Fellipe H. Alves Medeiros
Francisco Acidemar Nunes aprendeu cedo que a música nasce antes mesmo do instrumento existir. O apelido que virou marca de respeito em Caçapava do Sul não veio do “Francisco”. Nasceu de uma brincadeira de escola: um amigo resolveu cruzar as letras do alfabeto com os números da sua data de nascimento. A conta deu “Cida”. Ele gostou, adotou e, com o tempo, o nome ganhou o prefixo que sela o respeito comunitário: Tio Cida.
A caminhada começou em 4 de agosto de 1943. Filho de Antônio Ferreira e Julieta Nunes, Tio Cida cresceu em uma casa cheia, junto com 17 irmãos. O pai biológico, fã de carreiras de cavalo, morreu em uma confusão de cancha reta antes do filho nascer. Cida acabou criado pelo padrasto que, ao lado de Dona Julieta, vivia pelo Carnaval.
A família morava na Rua Barão, na última casa do trilho. Dali para baixo o que havia era campo aberto, potreiro e mato, onde o gado e as ovelhas pastavam. Foi nesse cenário que o menino começou a ver os desfiles que os parentes organizavam no pátio, aprendeu a dançar nos botequins da volta e fincou o pé no ritmo que daria sentido à sua vida.
Na infância em Caçapava, o som estava em qualquer canto. Como não havia dinheiro para comprar instrumentos profissionais, a gurizada da vizinhança se virava com o que dava: recolhiam latas vazias de azeite e de banha de vinte litros nas calçadas e faziam o batuque acontecer.
Aos poucos, a brincadeira virou técnica. Tio Cida passou a garimpar madeiras de móveis velhos jogados no lixo. Fundos de roupeiro eram os melhores; as tábuas finas, de três ou quatro milímetros, moldavam-se com facilidade. Para o couro, aproveitava os cabritos que a mãe criava. Ele lembra até hoje do trabalho pesado: esticar o couro, taquear, secar ao sol e raspar com paciência para tirar o pelo e a gordura antes de o bicho virar som. No início, não havia pretensão de venda. Era só o pretexto para movimentar uma rua onde quase nada acontecia.
Tudo mudou em 1953. Aos dez anos, Cida viajou a Porto Alegre para visitar os irmãos mais velhos e deu de cara com o carnaval da capital. No meio do desfile de uma escola de samba, um detalhe prendeu sua atenção: enquanto a maioria usava baquetas, um homem batia com as palmas das mãos em um tambor enorme, cônico e imponente. O menino não sabia o nome daquilo, mas guardou a imagem na cabeça. Voltou para Caçapava decidido a desenhar e montar aquela forma na sua oficina improvisada. Só no ano 2000, quase cinquenta anos depois, ao participar do Festival Cabobu (A Festa dos Tambores), em Pelotas e conversar com o músico Giba Giba, é que Tio Cida entendeu o que tinha feito na infância: sua intuição de guri o havia conectado diretamente ao Tambor de Sopapo, a grande marca da ancestralidade e da resistência negra no Sul.
A partir dos anos 1970, o conhecimento de Cida ganhou as escolas da região. Ele começou a montar bandas de percussão em colégios públicos como o Gnarte, Nossa Senhora da Assunção, Januária Leal e Conego Ortiz . O trato era simples: as direções compravam o material e o Mestre ensinava os alunos da periferia, transformando a gurizada em ritmistas de primeira.
Em agosto de 1988, ano do centenário da abolição, ele deu um passo maior e criou o Grupo de Dança Afro-Brasileira Clara Nunes. Começaram em poucos, cinco ou seis pessoas. Enfrentaram o racismo de quem torcia o nariz para um grupo formado majoritariamente por negros, mas fincaram pé. Sob a liderança de Cida, o grupo resistiu, virou referência na cidade e já formou mais de mil integrantes, incluindo as filhas e os netos do Mestre.
Cinco anos depois, em 5 de maio de 1993, ele abriu mais um espaço de quilombo urbano: fundou a Sociedade Recreativa Estrela do Mar. Como primeiro presidente, garantiu que a comunidade negra de Caçapava tivesse um teto para o samba, a capoeira e as festas religiosas, numa época em que o acesso aos clubes tradicionais da cidade ainda era veladamente negado aos negros. Mais tarde, sua liderança também o levou a presidir o conselho do Clube Recreativo Harmonia.
A disputa por esses territórios de alegria tinha suas tensões. O Mestre lembra bem de um carnaval em que a Estrela do Mar levou o título de campeã. Inconformado com a derrota, o presidente da escola rival, de patronato branco, pegou o troféu de segundo lugar e o arremessou no meio da multidão. Para Tio Cida, aquela imagem de desespero do preconceito só mostrava que o carnaval precisava continuar sendo uma trincheira de afirmação.
O reconhecimento como Mestre Artesão veio pelo fazer diário. Para ele, o título não serve para ficar na parede, mas para girar o conhecimento. Essa certeza virou o projeto “Som da Liberdade”, em 2012, onde ensinou a fabricação e o toque de tambores para mais de 400 jovens da região. A iniciativa venceu prêmios do Ministério da Cultura e espalhou o sopapo pelo estado. O argumento do Mestre é curto e certeiro: “Tem que deixar nem que seja um para ensinar os outros também, depois”.
Sua relação com o tambor passa por uma compreensão profunda da história e da espiritualidade. Ele enxerga o instrumento como uma tecnologia antiga de comunicação: “É o nosso telegrama”, explica, lembrando que na África o som cruzava quilômetros para avisar as tribos sobre nascimentos, festas ou perigos. Lembra também que, antes do parafuso e do ferro, os antigos usavam o fogo para escavar os troncos e a fibra da embira para amarrar o couro.
Essa sensibilidade sobra até no que sobra da rua. Quando vê galhos cortados nas podas das calçadas, Tio Cida junta os pedaços e, no canivete, vai limpando a madeira até que surja um passarinho, um santo ou um capoeirista. E ensina o respeito com o couro: “antes de tocar qualquer tambor, é preciso pedir licença e fazer um carinho na pele do instrumento, agradecendo o sacrifício do animal que garante a nossa festa. Para ele, os tambores são uma família: cada um tem um tamanho, uma voz e um jeito de falar, mas quando se juntam no terreiro, todos se entendem”.
O peso de carregar essa herança costuma emocionar o Mestre. Ele trabalha pelo que chama de “estalo”, criando sem olhar para o relógio. Confessa que, quando terminou de montar seu primeiro Tambor de Sopapo legítimo e tirou o primeiro som dele, chorou sozinho na oficina. Ali mesmo, agradeceu aos que vieram antes pela missão recebida. Sabe que o ofício é um compromisso espiritual para não deixar a memória apagar.
Com os anos, as homenagens vieram em sequência. Ganhou o Prêmio Culturas Populares do Ministério da Cultura em 2018 e, no mesmo ano, virou enredo da Escola de Samba Unidos da São João. Sua persistência também foi o motor para que, em outubro de 2023, o Tambor de Sopapo recebesse o registro de Patrimônio Imaterial de Caçapava do Sul, colocando o município no mapa histórico do instrumento ao lado de Pelotas e Porto Alegre.
O trânsito de Cida pelas universidades mostra que o saber popular não deve pedir licença à academia. Convidado para debates e oficinas, o artesão inverte o jogo e mostra que quem está na sala de aula tem muito a aprender com quem está no chão de terra: a tradição serve para “levar esclarecimento a quem sabe que existe, mas não sabe por que e nem como”. Como Patrono do Mês da Consciência Negra na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), ele deixou claro que a universidade precisa do conhecimento das raízes para ser, de fato, completa.
A entrega do título de Notório Saber pela universidade chancelou uma vida inteira dedicada à oralidade e ao afeto coletivo. Tio Cida repete que mestre de verdade se faz na prática e na comunidade; o diploma só assina embaixo daquilo que o povo já reconheceu na rua.
Hoje, aos 82 anos e longe das obrigações do trabalho formal, ele sorri ao dizer que “botou o relógio fora”. Sem as amarras das horas do comércio, vive no tempo da criação e da memória. Seus tambores não são mercadoria; são a continuidade física dos que vieram antes, garantindo que o grave profundo do sopapo continue batendo forte no peito de Caçapava do Sul. CONFIRA A PLAYLIST