O surto de hantavírus a bordo do navio MV Hondius, em abril de 2026, trouxe a doença de volta às manchetes. Três mortes entre passageiros que haviam visitado áreas rurais da Patagônia argentina geraram repercussão internacional, e, com ela, dúvidas sobre o risco no Brasil. Especialmente, no Rio Grande do Sul.
Uma doença conhecida
A hantavirose não chegou ao estado com o surto do cruzeiro. Ela já estava aqui. Segundo o professor de Medicina da UFSM e infectologista Alexandre Schwarzbold, o Rio Grande do Sul registra casos todos os anos, normalmente vinculados a pessoas com contato direto com roedores silvestres ou com ambientes contaminados pelas fezes e urina desses animais, em galpões, armazéns, plantações de bambu, garagens. “A hantavirose é uma doença zoonótica, transmitida a partir de contato com roedores, comum em áreas restritas, rurais, ou em áreas de manipulação de algumas plantações, como o bambu, por exemplo, ou em períodos de estiagem. A gente sempre teve casos de hantavirose, mas são casos raros”, conta.
O hantavírus não é um vírus único, mas uma família com dezenas de cepas, cada uma associada a uma espécie de roedor reservatório. No Brasil, as mais conhecidas são os vírus Araraquara e Juquitiba, ambas presentes nas regiões Sul e Sudeste. Nas Américas, a doença se manifesta principalmente como Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), com comprometimento pulmonar e cardiovascular grave.
Os números do Rio Grande do Sul
Os dados oficiais do Ministério da Saúde mostram um estado com presença estável da doença. Em 2025, foram sete casos confirmados no RS. Em 2026, dois já foram registrados até março, com dados ainda preliminares.
A série revela uma realidade distante de qualquer explosão epidêmica: o RS nunca ultrapassou 9 casos em um único ano na última década. O pico foi em 2016, com exatamente essa marca. Em 2020, foram zero casos. A média histórica fica em torno de 5 a 6 por ano.
Quem realmente está em risco?
A hantavirose não é uma ameaça para a população urbana em geral. O perfil de risco é predominante para trabalhadores rurais, agricultores, pessoas que limpam ambientes fechados onde roedores transitam, e quem manipula grãos armazenados ou realiza atividades em matas e áreas de vegetação densa.
O momento de maior exposição é a limpeza de locais fechados, como galpões, paióis, garagens e depósitos. Quando se varre um ambiente com fezes secas de roedores, partículas microscópicas ficam em suspensão no ar e podem ser inaladas. Esse é o mecanismo mais comum de contaminação no estado.
De acordo com o infectologista, toda pessoa do meio rural que tenha contato eventual com roedores deve higienizar muito bem galpões e usar proteção especial. “O essencial é usar botas, máscara, sobretudo a máscara quando for manipular áreas que soltam pó. Muitas pessoas esquecem e passam vassouras, levantam poeiras. Esse é o momento de usar equipamento de proteção importante”, alerta.
Os sintomas que não devem ser ignorados
O maior desafio clínico da hantavirose é o início enganoso. Os primeiros dias da doença (chamados de período pródromico) são difíceis de diferenciar de uma gripe comum. Febre, dor muscular, dor articular, cansaço e, em crianças, sintomas gastrointestinais. Segundo Alexandre, é fácil ignorar, mas o que muda o quadro é a tosse seca. “Essa tosse pode eventualmente evoluir para casos mais graves, desde uma síndrome respiratória grave até uma síndrome de hemorragia pulmonar”, destaca.
Sem tratamento específico aprovado até o momento, o manejo da hantavirose é de suporte, e a velocidade de chegada ao hospital é fator decisivo nos casos graves. Por isso, reconhecer os sintomas e a exposição prévia é tão importante.
O que fazer para se proteger
A prevenção passa sobretudo pelo uso correto de equipamentos de proteção individual durante atividades de risco. Como dito pelo médico, é necessário o uso de máscara, luvas e botas. Esses cuidados já fazem a diferença.
- Use máscara ao limpar galpões, garagens e ambientes com acesso de roedores, especialmente quando houver pó;
- Evite varrer a seco. Umedeça o ambiente antes de limpar para não levantar partículas em suspensão;
- Use botas para evitar contato da pele com urina e fezes de roedores no chão;
- Nunca limpe com as mãos desprotegidas. Use luvas ao manipular materiais em locais frequentados por roedores;
- Monitore e controle o acesso de roedores a residências, armazéns e locais de trabalho no campo;
- Febre e tosse seca após contato com roedores? Procure atendimento e relate a exposição ao médico.
Hantavirus em alto mar?
Para entender o surto do MV Hondius, é importante compreender o que o tornou incomum. Passageiros desceram em Ushuaia e visitaram áreas rurais da Patagônia argentina, região com circulação conhecida de hantavírus. O contato com ambientes contaminados por roedores, provavelmente durante as excursões, foi o ponto de partida.
O que explica o maior número de casos a bordo é uma característica genética específica da cepa argentina envolvida: trata-se do único tipo de hantavírus conhecido por ter transmissão de pessoa a pessoa. Estudos genéticos mostraram que o vírus encontrado nos infectados do cruzeiro é idêntico ao de um surto registrado na Argentina em 2018.
Segundo Alexandre, este é o único vírus desses que causam a síndrome de hantavirose que se transmite de pessoa a pessoa. “Justamente por isso que um número maior de pessoas dentro de um barco foi acometido, algumas foram transmitidas de pessoa a pessoa. Mas originalmente alguém teve contato com o roedor contaminado. Surtos assim, dentro de um cruzeiro, são raríssimos”, relata.
No contexto gaúcho, essa cepa específica não é a que circula. Os vírus presentes no RS não têm transmissão interpessoal documentada. A contaminação ocorre exclusivamente pelo contato com roedores ou com ambientes que eles frequentam.
A hantavirose tem mortalidade elevada quando não tratada a tempo e exige vigilância por parte dos profissionais de saúde e das pessoas expostas. Mas não merece o tipo de alarme que circulou nas redes sociais após o surto no cruzeiro. O Rio Grande do Sul tem estrutura de vigilância epidemiológica, profissionais treinados e dados sendo monitorados pelo Ministério da Saúde.
Conhecer a doença, reconhecer os fatores de risco e adotar medidas simples de proteção é o que funciona, e é exatamente o que o pesquisador da UFSM recomenda. “Não tem o risco de acontecer uma epidemia no Rio Grande do Sul, nem no Brasil, e nem pandemia, de modo algum. É uma doença muito restrita a algumas pessoas que têm contato específico”, finaliza.
Texto e artes: Isadora Bortolotto, acadêmica de Jornalismo, voluntária da Agência de Notícias
Edição: Ricardo Bonfanti, jornalista
