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Museu Gama d’Eça e Victor Bersani: a casa do tempo e da memória de Santa Maria

Fechado temporariamente para reformas desde setembro de 2025, espaço histórico da UFSM mantém atividades de preservação, pesquisa e catalogação do acervo



Museu Gama d’Eça e Victor Bersani é a casa do tempo de Santa Maria

Existe uma casa em que o tempo parece se esconder. As portas de madeira entalhadas, altas e pesadas, protegem o passado da velocidade do mundo atual. Nela, o tempo é mais do que as horas contadas em um relógio: é um morador antigo. O Museu Gama d’Eça e Victor Bersani é a morada do tempo em Santa Maria.  

Dia Internacional dos Museus 

No dia 18 de maio, o mundo volta o olhar para espaços como este. Celebrado desde 1977 pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM), o Dia Internacional dos Museus busca lembrar a importância dessas instituições como espaços de intercâmbio cultural, preservação da memória e fortalecimento da compreensão entre os povos. Em 2026, o tema da data é “Museus Unindo um Mundo Dividido”. 

Em Santa Maria, o Museu Gama d’Eça e Victor Bersani é parte dessa história.  O Museu Victor Bersani foi criado em 1913, pela Sociedade União dos Caixeiros Viajantes (SUCV). Enquanto isso, o Museu Gama d’Eça foi fundado em 1968, pela Universidade Federal de Santa Maria. Em 1981, as duas instituições se fundiram e passaram a se localizar na Rua do Acampamento, centro de Santa Maria, em um prédio histórico, herança da família do Dr. Astrogildo de Azevedo. 

Hoje, o espaço conta com um acervo de  objetos históricos, documentos, coleção de animais taxidermizados, arqueologia, paleontologia e entomologia.  

Sem visitas, por enquanto 

Desde de setembro de 2025, o museu não recebe visitantes. O motivo é a necessidade de reforma no telhado do prédio histórico, que apresenta riscos até que seja restaurado. Além disso, a fachada também precisa passar por melhorias, explica Bernardo Duque de Paula, museólogo e diretor do museu. 

A reforma, que estava prevista para o final de 2025, teve que ser adiada devido a desistência da empresa que a realizaria. Hoje, a instituição busca uma nova empresa para realizar a obra. 

O tempo não para, nem as atividades no museu 

Peças do museu estão sendo armazenadas na Antiga Reitoria

Mesmo sem receber o público, o museu continua em movimento. Todos os dias, estudantes, pesquisadores e profissionais atravessam suas portas para fazer com que o tempo continue sendo preservado. 

Bernardo conta que o museu é dividido em três áreas: preservação, pesquisa e comunicação. “Tudo que a gente tem, é nosso compromisso preservar. Não só para a atual geração, mas para gerações futuras”, explica. Dentro desta área, há o cuidado com a higienização e a catalogação do acervo.

A pesquisa é indispensável, já que permeia todas as atividades do museu. E a comunicação envolve divulgação científica, atividades educativas e divulgações em redes sociais. Segundo Bernardo, em 2024, 18.700 pessoas visitaram o espaço. Já em 2025, até setembro, 15 mil pessoas passaram pelo acervo. “As exposições foram desmontadas, mas todo esse trabalho de preservação e de pesquisa continua sendo realizado”, afirma o diretor. 

Hoje, uma das atividades mais frequentes no espaço é a catalogação do acervo. “Toda peça, quando entra no museu, tem que receber um número de identificação. Então, é preenchida uma ficha catalográfica, com todas as informações daquele objeto. De tempos em tempos, tem que ser feita uma checagem dessas peças, da localização e tudo”, conta Bernardo. 

Nos bastidores do acervo

Em uma manhã de quarta-feira, a reportagem da Agência de Notícias encontrou Bernardo no museu para uma entrevista e um tour guiado. Durante nossa conversa, caminhamos pelo espaço e observamos os trabalhos que estavam sendo realizados. 

Na primeira sala que entramos, cédulas de diferentes épocas e países estavam sendo organizadas e catalogadas pelos estudantes Lucas Rembold e Micael Bellé Razia. Bernardo nos explicou que “as cédulas são retiradas dos envelopes antigos, são acondicionadas em novos envelopes com materiais indicados para a  conservação do material, e são catalogadas e incluídas em uma planilha. Depois, são fotografadas e digitalizadas no repositório digital, em que ficam disponíveis para consulta externa”. Todas as cédulas e moedas que estão no museu hoje, são resultado de doações. 

Lucas nos contou que o trabalho no museu influenciou diretamente sua trajetória acadêmica. Ele é mestrando em Patrimônio Cultural. “A minha pós-graduação foi o trabalho que a gente fez ano passado com as moedas, então a numismática é uma área que me atrai bastante”. 

Após nossa conversa sobre as cédulas e moedas, seguimos para outra sala do museu. Lá, diferentes espécies de aves taxidermizadas aguardavam um cuidado minucioso. Algumas estavam sendo higienizadas sobre uma mesa por Jordana Pivetta, estudante de Biologia e voluntária responsável pelo manejo desses animais. 

Ela explicou que antes de iniciar a higiene é preciso vestir equipamentos de proteção individual (EPIs). Mesmo preservados, os animais podem estar com fungos e piolhos. Após colocar máscara e luvas, o cuidado inicia. “Nos menores, limpamos olhos, bico e patas para soltar o pó. Quando estão mofados, usamos algodão com álcool 70%, mas evitamos as partes pintadas para não remover a tinta. Depois, limpamos os olhos e outras regiões com água pura, fazemos a foto, a identificação, atualizamos a planilha e colocamos no repositório digital”, detalhou Jordana. Após a limpeza, os animais voltam para as vitrines. 

Após catalogar moedas, bolsistas do museu trabalham na catalogação de cédulas históricas
A limpeza dos animais taxidermizados é realizada com produtos específicos, pincéis e uso de EPIs

Nos fundos do museu, outro trabalho acontecia longe dos olhos do público: a preparação de novos mobiliários para quando o espaço reabrir. A ideia, explica Bernardo, é que o retorno aconteça com exposições renovadas. ““Quando o museu reabrir, queremos que as exposições estejam todas repensadas. Estamos trabalhando na confecção de novos mobiliários”, conta.

Mesmo com a espera da reforma no telhado, reformas menores estão sendo realizadas

No espaço, vimos pinturas realizadas por Kauan Scheffer, estudante de desenho industrial, que ficarão nos fundos das vitrines dos animais taxidermizados. Vimos, também, Valter Rosa removendo a tinta, lixando e pintando as vitrines antigas. 

O que permanece guardado

A visita terminou em outro endereço cheio de memória: a Antiga Reitoria da UFSM. Lá, em uma sala do subsolo, funciona a reserva técnica do museu. O local abriga livros, documentos históricos e itens que não estavam mais à mostra nas exposições. Ali também está a biblioteca do museu, organizada por Christian Vargas Dias. Desde dezembro, arquivos estão sendo levados para a Antiga Reitoria para que sejam organizados e catalogados.

Depois, subimos para o quarto andar e encontramos uma sala cheia de caixas de arquivos. Entre eles, documentos da década de 1970. O material que está dentro dessas caixas, será classificado e incorporado à reserva técnica visitada anteriormente. 

Bernardo nos contou que umas de suas peças preferidas no acervo é um meteorito ferroso raro e a carruagem do Conde de Porto Alegre, que está em boas condições de preservação. “É uma carruagem que tem toda a história de ter sido usada em batalhas, em acontecimentos importantes aqui da história do Rio Grande do Sul”, contou. 

A carruagem histórica é um dos elementos preferidos de Bernardo no acervo
Utilizada por Conde de Porto Alegre, item está em boas condições de preservação

Atividades multidisciplinares 

Em 2025, cerca de 13 estudantes trabalhavam no acervo. História, ecologia, biologia, arquitetura, desenho industrial e arquivologia são algumas das áreas que ajudam a manter o espaço em funcionamento. O Gama d’Eça e Victor Bersani aceita voluntários e bolsistas selecionados através de editais. 

Acervo digital Tainacan 

Ficar um tempo sem visitações possibilitou ao museu que pudesse colocar mais itens em seu acervo digital, o Tainacan. A plataforma online permite consultas públicas ao material preservado pela instituição.

Mesmo longe das exposições físicas, o tempo continua sendo organizado, registrado e preservado pelo Museu Gama d’Eça e Victor Bersani 

 

Texto: Jessica Mocellin, acadêmica de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias;
Fotos: Mathias Ilnicki, acadêmico de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias;
Edição: Mariana Henriques, jornalista

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