A cena, se isolada em uma fotografia fechada, lembraria a rotina de qualquer praça ou parque de Santa Maria em uma tarde ensolarada. Um pai, com os olhos atentos enquanto desenha com a filha que observa. Mas o cenário ao redor dessa imagem de afeto não era feito de árvores ou gramados. O espaço era cercado por concreto cinza, grades e rígidas estruturas de segurança. No último dia 23 de maio, de forma inédita na região, o pátio de uma das galerias da Penitenciária Estadual de Santa Maria (PESM) deixou temporariamente a rigidez da rotina prisional para se transformar em um território de escuta, infância e reencontro familiar.
A iniciativa foi promovida pelo Observatório de Direitos Humanos da UFSM, vinculado à Coordenadoria de Cidadania da Pró-Reitoria de Extensão, em parceria com o projeto “Materiais que Transformam Brinquedos”, coordenado pela professora Jucemara Antunes. A ação busca romper o silêncio e a distância que frequentemente marcam o sistema prisional, apostando na humanização e no fortalecimento dos vínculos familiares como caminhos de transformação social.
“Os materiais que viram brinquedos, o pátio que vira memória”
Desde setembro de 2025, a iniciativa já acolhia famílias na recepção da penitenciária, humanizando o período de espera antes das visitas. Em maio, porém, a ação atravessou uma barreira física e simbólica importante: cruzou os portões da instituição e chegou ao espaço de convivência das pessoas privadas de liberdade. Para colorir o chão cinza da galeria, a equipe levou brinquedos lúdicos e pedagógicos produzidos a partir de materiais reutilizáveis. Canos de PVC, carrinhos, papéis, lápis e livros infantis ganharam novos significados em uma missão simples e profunda: contribuir para a reconstrução de vínculos familiares fragilizados pelo cumprimento da pena.
Entre desenhos a giz e brincadeiras compartilhadas, mães, bebês, crianças e pais privados de liberdade puderam dividir um tempo sem pressa. Naquele espaço organizado com carinho, o ato de brincar e o gesto de tocar as mãos transformaram-se em pontes de dignidade e acolhimento.“Em um ambiente muitas vezes atravessado pelo silêncio, pela saudade e pela distância, os sorrisos das crianças e os gestos de carinho ocuparam o espaço com novas possibilidades de convivência e fortalecimento dos vínculos familiares”, destaca Jane Schumacher, coordenadora do Observatório de Direitos Humanos da UFSM.
“Segurança e ressocialização caminham juntas”
A atividade, que envolveu mais de dez famílias, transcorreu em clima de tranquilidade, organização e respeito mútuo. O fortalecimento dos laços familiares representa um dos pilares mais importantes no processo de ressocialização, oferecendo às pessoas em cumprimento de pena perspectivas concretas de reconstrução de vida e reinserção social.
Para que esse momento de encontro acontecesse dentro das normas do sistema prisional, uma ampla rede de apoio foi mobilizada. A ação contou com a parceria da direção da PESM, do delegado adjunto e coordenador técnico da 2ª Região Penitenciária, Gabriel Marcelo Moresco, do trabalho das analistas da Polícia Penal, Luciana Dimperio e Mareli Moraes, além de toda a equipe de segurança de plantão, que garantiu que acolhimento e disciplina institucional caminhassem lado a lado.
Na bagagem de volta para a universidade, estudantes e coordenadores levaram a certeza de que a extensão universitária cumpre seu papel quando ultrapassa os muros acadêmicos e encontra a comunidade em seus contextos mais desafiadores. Já nas memórias das crianças, nos livros compartilhados e nos reencontros vividos naquele pátio, permaneceu a lembrança de que, mesmo onde a liberdade é privada, o afeto ainda encontra caminhos para resistir.