Durante a Jornada Acadêmica Integrada, ocorre o I Seminário da Associação de Pós-Graduandos da UFSM com o tema “A Pesquisa Universitária do Brasil: agenda de pesquisa e a socialização dos resultados”. Durante a cerimônia de abertura estiveram presentes, a representante da Associação de Pós-Graduandos da UFSM (APG), Rosana Huppes Engel e o pró-reitor de Pós-Graduação e Pesquisa da UFSM (PRPGP), Hélio Leães Hey.
Um dos eventos promovidos pelo seminário, foi uma mesa temática “As Agendas de Pesquisa no Brasil: o que temos e para onde vamos… é o que queremos?”. Integrou a mesa o professor do Programa de Pós-graduação em Política Científica e Tecnológica (PPGPCT), da Universidade de Campinas (UNICAMP), Renato Peixoto Dagnino, o professor do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE), Décio Auler e o pró-reitor Hélio Leães Hey. Dentro dessa temática, foram discutidos os desafios e preocupações em relação à pesquisa e pós-graduação no Brasil. A mesa foi coordenada pelo representante da APG, Caetano Castro Roso.
O prof. Renato Dagnino deu início à discussão falando sobre como a pesquisa é feita no mundo e ressaltou alguns dados, como por exemplo, 70% dos gastos em pesquisa são realizados por empresas e o restante é público. Esse dado, segundo Dagnino compromete de maneira direta a principal função da pesquisa e desenvolvimento, que é disseminar conhecimento na formação de uma sociedade mais igualitária. Com relação aos programas de pós-graduação, Dagnino ressalta que, atualmente, o currículo é voltado para as empresas e isso é preocupante pelo fato de que a dinâmica das empresas visa a agradar somente os mais ricos da sociedade, e a principal consequência disso é a exclusão social das classes trabalhadoras mais inferiores.
Dagnino ressalta que essa agenda de pesquisa internacional capitalista que temos hoje, em que a pesquisa e o desenvolvimento são vistos de maneira comercial e o emprego no sistema privado é o principal objetivo, tem um reflexo muito forte no Brasil, tanto nos programas de pós-graduação como na própria graduação. O professor comenta que isso se deve ao fato de que no Brasil o estado financia a pesquisa científica para promover o desenvolvimento na sociedade, porém esse desenvolvimento na prática não acontece de forma justa e de maneira igual a todos os indivíduos na sociedade, principalmente os trabalhadores. Dagnino ressalta, “essa maneira de produzir conhecimento acaba por produzir a exclusão”.
Para finalizar sua fala, Dagnino disse que se deve discutir mais sobre esse aspecto da pesquisa dentro das universidades públicas, sendo a pesquisa em ciência ou não, pois é necessário pensar na pesquisa como uma forma de explorar as fronteiras do conhecimento em aspectos mundiais para assim obter uma internacionalização de valores e interesses alternativos nas instituições. Ele ressalta, “a politização e o reprojetamento do debate político não é externo ao mundo da pesquisa e da ciência, portanto devemos substituir a empresa privada e elevar o espírito de solidariedade nos nossos alunos”.
Dando continuidade à discussão iniciada por Dagnino, o prof. Décio Auler fala sobre a política educacional existente no Brasil e em como o currículo acadêmico se tornou uma cultura de competição entre docentes e que atualmente é imposto aos indivíduos, pois não possui nenhuma participação ativa da sociedade. Décio também comenta sobre a agenda de pesquisa no Brasil, em como a sua lógica se dá pela agenda internacional e isso faz com que sejam os valores capitalistas que controlem as funções da academia. Ao finalizar sua fala, Décio ressalta “para que haja mudanças nesse sistema atual de ensino, devemos construir uma cultura de participação da sociedade, para que se tenha uma democracia e o exercício da cidadania seja pleno, quando se fala em educação”.
Para finalizar a discussão da mesa temática, o pró-reitor de Pós-graduação e Pesquisa, Hélio Hey, trouxe alguns dados sobre o cenário da educação no Brasil e fez algumas reflexões sobre como esses dados se aplicam na prática educacional atualmente. Usando o Ministério da Educação (MEC) como fonte, Hélio evidenciou alguns dados. Na educação básica, o Brasil possui 54 milhões de alunos, 2 milhões de professores e 200 mil estabelecimentos de ensino. No ensino superior, existem 6,4 milhões de alunos, 345 mil docentes e 2 mil estabelecimentos de ensino, sendo 88% privados e 12% públicos. Na pós-graduação, existem 65 mil docentes, 173 mil alunos, sendo que 115 mil estão em instituições públicas e 57 mil em instituições privadas. Após expor os dados, Hélio ressaltou as suas preocupações quanto aos números, pois considera que na educação básica o número de professores é extremamente inferior e a maioria dos professores não possui ensino superior, o que gera uma preocupação quanto à formação de professores que temos hoje. Quanto ao ensino superior, Hélio comenta que ainda são poucas as pessoas que têm acesso às universidades públicas. Já na pós-graduação, Hélio questiona a distribuição injusta dos programas, sendo que sua maior concentração se encontra no sul e sudeste do país. Ao finalizar sua fala, Hélio ressalta, “estamos formando pessoas para atuar na sociedade não só como empregados, mas também como formadores de conhecimento”.
O Seminário continua no dia 17 com uma nova Mesa Temática, com o tema: “Produtividade X Produtivismo: a cultura da competitividade no meio acadêmico”. O evento ocorre, às 9h, no Auditório Audimax, no Centro de Educação.
Repórter: Paula Bisio Mattos – Acadêmica de Jornalismo.
Edição: Lucas Durr Missau.