essa inclusão
Itamar Vieira Junior: Acho formidável. Já existia antes uma cultura de pirataria, pouca gente fala disso, mas o livro circulava muito em PDFs piratas e acabou conquistando leitores também dessa maneira. Agora temos algo mais institucionalizado, mais sério, que não prejudica o autor, afinal escrever é o trabalho dele. Vejo o MEC Livros como uma excelente iniciativa. Já existiam plataformas como a Biblion, em São Paulo, mas o MEC Livros tem uma dimensão nacional. E isso é muito importante em um país de dimensões continentais como o Brasil. Existem cidades sem livrarias, sem bibliotecas adequadas, lugares onde só se chega de barco, na Amazônia. Com a internet e plataformas como essa, não há mais motivos para que as pessoas não tenham acesso à leitura. É mais um instrumento a serviço da educação e do livro. Então vejo essa iniciativa com muito entusiasmo.
Agência de Notícias: E agora, com a Trilogia da Terra finalizada, quais são os planos para o futuro?
Itamar Vieira Junior: Tenho muitos planos. Espero ter saúde e vida para conseguir realizá-los. As ideias são tantas que ainda estou em dúvida sobre o que vem agora. Às vezes tenho vontade de me dividir em vários avatares para que cada um possa desenvolver uma coisa diferente e dar vazão a essa mente inquieta, que não para de criar histórias. Em certos momentos isso também é um tormento, porque são muitas histórias vivendo aqui dentro, esperando o tempo certo para acontecer. Mas acredito que esse tempo chega e, aos poucos, elas acabam sendo contadas.
É possível acompanhar mais do trabalho do autor no seu perfil no Instagram: @itamarvieirajr.
Entrevista: João Victor Souza, estudante de jornalismo e estagiário na Agência de Notícias
Fotos: Jessica Mocellin, estudante de jornalismo e bolsista na Agência de Notícias
Edição: Lucas Casali