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Doutoranda Franciele Oliveira investiga famílias negras no pós-abolição em Santa Maria



Mulher em pé no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APERS), 28 de janeiro de 2020 usando luvas e segurando uma máquina fotográfica. Foto Vanessa Flores dos Santos.O Dia Internacional da Mulher é um dia de luta pelos direitos das mulheres e pela visibilização do seu papel na sociedade. A UFSM, atualmente, conta com 1055 alunas no doutorado, o equivalente a 61%. Nesta semana, trazemos três doutorandas da UFSM que contam um pouco da sua trajetória na ciência e da pesquisa que desenvolvem na Universidade.

Hoje, entrevistamos a pesquisadora Franciele Oliveira, graduada em História (Bacharelado e Licenciatura Plena) pela UFSM. Mestre e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) na mesma instituição.

Faz parte de algum grupo de pesquisa ou recebe bolsa? Se sim, qual(quais)?

Eu faço parte do Grupo de Estudos Sobre Pós-Abolição – GEPA, da Universidade Federal de Santa Maria, grupo que fundamos em 2016. Sou Bolsista Capes – DS. Pertenço ao GT Emancipações e Pós-Abolição da Associação Nacional de História (GTEP ANPUH/RS), atualmente como vice-coordenadora do GTEP ANPUH/RS, representando o GEPA. Na graduação, fui bolsista do Programa de Iniciação à Docência – PIBID, atuando na Escola Estadual Professora Edna May Cardoso. No mestrado fui Bolsista Capes – DS.

O que lhe despertou a vontade de ser pesquisadora?

O que me despertou a vontade de ser pesquisadora foi um misto das raízes familiares, a educação recebida, sobretudo no ensino público, com professoras que me foram referências e a formação junto a organizações negras da cidade e seus militantes. 

Sempre gostei muito de estudar, de ler, de estar em sala de aula e de comunicar toda informação que aprendo. Acho que o estudo sempre foi uma forma de libertação em nossas vidas, de afundarmos em outros universos, que nos levariam a aprender algo, para que pudéssemos ter uma vida melhor enquanto mulheres. Falo nós, porque penso nas mulheres da minha família, minha mãe e minhas irmãs, todas estudaram, diferentemente da geração de minhas avós. Minha avó paterna, Josefa Oliveira, uma mulher nordestina, nascida em 1931, mãe biológica de 14 filhos e mãe de criação, madrasta, de outros seis, nunca pôde estudar. Foi aprender a escrever o nome já adulta, nos anos 1960. Minha avó materna, Marluza de Jesus Rodrigues, teve de parar os estudos depois que casou. Fez, portanto, o ensino ginasial incompleto. 

Acho que ter mulheres na família que não puderam estudar e também as que conseguiram acessar o ensino, como minha mãe, foi fundamental para eu me tornar uma pesquisadora. Minha mãe é professora municipal aposentada, ensinou Português e Literatura por 27 anos. Eu e minhas irmãs fomos criadas por uma mãe professora, que é nossa referência. Minha mãe sempre gostou muito de estudar também, desde pequena teve problemas de saúde, que ela driblava com leituras de livros arranjados por meu avô. Sempre tivemos isso, de ter livros em casa, uma mãe professora, que gostava muito de ler e incentivava isso em nós. Uma referência, que sempre fez com que víssemos a profissão de professora como algo importante.

Também poderia dizer que muitas outras professoras me instigaram à pesquisa. Na escola, eu realmente amava as aulas de História, foi assim que fui entendendo o que eu queria fazer. Eram os livros didáticos que eu mais gostava, lia os livros de História independentemente de ter atividades. Lembro-me de admirar muito outras mulheres professoras de História, que ensinavam muito bem, explicavam questões da História Política e do Brasil. Suas aulas eram instigantes! Posso citar seus nomes, pois realmente não esqueci: Cleunice Fialho, Tiana Cabral e Adriana Oliveira.

A pesquisa que desenvolvo hoje tem a ver, também, com o trabalho iniciado há 10 anos. Muito do que aprendi e me tornou a pesquisadora que sou deve-se também ao meu contato com o Museu Treze de Maio, onde atuei por quatro anos, como estagiária e voluntária. Lá conheci pessoas fundamentais, que marcaram minha vida e minha formação, como Nei D’Ogum, que era o Diretor do Núcleo de Ações Culturais e Educativas do Museu e a Profa. Dra. Marta Nunes, que era a Diretora Técnica do Museu, grandes mestres.

Poderia contar sobre sua pesquisa? 

No doutorado, atuo com histórias de famílias negras em Santa Maria no pós-Abolição. Dedico-me a compreender as relações familiares e as relações que culminaram em casamentos legitimados via religiosa e civil, entre homens e mulheres negros e negras, nascidos de Ventre Livre, ou seja, crianças que nasceram filhas de mulheres escravizadas na cidade. Suas mães compuseram a última geração de mulheres cativas em Santa Maria. Essas crianças, nascidas a partir da Lei de 28 de setembro de 1871, passaram a ser consideradas livres e ingênuas, diferentes da condição jurídica de suas mães, que ainda seguiam escravizadas. 

Eu estudo, então, as trajetórias dessas crianças, que tiveram uma vida marcada pela corda bamba entre a escravidão e a liberdade, envoltas pelos dispositivos daquela Lei (como as tutelas, que levaram à separação de suas mães) e procuro entender os sentidos da liberdade para essas pessoas. Eu acompanho suas vidas adultas, em seus casamentos no período republicano e procuro entender como se dão essas configurações familiares, o que essas pessoas almejavam enquanto família, como se articulavam e quais as suas estratégias familiares neste contexto, que é marcado pela Abolição, pela República e por lutas por cidadania e direitos diante das hierarquias raciais reformuladas.

Por que é relevante realizar este estudo?

Acredito que é um estudo fundamental, pois ele revela uma outra cidade, para além das elites locais, brancas e suas famílias, que angariaram espaços de poder, atuação política, ascensão social e econômica, muito representadas em obras de memorialistas e monumentos da cidade. Eu e outros historiadores estamos apresentando uma Santa Maria multiétnica, para além de homens e mulheres brancos, europeus, descendentes e de ascendência luso-brasileira e ítalo-germânica. Há uma expressiva população negra e, de modo geral, não branca (pretos, pardos e caboclos, nos termos dos censos da época), que, no século 19, chegaram a representar 48% da população total da cidade. Homens e mulheres indígenas, negros livres e escravizados, que não podemos mais ignorar da história de Santa Maria. Nossos estudos têm demonstrado a presença expressiva dessas pessoas, bem como suas formas de atuação, culturas e trabalhos, seus protagonismos em busca de melhores condições de vida, fossem ações individuais, coletivas ou familiares, associativas, etc. Além disso, temos conseguido demonstrar como a cidade foi palco importante das experiências negras no pós-emancipação e no pós-Abolição, sendo pólo de atração para muitos ex-escravizados do estado, que procuraram melhores condições de trabalho, possibilitadas por uma cidade em expansão, devido à ferrovia. 

Desvelamos importantes nomes e sobrenomes, famílias inteiras e suas genealogias, de pessoas vinculadas a feitos importantíssimos da história da cidade no pós-Abolição, a exemplo do associativismo negro local, que englobou 30 associações negras na cidade (mapeadas pelo GEPA, em livro lançado em 2020), tais como clubes sociais, irmandade religiosa, imprensa negra, clubes de futebol, clubes políticos, recreativos e carnavalescos, espaços que engendraram políticas e ações, que pautavam igualdade e direitos.

Já apresenta resultados?

Em meus estudos, pude entrevistar netos e netas de pessoas escravizadas e retornar a essas pessoas informações acerca de seus ancestrais, suas genealogias e documentos relacionados a suas famílias, delineando a atuação de seus antepassados, como é o caso dos irmãos Rossy, Romeu e Romilda do Nascimento, netos de José Francisco do Nascimento e Innocência Maria Joaquina, família cuja trajetória foi tema de meu estudo no Mestrado. Em pesquisa paralela, junto à Comunidade Quilombola Rincão dos Fernandes, de Uruguaiana/RS, por exemplo, foi possível localizar as cartas de alforria dos ancestrais da comunidade, onde atuei como historiadora na escrita do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) via Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA/RS).

Foto de 4 pessoas sentadas no sofá de uma casa. 3 negros idosos e uma jovem estudante

Até o momento, analisei o livro de batismos religiosos dos nascidos de Ventre Livre em Santa Maria. Tratava-se do registro de 532 crianças nascidas entre 1871 e 1887, filhas de mulheres escravizadas na cidade. Através desse livro, foi possível localizar essas crianças, seus nomes, suas mães, os senhores e senhoras que as escravizavam, os locais onde nasceram e foram batizadas, suas datas de nascimento e batismo, seus padrinhos e madrinhas, os padres que as batizaram, etc. Através desses dados, podemos construir séries e categorias analíticas, que nos permitem observar um perfil dessas crianças e alguns padrões, bem como comportamentos destoantes, permitindo levantar uma série de questões, observadas depois em redução da escala de análise, através de métodos que tomam os seus nomes como fios condutores. Cruzamos, assim, inúmeros outros documentos para acompanhar suas trajetórias, tais como os registros de casamento, registros de óbitos, processos de tutela, etc. 

Há mais mulheres na sua área de atuação? A presença de mulheres na sua área de pesquisa é expressiva? 

Acredito que no campo da História, a presença de pesquisadoras mulheres seja equivalente ou em números aproximados da presença masculina, o que, por outro lado, não significa que não enfrentemos barreiras sociais, em razão de nosso gênero, situações de assédio, importunação, descrédito, preterimento, silenciamento, apagamento e outras tantas violências, que lidamos desde o nosso nascimento. A bibliografia amplamente lida nos cursos e programas de pós-graduação em História ainda apresenta um perfil muito restrito de autores, sobretudo de homens brancos, de tradição ocidental e eurocêntrica, o que vem sendo tensionado dentro e fora da academia, permitindo redescobrir outros autores e autoras, epistemologias, cosmovisões, fontes e métodos. 

O campo de estudos em que atuo, do pós-Abolição no Brasil, tem forte presença de historiadoras e historiadores negros, por exemplo, alterando e confrontando o perfil hegemônico da produção historiográfica, fruto, também, de longas lutas dos movimentos negros, que tornaram possível a implementação e a ampliação de políticas de acesso e permanência ao ensino superior, que são essenciais para atingirmos mais igualdade nos espaços universitários.

Você teve professoras ou outras pesquisadoras/extensionistas que te apoiaram e te inspiraram nessa trajetória? Poderia falar mais sobre ela(s) e como elas te incentivaram?

Tenho a felicidade de ter encontrado mulheres maravilhosas em minha trajetória que me apoiaram e me inspiraram. Conheci no Museu Treze de Maio, pessoas importantes, que me conduziram, também, ao mundo da pesquisa. Entre elas, Marta Nunes, que era Diretora Técnica do Museu, que tenho como grande amiga e importante referência. Marta Nunes é doutora em Química pela USP, pós-doutora em Química pela UFRGS e pela Universidade da Califórnia em Davis/CA/EUA e é Professora Adjunta da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS). Ela é uma mulher inspiradora, que tem a trajetória de vida ligada a um importante clube social negro da cidade de Santa Cruz do Sul e articula inúmeros projetos culturais, de ensino, pesquisa e extensão dentro e fora das universidades. Marta sempre apoiou minha formação, esteve em minha banca de Graduação, escreveu o prefácio de meu primeiro livro (2016) e me apoiou quando precisei sair de casa. Trabalhamos juntas há cerca de oito anos, em diversos projetos e movimentos sociais. Em 2018, Marta foi uma das pessoas que tornou possível levar cinco pesquisadoras, entre elas eu, para apresentarem trabalhos no II Seminário Internacional Histórias do Pós-Abolição no Mundo Atlântico, que aconteceu no Rio de Janeiro. Nos últimos anos, ela é a responsável por promover projetos e pesquisas sobre mulheres nas ciências naturais e exatas, engenharia e computação. É coordenadora do projeto “Meninas nas Ciências – UERGS”, que possibilita inspiração e acesso à pesquisa a outras tantas meninas.

Foto preto e branco de duas mulheres segurando um livro aberto

Também destaco a importância da professora Beatriz Loner em minha trajetória. Uma importante historiadora que me deu aulas na UFSM e me abriu todo um universo de possibilidades em termos de pesquisa, apresentando-me livros, autores, fontes, mecanismos de pesquisa. Foi a responsável por me iniciar nos Arquivos de Porto Alegre. Loner é um dos nomes mais importantes da historiografia do Pós-Abolição no Rio Grande do Sul e da História Social do Trabalho no estado. Era Graduada em História pela UFRGS, mestre em História pela Unicamp e doutora em Sociologia pela UFRGS. Foi minha co-orientadora na Graduação e sempre incentivou a seguir meus estudos no Mestrado, inclusive, tendo lido e debatido meu projeto, tornando-se, novamente, minha co-orientadora. Infelizmente, veio a falecer em 2018, aos 66 anos de idade, após lutar contra a doença que a acometera por quase dois anos. No período que esteve internada, pude visitá-la para transmitir algumas boas notícias de nossas vitórias conjuntas, as quais não teria conseguido sem o seu apoio, de professora exemplar. Em nossas últimas conversas, ela incentivou-me a ir para o Doutorado e voar sempre.

Quais são os maiores desafios enfrentados por mulheres na busca pela igualdade de gênero na ciência?

Muitas de nós fomos ou somos constantemente assediadas ou violentadas até chegarmos aos bancos escolares, ao ensino superior, à pós-graduação e aos laboratórios e salas de pesquisa onde atuamos. Até chegarmos onde estamos, nós já passamos por muitos assédios, dentro de nossas casas, nas ruas, nos ônibus, nos postos de trabalho. E, muitas vezes, os espaços educacionais, que nos permitiriam a possibilidade de uma ascensão social, reproduzem essas violências de gênero em sua estrutura. Que, como toda a sociedade, ainda é gerenciada, hegemonicamente, por homens brancos, muitas vezes sequer comprometidos em ouvir queixas, denúncias e reivindicações das mulheres acerca dessas violências, em ambiente educacional e de pesquisa. A educação, a formação e a pesquisa podem ser importantes vias de libertação feminina para muitas de nós, é através delas que muitas de nós conseguem angariar oportunidades, melhores postos de trabalho, melhores condições econômicas e condições de vida para si e seus filhos, que são muitas vezes fatores chave, que impactam na emancipação de mulheres atreladas à violência. 

Esses espaços de educação e pesquisa para nós mulheres são fundamentais. É preciso tornar esses espaços educacionais de formação e produção científica, cada vez mais, ao alcance de nós mulheres, já que são parte fundamental de uma política emancipatória de gênero. Para isso, as universidades, os programas de pós-graduação, os laboratórios precisam estar atentos à presença ou ausência das mulheres, precisam garantir acesso e permanência que, muitas vezes, tem a rotina marcada por jornadas triplas de trabalho e pela maternidade. 

De que forma você acredita que mais meninas poderiam ser incentivadas a se interessar pela ciência e ambicionar se tornarem cientistas?

Acredito que um bom exemplo são os investimentos em políticas de Ações Afirmativas e de Inclusão. Há, por exemplo, editais de ingresso na pós-graduação que, nas avaliações curriculares, ampliam o período de comprovação de produção para candidatas mulheres, considerando o tempo de maternidade destas, sejam mães biológicas ou adotivas, cis ou trans. Da mesma forma, as políticas de cotas para pessoas trans, entre essas mulheres, que permitam reserva de vagas a esse grupo social, respeitando, inclusive, a utilização de seus nomes sociais.

Projetos de extensão são também fundamentais no incentivo para que outras meninas possam ambicionar a pesquisa científica. Espaços de divulgação científica, de iniciação à ciência, que diminuam o distanciamento entre as universidades, o ensino superior e o ensino básico parecem extremamente necessários, com a abertura de laboratórios e bibliotecas. Como as gerações futuras ambicionarão ser algo que não conhecem? Que não ouviram falar? Que não possuem referências? É extremamente necessário retornar à população em geral, sobretudo às jovens meninas, o que fazemos em nossos laboratórios, projetos e pesquisas, formando redes que impulsionem umas às outras. Dentro dessa política de libertação das mulheres por meio da educação, cito como exemplo, mais uma vez, o projeto “Meninas nas Ciências – UERGS”, coordenado pela Profa. Dra. Marta Nunes, uma grande referência para mim.

 

As outras doutorandas entrevistadas são Rosane Heck do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia de Alimentos e Jéssica Croda do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Florestal.

Confira também o programa Elas na Ciência no canal do YouTube da TV Campus que entrevista professoras da UFSM.

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